segunda-feira, 10 de maio de 2010

Quem é que joga fumaça pro alto?

Desde criança, nutro certo fascínio pelo cigarro. Volta e meia saia procurando por bitucas nos cinzeiros de casa sempre que algum cidadão fumante fazia-nos uma visita. Meio psicótico, mas é verdade. De qualquer maneira, durante a adolescência, sempre agradeci e recusei as ofertas de cigarros que me fizeram; nem foram muitas, por sinal, visto que a maioria dos meus amigos é "geração saúde" (só) nesse sentido. O encantamento por aquela fumacinha persistiu e durante anos fui vidrada pelos carinhas que, como costumo dizer, "fumam bonito". Não sei bem explicar esse conceito, mas tem gente que fuma de forma atraente, certo? Depois dessa, eu só posso achar bom não ter vivido durante os anos 70. Certamente, seria uma vítima da feroz publicidade tabagista da época. Assim, segui somente admirando a fumaça, sem sequer pôr um cigarro na boca. Contudo, num período de constante assiduidade ao Recife Antigo e na companhia de um grande amigo sempre com cigarros bacaninhas no bolso, foi difícil resistir. Até resistiria, mas pra quê? Tava com vontade. Que mal há, não é mesmo? Há muitos, na verdade, mas um só não mata. Então, num climinha contagiante, há quase quatro anos, experimentei meu primeiro cigarro. Depois desse, só mais uns dez para (tentar) aprender a tragar. Poucos mesmo. Até porque percebi que é mais legal observar do que fumar. Cigarro, além de ser um gasto, é prejudicial à saúde. Sem contar a perseguição emplacada hoje em dia contra quem fuma, quase um "comando de caça aos fumantes". Por sinal, mesmo não curtindo - de jeito nenhum - levar a fumaça dos outros na cara, discordo dessa coisa segregadora de "é proibido fumar em todo e qualquer lugar do planeta", tal como acho o fim pessoas desagradáveis o suficiente para acenderem cigarros nos lugares e nas horas mais inconvenientes possíveis.
"Eu era discriminado poque não fumava numa época em que todos fumavam e isso era considerado charmoso e chique. Aí comecei a fumar e agora a discriminação é ao contrário: é porque eu fumo."
Marco Nanini, em entrevista à Playboy (maio/10)

sábado, 17 de abril de 2010

Primeiro ato

Poucas pessoas compreendem a genialidade de um homem tão ferozmente criticado por sua pornografia, sobretudo na época em que Nelson Rodrigues viveu. Eu, que ainda faço parte do grande grupo, deparei-me com esse "anjo pornográfico" em alguns momentos da minha vida. Entrei em suas peça entendendo pouco e sai do teatro entendendo menos ainda, mas sempre bastante pensativa. Foi assim com Toda nudez será castigada e Os sete gatinhos. Contudo, mais uma vez, a vida me pôs sob a leitura de Nelson. Agora em, talvez, sua peça mais famosa: Vestido de noiva.
Estrelada em 1943, Vestido de noiva foi originalmente dirigida pelo polonês Zbigniew Ziembiński. Carinhosamente chamado de Zimba, esse homem é considerado um dos fundadores do Teatro Moderno Brasileiro, título que se deve, sobretudo, à sua performance nessa peça. Em Vestido de noiva, ele abusou da iluminação e conseguiu desenvolver bem os três planos (realidade, alucinação e memória) propostos por Nelson, que pretendia retratar o universo da classe média carioca na década de 1940. Uma sociedade em que sobrava hipocrisia e preconceito.
Assim, mergulhei, dessa vez mais profundamente, na obra desse dramaturgo. Foi tudo meio sem querer, eu queria Dois perdidos numa noite suja, de Plínio Marcos, mas só tinha Vestido de noiva. Minha preferência partia do princípio de que já assisti a uma montagem da primeira peça, diferentemente da outra obra, que só conhecia de ouvir falar. Além de ser desconhecido para mim, o texto de Nelson me dava certo medo. Não, especificamente, Vestido de noiva, mas toda a obra dele parecia muito aquém das minhas possibilidades. Mesmo assim, aceitei o desafio. Eis que me aproximei de Alaíde. Se a parceria vai dar certo, não sei; descobriremos nos próximos atos.

"Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico."
Nelson Rodrigues

domingo, 28 de março de 2010

Agradecida e encantada

Pode parecer ignorância, mas, até um dia desses, eu só conhecia o Mário Lago ator. Lembrava dele apenas por meio de suas participações em algumas novelas. E mesmo cantarolando bastante Ai que saudade da Amélia, não imaginava que tal música consistia numa composição sua com o saudoso Ataulfo Alves. Contudo, não faz muito tempo, e eu fui apresentada à faceta poética desse homem. Alguns de seus textos, muitas vezes considerados pedantes, utilizam o requinte para falar sobre coisas simplórias, mas não se pode dizer com isso que ele não sabe traduzir bem os sentimentos. Constatei isso ao ler Devolve, poema pelo qual me apaixonei à primeira olhadela. Como não se encantar com versos que traduzem com exatidão e tom sublime sentimentos tão cáusticos e dores tão latejantes? Não poderia deixar de encantar-me com palavras tão passíveis de serem ditas, com composição tão verossímil. Assim, por ontem ter emocionado-me novamente ao ouvir a recitação de Devolve, resolvi compartilhar um pouco de Mário Lago. Eis o poeta que eu não conhecia e agora faço questão de ler e ouvir.


