Quando eu era criança, minha família (meus avôs, minha mãe e meu irmão) costumava fugir do barulho das troças do carnaval recifense indo para a Zona da Mata do Estado, aproveitando a ocasião para visitar minha tia-avó. A viagem não me agradava muito, mas não adiantava reclamar.
Minha tia-avó, que também era minha madrinha, chamava-se Antônia, carinhosamente chamada de tia Nita, morava em Carpina, cidade natal da família da minha avó materna. A casa, que era bem grande e bem antiga, lembrava as casas descritas em romances do século XIX. Naquela época, as cidades interioranas seguiam o padrão "tudo acontece ao redor da pracinha", ainda que estivessem saindo dessa fase para uma mais comercial.
Tradicionalmente comum na Zona da Mata, o Maracatu de Baque Solto, também conhecido como Maracatu Rural, garantia a alegria de Carpina durante o feriado carnavalesco. Eu, entretanto, não me alegrava muito com ele. Os caboclos de lança - talvez pela iminência do duelo, ainda que fictício - davam-me medo. Meu avô, serelepe que só ele, ficava chamando os caboclos para perto de mim, obrigando-me a correr para os braços da minha mãe.
As tardes em Carpina eram bem pacatas. Os mais velhos, sentados em cadeiras de balanço, conversavam embaixo das árvores, enquanto eu e meu irmão, por não estarmos muito adaptados ao clima do interior, ficávamos escutando atentamente tais conversas. Eles falavam sobre, além de reminiscências, o "endiabramento" carnavalesco. Assim, cresci achando, graças aos meus progenitores, que carnaval era coisa do cão.
Nessa mesma época, o carnaval de Recife era um pouco diferente de como é hoje, ao menos é assim que o percebo. As troças, em geral, tocavam ritmos baianos, pois o axé estava na moda. Foi o auge da Banda Pingüim, com a música
A vida inteira te amar, de André Rio tocando
O bicho vai pegar, e de blocos como o Parceria, famoso por trazer bandas como "É o tchan" para a praia de Boa Viagem. Realidade transformada (ainda bem!) a partir dos governos de João Paulo e Luciana Santos, que instituiram a valorização das raízes pernambucanas no carnaval das cidades de Recife e Olinda, respectivamente.
O Maracatu de Baque Virado - diferentemente do Maracatu Rural, que é oriundo da cultura de Pernambuco - nasceu da tradição africana do Rei do Congo, que foi trazida para o Brasil através da colonização portuguesa. Caracterizado por um forte batuque, que energiza multidões durante o cortejo, o som deste maracatu pode, sem erro, ser verificado aos domingos nas ruas do Recife Antigo, sem hora nem lugar exato, sendo sempre uma surpresa boa encontrá-lo.
O meu primeiro contato com o Maracatu de Baque Virado, também chamado de Maracatu Nação, foi quando eu cursava a quinta série ginasial, durante os ensaios para a abertura dos jogos. O tema que o meu grupo (o vermelho) ficou responsável para retratar no evento esportivo foi A cultura pernambucana. Sinceramente, não lembro dos temas dos demais grupos (verde - eterno rival, azul e amarelo), mas me recordo bem dos ensaios e, principalmente, da apresentação final do grupo vermelho, que além de vários outros ritmos pernambucanos, mostrou um Rei Momo de dar inveja.
Durante alguns anos, enquanto eu migrava da minha infância para a adolescência, só pude curtir as festividades carnavalescas pela televisão, que, naquela época, dava total primazia ao carnaval carioca, mostrando as apresentações das escolas de samba à noite e reprisando-as à tarde. Ao completar meus quinze anos, consegui maior liberdade, podendo freqüentar o carnaval do Recife Antigo com amigos. Se na televisão já era emocionante, estar no Marco Zero, pulando ao som de Alceu Valença era algo impagável; cruzar com o batuque do maracatu nas ruas velhas do Recife também. E assim foi o meu carnaval até a minha fase "vestibulesca" (que durou muito) chegar e impedir tamanha folia.
Agora, livre do estresse do vestibular e com saudade do meu Recife em época carnavalesca, pretendo voltar às ruas, no próximo ano, para frevar. E enquanto o carnaval não chega (?), vou matando a saudade, ouvindo frevos-canção e pensando numa fantasia.
*Créditos às amigas Suzy e Mayra Luna, que me acompanharam aos carnavais no Recife Antigo.