sábado, 1 de novembro de 2008

Conhecimento Jornalístico e a obrigatoriedade do diploma

A partir de um breve panorama histórico da prática jornalística e vislumbrando uma nova abordagem do Jornalismo enquanto forma de conhecimento, defendo a concepção jornalística dissociada da visão do senso comum, mas imbricada a um respaldo teórico, dando visibilidade à discussão da obrigatoriedade ou não do diploma na profissão.

Antes das Revoluções Burguesa e Industrial, o conhecimento que se tinha do mundo era bastante genérico e universal, baseado na realidade imediata, exemplificada por Eduardo Meditsch1 pela preocupação com a própria casa e com os vizinhos. O Jornalismo surge no contexto do desenvolvimento industrial e do capitalismo, sendo, inclusive, atribuído como conseqüência do modo de produção capitalista, em que as relações passaram a ter caráter universal e dinâmico, permitindo o conhecimento da humanidade a nível internacional.

Assim, diferentemente do que ocorria na Idade Média, o mundo não mais é baseado em relações singulares, como as com o vizinho. A partir da Revolução Industrial, as relações no mundo passam a exigir um caráter universal, em que todos podem, efetivamente, relacionar-se com todos. É diante de tal necessidade que o Jornalismo surge como forma de conhecimento capaz de possibilitar a interação do indivíduo com o mundo. Para Adelmo2, “o Jornalismo é uma forma de conhecimento baseado no singular, surgido a partir da Revolução Burguesa e que atingiu a maturidade com a industrialização.”

Sylvia Moretzsohn3, em Pensando Contra os Fatos, traz a importante lembrança de que, mesmo sendo considerado um pilar da democracia pela Constituição americana, o Jornalismo era, naquela época, alvo de contestações por parte da elite intelectual, por considerarem-no superficial e efêmero, rejeição que perduraria até o século XIX.

Sobre o Jornalismo como produção de conhecimento, Adelmo Genro Filho refuta as orientações funcionalistas de conhecimento de — atrelado ao uso familiar e ao hábito, sem corresponder à produção sistematizada — e conhecimento acerca de — produto formal e criterioso de conhecimento, formulado teoricamente —, baseadas na filosofia de William James4 e proferidas por Robert E. Park5, por considerá-las reducionistas.

Discordando das diversas concepções teóricas existentes sobre o Jornalismo — desde as que consideram-no puramente comunicacional às que o vêem como meio de integração dos indivíduos à sociedade —, Adelmo propõe, através da filosofia hegeliana, a construção de um novo conceito de Jornalismo, distante do modo de pensamento positivista e próximo do marxismo, elucidando uma teoria marxista de Jornalismo.

Diferentemente do senso comum, o Jornalismo não deve ser considerado tão-somente uma atividade prática; pois, embasa-se teoricamente em estudos antigos que discutem o seu papel enquanto forma de conhecimento. E é através de um ensino superior alçado nesse propósito que o Jornalismo deixará, então, de ser visto como uma necessidade técnica e passará a ser reconhecido como teoria, partindo de conhecimento coeso e não de “achismos” redacionais.

Além proporcionar condição mais coerente de trabalho para os profissionais da área, pautando-se em um reconhecimento digno de qualquer ciência, o Jornalismo necessariamente vinculado ao ensino superior garante à sociedade uma prática jornalística mais responsável, que partirá da cotidianidade, será fundamentada na academia e retornará enriquecida à cotidianidade, desenvolvendo, assim, importância de ciência.


Notas:

[1] Professor-doutor em Ciências da Comunicação que tem se dedicado a estudos sobre a teoria do conhecimento em Jornalismo, autor de O Conhecimento do Jornalismo.

[2] Adelmo Genro Filho foi professor e mestre da UFSC, responsável por trabalho de referência na teoria do Jornalismo, posteriormente publicado na forma de livro, sob o título O Segredo da Pirâmide - Para uma teoria marxista do jornalismo.

[3] Especialista em modernas tendências da mídia e professora da UFF

[4] Psicólogo e filósofo norte-americano.

[5] Sociólogo norte-americano e um dos fundadores da Escola de Chicago que exerceu durante muito tempo a atividade jornalística.


Referências Bibliográficas:

GENRO FILHO, Adelmo. O Segredo da Pirâmide: por uma teoria marxista do jornalismo. Porto Alegre: Tchè, 1987. p. 54-68.

MEDITSCHI. Eduardo. O Conhecimento do Jornalismo. Florianópolis: Editora da UFSC, 1992. p. 23-34.

MORETZSHOHN, Sylvia. Pensando Contra os Fatos. Rio de Janeiro: Revan, 2007. p. 52-53; 122-130.

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