*Créditos ao romântico que me apresentou ao poeta Mário Lago.

domingo, 21 de março de 2010

AuAU

Como alguns sabem, volta e meia eu gosto de brincar no Paint Brush; às vezes até crio personagens — vide Melancélia. Lino é mais um dos meus desenhos. Criado a partir de uma certa (e bem vaga) inspiração no famoso cãozinho Snoopy, pode-se dizer que Lino é um Beagle típico. Brincalhão, ágil e extremamente dócil, ele é um ótimo companheiro para as crianças e um fiel amigo. Diferentemente de Snoopy, Lino não anda apenas sobre duas patas e prefere dormir dentro da casinha, sendo um cão aparentemente mais "normal". Talvez, por isso mesmo, Charlie Brown preferisse ele ao seu cãozinho lunático. Será?
— Good grief!

sexta-feira, 19 de março de 2010

Viagem qualquer

Estava no ônibus, atravessando a cidade para mais uma correria diária, e avistei uma criatura aparentemente simpática. Ela entrou no ônibus quando este passava por perto do Poço da Panela, um bairro charmoso, onde, volta e meia, eu vou dar um passeio. Esse fato tornou aquela pessoa ainda mais cativante, afinal, qualquer dia podíamos dar uma volta pelas ruas de pedras ou sentar na beira do rio, quiçá as duas coisas. Passei o caminho inteiro em alerta, observando os seus movimentos, percebendo seus detalhes. Com isso, ao ler um papel que a criatura carregava nas mãos, descobri seu nome poético. Olhando um pouco mais para suas mãos, notei que estava diante de alguém que toca violão ou algum instrumento de corda. Posteriormente, pude observar alguns gestos de gentileza realizados por ela que me encantaram bastante. Dessa vez, a viagem foi curta, as ruas pareciam, incrivelmente, descongestionadas, só para me contrariar. Ainda pensei em falar algo, cheguei a ensaiar uma desculpa para puxar papo, mas hesitei e sequer balbuciei um "oi". Assim, o destino da pessoa chegou. Sim, a viagem havia chegado ao fim. Sem que tivêssemos trocado qualquer palavra, a criatura levantou-se e foi embora.

quarta-feira, 3 de março de 2010

O romântico em mim insiste em trabalhar*

Dia desses, lendo 1968 - O ano que não terminou, do jornalista e escritor Zuenir Ventura, deparei-me com uma curiosa constatação do autor acerca da sociedade daquela época. Logo no início do livro, ao descrever uma badalada festa realizada naquele ano, ele faz uma reflexão, que é, sem dúvida, atemporal, sobre os relacionamentos amorosos. Momento de experimentações, Zuenir acredita que a subversão daquele período foi levada às últimas conseqüências. Nas rodas de conversas, digamos, liberais, a construção da família e até mesmo o ideal de relação estável eram pensamentos bastante combatidos. "Se os exemplares mais estabelecidos da geração tentavam subverter o casamento pela sua destruição, outros, mais novos, começavam a experimentar formas alternativas de relacionamento que não reeditassem os compromissos matrimoniais impostos pela convenção", disse ele na página 30. A ideologia mudava o comportamento das pessoas e a tecnologia dava respaldo a tudo isso, através, por exempo, da popularização da pílula anticoncepcional. Tudo com o objetivo de quebrar tabus. E quebramos.

Imbuídas pelas obras de Simone de Beauvoir, as mulheres tentavam fugir da "servidão" ao marido e de tudo o que pudesse reduzi-las ao título de "segundo sexo", numa revolução sexual que, como se diz, teve início nas prateleiras. Tudo numa tentativa de combater o ideal feminino das décadas anteriores, que estava profundamente ligado ao desejo da maternidade e aos cuidados domésticos. Nessa época, teve-se a banalização do que hoje o Orkut chama de "relacionamento aberto", o estado civil mais coerente a ser seguido, mas que, com freqüência, esbarrava (e ainda esbarra) na questão sentimental. Vendia-se, conforme Zuenir, a teoria de que com a racionalidade se podia driblar a emoção, resumindo tudo ao prazer. E, assim, as pessoas entraram em conflito, com o outro e, principalmente, com elas mesmas. Como aceitar sentir ciúme se as pessoas são livres e os relacionamentos são abertos? Era mais um dos paradoxos tão comuns entre o racional e o emocional, a mente e o coração. Para isentar-se desse pensamento dito retrógrado, nada melhor do que a desculpa cantada por Roberto Carlos nos versos "Se você põe aquele seu vestido lindo e alguém olha pra você, eu digo que já não gosto dele, que você não vê que ele está ficando démodé. Mas é ciúme, ciúme de você."

Hoje, 32 anos depois, Arnaldo Jabor publicou no jornal um texto que me remeteu à leitura do clássico de Zuenir Ventura. Sob o título Acabou o tempo do "happy end", Arnaldo tece alguns comentários a respeito de relacionamentos e até mesmo do amor. Para ele o romantismo saiu de moda. É como se tivesse cedido lugar ao que o escritor polonês Zygmunt Bauman classificou como Amor líquido, Modernidade líquida e todos os outros líquidos que se possa imaginar. "Quando eu era jovens, nos anos 60/70, o amor era um desejo romântico. Depois, nos anos 80/90 foi virando um amor de mercado", escreveu Jabor. Ele acredita que as relações afetivas nem podem mais ser chamadas assim, pois não passam de um "ficar" descompromissado. Num dos parágrafos do seu texto, há uma frase que me chamou atenção e remeteu-me a outro escritor, Júlio Cortázar. Arnaldo comenta que hoje tudo acontece de forma celerada, "[...] sem o lento perder-se dentro de 'olhos de ressaca'." Ao ler isso foi impossível não lembrar do (emocionante e belo) sétimo capítulo — único que eu li — de Jogo da Amarelinha ou, no original, Rayuela.

Confesso que meu romantismo sentiria e sente dificuldade para adaptar-se a quaisquer desses momentos, o 1968 ou o agora. Talvez, para quem acredita em horóscopo, a natureza apaixonada de escorpião explique como seria difícil para mim viver numa sociedade tão liberal quanto a da década de 1960 queria ser. Basta um pouco de convivência para perceber o quanto eu mergulho numa relação, sem saber vivê-la de forma superficial. E, possivelmente pelo mesmo motivo, não sou afeita à rapidez com que as coisas acontecem agora, ainda que, eventualmente, eu caia "no suingue pra me consolar", como diriam Pedro Luís e A Parede. Sempre fica o sentimento de frustração e a pergunta de para onde foram os diálogos inteligentes que precedem e sucedem as brincadeiras de ciclope ("Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope"). Inclusive, o que foi feito dessas brincadeiras? Acho que sou de uma geração em que se queria viver os sentimentos e em que as relações não eram assim, fugazes. Será que devo gritar "Pare o mundo que eu quero descer"?


*Paródia de trecho da canção O romântico em mim, de A Caravana do Delírio.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Pra dizer adeus

Seguindo a máxima que diz "jornalista desinformado é o futuro", somente hoje eu soube de algo que vinha rolando desde o Carnaval: Titãs perdeu mais um integrante. Após a despedida de Arnaldo Antunes, a perda de Marcelo Frommer e o adeus de Nando Reis, respectivamente, foi a vez do baterista Charles Gavin anunciar a sua saída da banda. Agora restam apenas quatro dos oito integrantes do antigo Titãs do iê-iê. Sem contar os dois outros músicos que também fizeram parte da banda no comecinho dos anos 80, Ciro Pessoa e André Jung. Vale ressaltar que Charles não integrou a primeiríssima formação dos Titãs, ingressando na banda em 1984, após a retirada do pernambucano André Jung, também baterista. Antes de tornar-se titânico, Charles dividiu palco com a rapaziada do RPM e Ira!.

Quando descobri a existência da banda, ela já se encontrava desfalcada de Arnaldo. Meu primeiro contato com os Titãs deu-se em meados de 1999, por meio do vinil Cabeça de Dinossauro, do meu tio mais novo. Lembro-me bem de que eu, meu irmão e meus primos gritávamos e pulávamos ao som de Homem Primata, mesmo sem entender o que diabos era o tal "capitalismo selvagem". Anos mais tarde, quando os titânicos já não tinham mais a língua ferina de outrora e só compunham baladinhas, eu comecei a entender o sentido daquilo tudo. Pena que tão tarde. Ainda assim, curti bastante o som dos Titãs e ficava impressionada ao ver tanta gente no palco; uma formação de banda bem diferente da que eu estava acostumada a ver.

Hoje, mesmo sem acompanhar o trabalho dos Titãs há muito tempo, saber da saída de Charles Gavin mexeu comigo. Essa despedida significa mais um momento de desintegração de uma banda que eu admiro e que foi personagem importante da história do rock nacional da década de 1980. Os admiradores do grupo, sem dúvida, ficaram tristes e cobraram de Charles o cumprimento da sua repetida afirmação de que tocaria na banda até morrer. Nesse caso, como lembrou um dos fãs, parecem oportunos os versos "Não confio em ninguém com mais de 30. Não confio em ninguém com 32 dentes."

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Quanta leseira

Marcando o início do Carnaval, ainda na quinta-feira (11), a tão esperada prévia anárquica do Quanta Ladeira encheu os jornais do dia seguinte com uma pá de comentários negativos. Todos discorrendo sobre o (suposto) fracasso da festa. A maioria apontava a ausência de Lenine como causa para o fiasco, como se o cara por si só representasse o bloco. Sem contar que esse argumento é, no mínimo, incoerente. Como ignorar a criatividade de toda aquela galera que estava no palco divertindo a multidão? Também houve muitas críticas referentes à falta de estrutura do evento. De fato, teve-se que levar a sério a famosa sátira à canção de Alceu, "Morena, tome cana, cerveja acabou!", isso para não adentrar na questão logística da coisa. Problemas à parte, impossível não se contaminar com a criatividade e a língua ferina daquela turma ridicularizando geral. Só sendo o que se convencionou chamar de "galerinha Carvalheira", aqueles miguxos que foram para a prévia pela fuzarca e pela briga por ingressos, mas sequer entendiam as paródias e, não raro, se horrorizavam com o conteúdo "impróprio" das letras. Mas eles não foram os únicos a reclamar da festa, até os assíduos falaram mal. Criticavam a quantidade de gente e a popularização (natural) do bloco, num coro estranho de "Ai que saudade do Quanta Ladeira", como se a popularização fosse, em si, algo negativo. Um sentimento típico do mundinho alternativo que tem tesão por gostar do que pouca gente conhece e não suporta ver seu objeto de desejo ser admirado pelo povão. Contudo, contrariando as especulações infundadas e num clima meio "Queiram ou não queiram os juízes...", domingo (14), no bloco, Lula Queiroga adiantou: ano que vem tem mais.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O Ready-made musical de Israel

O álbum mais revolucionário de 2009 é resultado de uma miscelânea de vídeos do YouTube criativamente sobrepostos em forma de música.


Conhecido profissionalmente como Kutiman, Ophir Kutiel — músico, compositor e produtor musical israelense de Jerusalém — é o responsável pelo primeiro álbum lançado no YouTube e produzido com mescla de diversos vídeos dessa rede social. A idéia era compor uma espécie de “som colaborativo”. Assim, inspirado, principalmente, pelas batidas do funk, esse músico dedicou-se a vasculhar uploads amadores armazenados na internet para compor o seu maior sucesso: ThruYOU. O resultado desse projeto ousado é um álbum virtual composto por sete faixas dignas de provocar inveja a “bandas tradicionais”; sem dúvida, um dos grandes lançamentos de 2009.

Kutiman teve seu primeiro contato com a música durante a infância, quando, aos seis anos de idade, aprendeu a tocar piano, e desde então se mostrou um grande apreciador dessa arte. Posteriormente, ele passou a estudar mais dois instrumentos — bateria e guitarra — e, aos 18 anos, não hesitou em mudar de cidade para freqüentar aulas de jazz no Rimon Music College, renomada escola israelense de música contemporânea. Ainda na adolescência, ele foi apresentado — pelo amigo e parceiro musical, Sabbo — ao ritmo do “pai do soul”, James Brown, e ao multi-instrumentista nigeriano Fela Kuti, em quem se inspirou para compor o seu nome artístico.

O músico israelense já viajou bastante pelo mundo na busca por novos sons, como o reggae na Jamaica, e, atualmente, com 27 anos, ele tem cinco álbuns acumulados na carreira; todos lançados nos moldes tradicionais e a maioria pelo selo alemão Melting Pop Music (MPM). O penúltimo trabalho de Kutiman, um álbum homônimo, contou com a colaboração musical de muitos artistas israelenses, como Hadag Nahash, grupo de funk famoso por suas letras de cunho político. Tal álbum teve uma repercussão positiva em Israel, mas Kutiman tornou-se, de fato, reconhecido após a criação do seu projeto musical de vídeo online no YouTube.

Lançado em março do ano passado, ThruYOU é composto por sete faixas de puro mashup — produto novo formado a partir do conteúdo de outras aplicações da web —, quase um ready-made nos moldes de Marcel Duchamp. O próprio nome do álbum remonta a uma produção conjunta, já que, traduzido para a língua portuguesa, significa “através de vocês”. Visualmente, o trabalho deixa a desejar, afinal consiste em pedaços de vídeo-aulas de instrumentos musicais e clipes amadores de músicos. Kutiman não fez qualquer intervenção na aparência dos vídeos, apenas uma “colagem”, talvez porque propôs um álbum de música e não um áudio-visual. A beleza estética de ThruYOU está justamente na musicalidade, trabalhada de forma intensa durante dois meses de clausura em que Kutiman só via o próprio computador.

A idéia do álbum surgiu quando o produtor israelense assistiu, no YouTube, a vídeo-aulas do baterista estadunidense Bernard Purdie e passou a acompanhá-lo com a sua guitarra. A partir de então, Kutiman, ao buscar vídeos de outros instrumentos para fazer mais sobreposições, descobriu que podia misturar tudo e formar novos sons. Meses antes, ainda em 2008, no Brasil, o cantor Marcelo Camelo — da banda, em stand-by, Los Hermanos — produziu algo bem semelhante, a Orquestra YouTube, mas com qualidade bastante inferior, por ser praticamente inaudível. Assim, não se pode dizer que criação de Kutiman é, realmente, original; antes dele, outras pessoas já “tocaram internet”. A virtude de ThruYOU está no resultado, que fisgou mais de um milhão de internautas em menos de uma semana.

Os gêneros das canções são variados, remontando ora à levada dos clássicos jazz e blues, ora ao ritmo dos mais modernos hip hop e música eletrônica, resgatando também o funk e o soul. A primeira faixa do álbum — Mother of all funk chords — traz um pouco da cadência de tudo isso, sendo difícil não lembrar de James Brown. Na música seguinte — This is what it became — ficam notórias as influências do reggae e dos DJs e MCs, estes, inclusive, figuram em vários dos vídeos que compõem ThruYOU. Pode-se destacar também Babylon band, quarta faixa do álbum, que, certamente, agrada a legião de fãs da eletro music. No decorrer de ThruYOU, a melodia das músicas assume um caráter mais calmo e intimista, destoando um pouco da primeira metade das faixas do álbum. Enquanto as canções iniciais apresentam um tom mais estridente, inclusive com sons de sirene, a segunda parte do trabalho distancia-se da tendência funk, como Just a Lady, música que encerra o álbum.

Kutiman não se vê como pesquisador musical e admite conhecer pouco sobre mashup. Ele garante que o processo de criação de ThruYOU foi bastante ingênuo e concebido a partir de uma brincadeira. Assim, trata-se de um álbum não-comercial, sem qualquer intenção de repercutir — muito menos mundialmente —, tanto que foi divulgado somente para vinte amigos. Em entrevistas mundo afora, o israelense diz que produziu ThruYOU por amor e apoio aos músicos envolvidos nos vídeos utilizados, por ele, na mistureba áudio-visual e que não almeja ganhar nenhum dinheiro com o projeto. Há uma faixa extra no fim do álbum, intitulada About, em que o próprio Kutiman agradece a todos que colaboraram — ainda que sem saber — com a sua produção e explica um pouco em que ela consiste.

SÍNTESE DA CENA MUSICAL – Mesmo surgido a partir de uma brincadeira, é impossível não ver em ThruYOU uma oportunidade para discutir o momento atual da indústria fonográfica. Composto por cenas aleatórias, devidamente identificadas pelos perfis do YouTube, o álbum traz — sem pedir licença — cem vídeos sobrepostos. Kutiman, ainda que sem perceber, lançou um álbum capaz de suscitar extensos debates acerca de criação coletiva, compartilhamento de arquivos, propriedade intelectual e, até, conceito de arte. Uma vez que não pediu autorização a nenhum dos músicos que registraram os temas originais para criação do seu álbum, Kutiman — além de ter desapontado as pessoas que rejeitam o ideal mashup por considerarem-no pouco criativo — demonstrou seguir a bandeira Copyleft de livre reprodução para fins não-comerciais.

Mesmo com a revolução protagonizada pelo artista francês Marcel Duchamp, no pós-Primeira Guerra, com o conceito de Ready-made, a inserção de elementos cotidianos — a priori sem valor artístico — no campo da arte ainda tem sido bastante rejeitada. E talvez por isso, muitos internautas desprezem centenas de milhares de videoclipes do YouTube por acreditarem que só os pertencentes aos artistas das grandes gravadoras merecem ser vistos. Esse, sem dúvida, é o maior mérito de Kutiman: sua paciência para quebrar esse dogma contemporâneo — vasculhando um sem número de vídeos caseiros e plasticamente discutíveis — e comprovar que há som interessante para além daqueles consagrados.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Close your eyes...

Ontem, tudo parecia culminar em mais um domingo daqueles em que você fica em casa comendo pipoca e tentando manter-se quietinho a fim de não comprometer a semana de labuta que está quase começando. Certamente, eu teria mantido esse movimento inercial e me empanturrado de colesterol não fosse a insistência de uma grande amiga para assistir ao show de uma banda cover dos queridinhos de Liverpool. A apresentação representava uma homenagem tardia aos 40 anos de lançamento do álbum Abbey Road (26 de setembro de 1969) e seria realizada aqui bem pertinho de casa. As companhias eram agradáveis e não havia grandes motivos para me recusar a ir, exceto o fato de que ficaria entre dois casais enquanto a banda tocaria canções como Here comes the sun e tantas outras. Aceitei o convite porque seria uma oportunidade para escutar as tão queridas músicas que foram excluídas do meu computador na última formatação inesperada e qual não foi a minha gratidão aos meus amigos ao ouvir a primeira música do show?! De fato, o Abbey Road não é o meu álbum preferido dos (The) Beatles talvez por influência de outro amigo, Rodrigo , mas, ao tocar Come Together, a banda (super) me surpreendeu. O garoto (sim, um garoto com não mais de 21 anos) cantou essa música de uma forma apaixonante que, realmente, me transportou para a Inglaterra de 1969. Naquele momento, eu poderia ter ido embora e o show (além dos 20 reais gastos) teria valido a pena. Foi um domingo ótimo e o mais legal de tudo foi que após tocar todas as faixas do Abbey Road, uma por uma, na ordem do disco, rolou uma sessão de músicas aleatórias da banda, de Lucy in the Sky with Diamonds a All my Loving. Senti uma certa saudade de quem ficou pelo caminho, mas ao chegar em casa, só pude fechar os olhos para dormir, nada mais.


*Créditos a Suzy e Daniel, que me levaram para a Inglaterra de 1969.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Dando um tempo

Estou dando um tempo deste blog.

Há quem diga que "quem dar tempo é relógio". Seguindo essa idéia, muitos acreditam que quando o companheiro profere o famoso "vamos dar um tempo" o relacionamento não tem volta. Para eles, essa singela frase é o mesmo que um valeu, foi bom, adeus (HAHA), com a diferença de ser em doses homeopáticas; quase que um aviso prévio para o "foi bom enquanto durou" que virá logo mais (ou menos!). Considerando que cada caso tem sua especificidade, não quero dizer que o meu "tempo" é um fim como costuma acontecer nos relacionamentos , mas também não estou disposta a garantir um retorno.

That's all folks!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Aquela italiana que faz vestidos*

"Quando o vento arranca o chapéu da sua cabeça e o faz voar cada vez mais longe, é preciso correr mais rápido que o vento para alcançá-lo. Eu sempre soube que para construir mais solidamente, às vezes somos obrigados a destruir, a fim de estabelecer uma nova elegância para as maneiras brutais da vida moderna."
Elsa Schiaparelli


Com tanto burburinho acerca de Gabrielle Bonheur Chanel devido aos cem anos da França no Brasil e, mais ainda, por causa do lançamento do filme Coco avant Chanel (Coco antes de Chanel) , este post soará implicante, pois discorre sobre Elsa Schiaparelli, grande rival da estilista francesa. Nunca é demais falar sobre Coco Chanel, ícone da moda do século XX e, sem dúvida, o mais conhecido nome do estilismo até os dias de hoje. Certamente, esses "títulos" foram a razão para o argumento do filme e a força motriz para sua bilheteria. Antes de ser a famosa estilista que ditou moda dos seus modelos ao próprio corte de cabelo , ela era apenas Gabrielle, uma costureira e cantora de cabaré que perdeu os pais enquanto ainda era criança. Coco avant Chanel conta, em detalhes, toda a vida pré-fama dessa madeimoselle, talvez por isso algumas pessoas não tenham saído satisfeitas do cinema. Quem achava que, por meio do filme, entenderia por que essa mulher influenciou fortemente a moda, de fato, não atingiu o objetivo. Mas, como disse o jornal The Washington Times, "Se você sai do cinema decepcionado porque o filme não mostra quase nenhum dos projetos brilhantes que tornou famosa sua personagem principal, não se pode dizer que não foi avisado, já que o título é, afinal, 'Coco Antes de Chanel'".

Não tão renomada quanto a rival, Elsa Schiaparelli não foi menos importante. Grande estilista italiana, ela foi responsável por uma verdadeira revolução estética, que fundiu arte e moda. Amiga de vanguardistas como Salvador Dali e Marcel Duchamp, Schiaparelli introduziu conceitos do surrealismo e do cubismo em suas peças, criando modelos, no mínimo, ousados e irreverentes. Diferentemente de Coco Chanel, que criava um vestuário mais contido e funcional, símbolo da mulher moderna, Schiaparelli investia em modelos exóticos. Criadas em parceria com Salvador Dali, suas peças tinham forte influência surrealista e causaram grande polêmica na Europa do entre guerras. A rivalidade e o intriga entre essas duas mulheres era, basicamente, fruto dessa discrepância de perspectiva da moda. Como não se escandalizar os modelos de Schiaparelli? Eu não consegui. Hoje cedo, em conversa com minha tia sobre história da moda, conheci a extravagância e genialidade dessa estilista. Soube, inclusive, que devemos a ela a cor rosa-choque ou rosa-shocking. Abaixo seguem algumas fotos que, de tão "surrealistas", fizeram-me escrever acerca dessa mulher.

Chapéu em formato de sapato.

Vestido com desenho de lagosta.


*Xingamento de Coco Chanel a Elsa Schiaparelli, que revidava referindo-se a Chanel como "a monótona e insignificante provinciana".

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Fui à China-na

"Espere o melhor, prepare-se para o pior e aceite o que vier."
Provérbio Chinês


*Créditos a Davi Barbosa, sempre paciente.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Xau, 2009

Cara, ainda bem que o ano está acabando Nesses vinte e um anos, não me recordo de ter vivido dias tão tristes. Logo nos primeiros meses, uma grande dor no meu coração; a pessoa que eu mais amei na vida disse que seu amor chegara ao fim. E, mesmo sem querer, precisei dizer adeus aos meus sonhos e seguir. Cada fluxo de memória doía imensamente. Desta forma, ainda que pareça extremamente piegas, eu só pedia para que fosse possível fazer o mesmo tratamento ao qual Clementine foi submetida. Posteriormente, quando achei que as lágrimas haviam cessado, o fel da decepção. Inerte, pensei, por dias, que não podia confiar em ninguém e, de novo, chorei. Metade do ano foi riscada do calendário. Assim, resolvi seguir em frente e disfarçar a tristeza; a mágoa havia passado, mas a dor não. Durante esses últimos meses, tentei provar para mim mesma que posso amar outras pessoas. Nada, contudo, brotou no meu coração. Para piorar, cruzei com pessoas frívolas que, seguramente, não valorizariam quaisquer dos meus sentimentos. Por isso e por vezes, embriaguei-me para fingir felicidade, mentindo para mim mesma sobre o significado da alegria. Risos e gargalhadas não faltavam, mas bastava uma noite de sono para que eu percebesse o quão volátil era tudo aquilo. No dia seguinte, qual não era a minha decepção ao me olhar no espelho e não me reconhecer? Papai Noel, dias melhores.

domingo, 29 de novembro de 2009

Sua drágea!

Hoje dormi fora de casa e - como na maioria das vezes que isso acontece - acordei com uma crise de rinite maior do que o normal. A questão é que, quando passo a madrugada exposta ao ventilador, acordo espirrando muito, ou como costumo dizer (ainda que sem qualquer lógica), espirrando feito um boi. Nessas horas, só há uma coisa a ser feita: tomar Claritin D. Não estou fazendo qualquer propaganda, mesmo porque desta vez o efeito está vindo a passos de tartaruga. Enfim, este post não foi escrito para contar as minhas lamúrias, então vamos ao que interessa. Conheço esse remédio há anos e, ao ler a palavra "drágeas" na caixa, sempre me perguntei "o que diabo é isso?" Hoje, finalmente, desvendei o mistério (!). Fui ao Google e escrevi a palavra no navegador de busca. Qual não foi a minha surpresa ao deparar-me com o seguinte link: Qual a diferença entre comprimidos, drágeas e pílulas? Assim, descobri que a drágea é, simplesmente, um comprimido revestido com açúcar, tal como Neosaldina e Benegripe. Pelo que li, a adição dessa camada serve, em geral, para evitar a desagregação do medicamento ou facilitar a sua ingestão.

Vivendo e aprendendo (e ensinando).

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Podia ter dormido sem essa, Gabriela!

Certo dia, numa conversa com um amigo, rolou (mais ou menos) o seguinte diálogo:

As mulheres são muito complicadas.
Eu não acho, inclusive não me considero complicada.
Vou ficar calado em nome do cavalheirismo.

Na hora ignorei, mas depois pensei um pouco e cheguei à conclusão de que devo ser medianamente complicada, ok? No mais, quem ouvia Mulher de fases até acha graça dessa adjetivação.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Cara, cadê as minhas férias?*

Esses dias estão incrivelmente cansativos e longos. Como todo fim de semestre na faculdade, há milhares de trabalhos para fazer e calendários torturantes para cumprir. Noites trocadas pelo dia e dias que não se recompõem, resultado: sono acumulado e todos os males que ele acarreta. Nessas condições tenho vivido as últimas semanas, com o desejo de que o ano termine o quanto antes. Devo dizer, contudo, que o agito deste fim de ano tem deixado-me bastante satisfeita (ainda que cansada). Os últimos trabalhos do semestre e as horas dedicadas a eles pareceram verdadeiramente úteis. Afinal, dificilmente eu pesquisaria tanto ainda mais até às cinco da manhã (!) sobre a SUDENE se não exigência de um dos trabalhos que fiz. Isso me deixou feliz, até porque, vergonhosamente, meu conhecimento sobre essa superintendência ERA deveras escasso. Assim, mesmo indo para a cama com o canto dos passarinhos e a claridade do sol, dormia com a certeza de que estava valendo a pena.


*Inspiração no livro de Michael Moore Cara, cadê o meu país?

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Profissão Repórter

Hoje, após enfrentar o sol quente do meio-dia e receber vários "não", consegui apurar informações suficientes para fazer metade da minha reportagem sobre o comércio ambulante na Avenida Conde da Boa Vista. Além de não ter o perfil de uma grande (né?) repórter, minha pauta exigia conversar com pessoas que vivem desconfiadas por conta do caráter ilegal da atividade o comércio ambulante é proibido em toda a extensão da avenida citada e o comerciante está sujeito à punição ou à apreensão do seu material. Assim, minha missão foi um tanto difícil, mas não impossível. Com o meu caderninho tímido de estudante de jornalismo, fui à avenida sem medo. Contando apenas com a companhia da minha caneta Bic, tentei entrevistar, em vão, vários vendedores. O primeiro que abordei, um vendedor de falsos perfumes da Boticário, disse que as mercadorias não pertenciam a ele e apontou para o suposto dono, que devolveu a responsabilidade dos produtos para o outro cara. Logo desisti de ficar de "moleque de recado" e fui em busca de outras pessoas. Assim, encontrei uma mulher, identificada somente como Mônica, que vendia óculos de sol. Ela dizia não saber muito coisa sobre sua atividade, pois o dono mesmo era o marido. Por outro lado, Duda (tudo o que sei sobre ele), o marido, disse, de pronto, que não responderia nada. Dessa forma, ficou impossível conseguir alguma informação. Resolvi , portanto, conversar com outra vendedora de óculos metros adiante. Miriam foi bastante simpática e, junto com o seu marido, contou-me bastante coisa. Foi possível, inclusive, pegar o depoimento de uma cliente dela, que, na pechincha, levou um óculos da "Kevin Klain" por dez reais (custava 13). Enquanto conversava com esse casal, avistei um vendedor de DVDs piratas que acabava de montar seu tabuleiro, então, assim que terminei a entrevista na barraca dos óculos, fui conversar com ele. Sem qualquer simpatia, disse que estava ocupado. Insisti assim mesmo e, em seguida, arrependi-me. Na minha primeira pergunta, o cara mandou um: "Você não bota DVD, você bota brinquedo. DVD é ilegal". Fiz mais algumas perguntas e fui embora, claro. Não adiantava explicar, ele não me incitava a mentir. Segui adiante, meio cabisbaixa por não ter conseguido grandes coisas, eis que ouço "40 'nego-bom' é um real" e resolvo parar. Ainda titubeei, é verdade, mas não demorei a abordar a dona do bordão. Ela disse que conversaria comigo, mas que antes iria beber água. Fiquei esperando e quase fui embora por não acreditar que ela voltaria. Sempre desconfio dessas histórias de "vou ali e já volto". Ela demorou um pouco, mas manteve a palavra e voltou cheia de vontade de falar. Conversamos durante bastante tempo, o que me rendeu boas informações. Entre uma pergunta e outra, ela não deixava de gritar "40 'nego-bom' é um real". Quase que eu compro, mesmo sem gostar do doce. Em seguida, caminhei até o Shopping Boa Vista para encontrar as demais integrantes do grupo de reportagens sobre A Avenida Conde da Boa Vista. Elas tinham chegado há pouco tempo, mas logo se movimentaram para entrevistar as pessoas. Éramos quatro garotas, cada uma com uma pauta diferente sobre a mesma avenida. Eu resolvi dar uma parada na minha apuração, estava cansada, nem tinha almoçado. Então, fiquei, basicamente, acompanhando elas e tirando algumas fotos para a minha reportagem. Resolvi parar, contudo, quando avistei uns hippies vendendo brincos e afins. Recordei-me de um dia, ano passado, em que sentei, com uma amiga, para conversar com eles naquele mesmo lugar. Eles haviam sido bastante simpáticos naquela ocasião. Hoje, no entanto, meu papo não conquistou a simpatia deles. Ao dizer que estava fazendo uma reportagem sobre pessoas que realizam comércio naquela avenida, levei um super fora: "Então vá falar com eles ali, nós somos artesãos!". Tentei explicar um pouco, mas não cativei, só me restou ir embora mesmo. Desisti de vez de entrevistar mais gente e fiquei só acompanhando as demais integrantes do grupo. No cruzamento da Rua Sete de Setembro, demos uma parada, porque uma das meninas estava colhendo o depoimento de um taxista acerca da obra do Corredor Leste-Oeste. Assim, o resto do grupo ficou na esquina esperando, inclusive eu. Estávamos conversando e, de repente, ouço um grito. Sem que ninguém visse qualquer coisa, um sujeito furtou o colar (de prata) de uma das companheiras que estavam do meu lado. Foi tudo muito rápido, quando fui olhar, o cara já estava há mais de cinco metros de distância e as pessoas ao redor também não tinham entendido o que havia ocorrido. Um momento de tensão tomou conta do grupo. A garota furtada chorava de raiva e de tristeza, pois o colar era um presente da avó, enquanto as demais estavam assustadas. Vale citar que isso foi em frente a um posto policial, algo que, sinceramente, não me surpreende, mas não deixa de ser "irônico". Depois desse fato, metade do grupo resolveu ir embora e a outra metade ficou na avenida. Eu resolvi permanecer para entrevistar mais gente e fazer companhia para a outra integrante que não tinha conseguido apurar muita coisa. No fim das contas, não entrevistei mais ninguém. Metros e metros de caminhada e entrevistas deixaram-nos com fome. Resolvemos dar as atividades por encerradas e ir almoçar, já eram mais de 15h. Fomos ao shopping e dividimos uma pizza grande. Durante o almoço, conversamos bastante sobre questões extra-trabalho. O papo estava tão interessante que, distraídas, esquecemos de pagar a conta e saimos da praça de alimentação. Tempos depois, quando já estávamos indo embora, lembrei-me desse "detalhe" e voltamos para o restaurante. Ao chegar no lugar, percebemos o clima tenso. Os funcionários estavam reunidos e o gerente parecia discutir com a garçonete. Apressamos o passo e esclarecemos tudo. A expressão de felicidade da garçonete ao nos ver foi tão incrível. Os demais funcionários olhavam-nos com expressão de surpresa, como se dissessem "nossa! elas voltaram". Então, finalmente, pagamos a conta e fomos embora. Enfim. Vou dormir porque amanhã terei que enfrentar o sol do meio-dia na Avenida Conde da Boa Vista de novo.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Numa relax, numa tranqüila, numa boa*

A barriga da minha mãe estava apertada demais para mim, então resolvi sair do seu útero para espreguiçar-me num ambiente maior. Assim, há exatos vinte e um anos, minha mãe ingressava no hospital para me pôr no mundo.

*Trecho da música Guiné Bissau, Moçambique e Angola, de Tim Maia.

sábado, 31 de outubro de 2009

Nenhum

Que mal há em admirar mais o coração do que o rosto das pessoas?