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quarta-feira, 3 de março de 2010

O romântico em mim insiste em trabalhar*

Dia desses, lendo 1968 - O ano que não terminou, do jornalista e escritor Zuenir Ventura, deparei-me com uma curiosa constatação do autor acerca da sociedade daquela época. Logo no início do livro, ao descrever uma badalada festa realizada naquele ano, ele faz uma reflexão, que é, sem dúvida, atemporal, sobre os relacionamentos amorosos. Momento de experimentações, Zuenir acredita que a subversão daquele período foi levada às últimas conseqüências. Nas rodas de conversas, digamos, liberais, a construção da família e até mesmo o ideal de relação estável eram pensamentos bastante combatidos. "Se os exemplares mais estabelecidos da geração tentavam subverter o casamento pela sua destruição, outros, mais novos, começavam a experimentar formas alternativas de relacionamento que não reeditassem os compromissos matrimoniais impostos pela convenção", disse ele na página 30. A ideologia mudava o comportamento das pessoas e a tecnologia dava respaldo a tudo isso, através, por exempo, da popularização da pílula anticoncepcional. Tudo com o objetivo de quebrar tabus. E quebramos.

Imbuídas pelas obras de Simone de Beauvoir, as mulheres tentavam fugir da "servidão" ao marido e de tudo o que pudesse reduzi-las ao título de "segundo sexo", numa revolução sexual que, como se diz, teve início nas prateleiras. Tudo numa tentativa de combater o ideal feminino das décadas anteriores, que estava profundamente ligado ao desejo da maternidade e aos cuidados domésticos. Nessa época, teve-se a banalização do que hoje o Orkut chama de "relacionamento aberto", o estado civil mais coerente a ser seguido, mas que, com freqüência, esbarrava (e ainda esbarra) na questão sentimental. Vendia-se, conforme Zuenir, a teoria de que com a racionalidade se podia driblar a emoção, resumindo tudo ao prazer. E, assim, as pessoas entraram em conflito, com o outro e, principalmente, com elas mesmas. Como aceitar sentir ciúme se as pessoas são livres e os relacionamentos são abertos? Era mais um dos paradoxos tão comuns entre o racional e o emocional, a mente e o coração. Para isentar-se desse pensamento dito retrógrado, nada melhor do que a desculpa cantada por Roberto Carlos nos versos "Se você põe aquele seu vestido lindo e alguém olha pra você, eu digo que já não gosto dele, que você não vê que ele está ficando démodé. Mas é ciúme, ciúme de você."

Hoje, 32 anos depois, Arnaldo Jabor publicou no jornal um texto que me remeteu à leitura do clássico de Zuenir Ventura. Sob o título Acabou o tempo do "happy end", Arnaldo tece alguns comentários a respeito de relacionamentos e até mesmo do amor. Para ele o romantismo saiu de moda. É como se tivesse cedido lugar ao que o escritor polonês Zygmunt Bauman classificou como Amor líquido, Modernidade líquida e todos os outros líquidos que se possa imaginar. "Quando eu era jovens, nos anos 60/70, o amor era um desejo romântico. Depois, nos anos 80/90 foi virando um amor de mercado", escreveu Jabor. Ele acredita que as relações afetivas nem podem mais ser chamadas assim, pois não passam de um "ficar" descompromissado. Num dos parágrafos do seu texto, há uma frase que me chamou atenção e remeteu-me a outro escritor, Júlio Cortázar. Arnaldo comenta que hoje tudo acontece de forma celerada, "[...] sem o lento perder-se dentro de 'olhos de ressaca'." Ao ler isso foi impossível não lembrar do (emocionante e belo) sétimo capítulo — único que eu li — de Jogo da Amarelinha ou, no original, Rayuela.

Confesso que meu romantismo sentiria e sente dificuldade para adaptar-se a quaisquer desses momentos, o 1968 ou o agora. Talvez, para quem acredita em horóscopo, a natureza apaixonada de escorpião explique como seria difícil para mim viver numa sociedade tão liberal quanto a da década de 1960 queria ser. Basta um pouco de convivência para perceber o quanto eu mergulho numa relação, sem saber vivê-la de forma superficial. E, possivelmente pelo mesmo motivo, não sou afeita à rapidez com que as coisas acontecem agora, ainda que, eventualmente, eu caia "no suingue pra me consolar", como diriam Pedro Luís e A Parede. Sempre fica o sentimento de frustração e a pergunta de para onde foram os diálogos inteligentes que precedem e sucedem as brincadeiras de ciclope ("Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope"). Inclusive, o que foi feito dessas brincadeiras? Acho que sou de uma geração em que se queria viver os sentimentos e em que as relações não eram assim, fugazes. Será que devo gritar "Pare o mundo que eu quero descer"?


*Paródia de trecho da canção O romântico em mim, de A Caravana do Delírio.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Maio de 1968.

Por ocasião dos 40 anos do maio/68.
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“SEJAMOS REALISTAS, QUE SE PEÇA O IMPOSSÍVEL”, com esta frase um companheiro, deu início ao seu discurso, naquele dia pacato em Paris. Confesso ter ficado bastante entusiasmada com a idéia de poder pedir o impossível e, ainda assim, ser considerada realista. Era um tempo em que proibir era proibido, nós queríamos abraçar o mundo e transformá-lo num lugar melhor, mais justo. Lembro-me que esse companheiro proferiu tal frase com olhar distante, parecendo querer esta causa com todo o seu âmago; emocionei-me, estava, confesso, assustada com tudo o que estava ocorrendo e com medo do que estava por vir. Meus pais haviam impedido a minha ida à luta; eu fingi concordar, no entanto, mesmo extremamente assustada, deixei o ideal tomar conta da minha alma, não hesitei, junto aos amigos, resolvi participar intensamente desse "acontecimento revolucionário mais importante do século XX".
Hoje acordei lembrando daquele "episódio" de outrora, senti-me bastante orgulhosa e contei a meus netos essa difícil "aventura". Olhei para cada um deles, enquanto falava, observei cada expressão. Eles escutavam-me atentamente e entreolhavam-se em alguns momentos. Posteriormente, tentando descobrir o que minha história representava para eles, afinal eles são de outra geração bem distante daquela, para minha consternação, a sala virou uma grande galhofa. Eram três rapazes rindo da história da avó, diante da própria. Passei a vida, confesso, sendo considerada meio louca, em vários sentidos e por motivos diversos, enfim, não levaram muito a sério o que os contei. Almoçamos e cada um retornou a sua respectiva casa. Eu cá com meus bordados comecei a pensar e a cotejar o mundo da minha época e da época deles, perorei que falar em ideais, luta idealista e em impossível ser possível havia tornado-se, para muitos desta vigente sociedade, anacrônico. Com a conclusão em mente, perguntei-me, introspectivamente: Netos, o que dirão, vocês, ter feito de útil para a humanidade?

*Texto ficcional.
**Postado neste mesmo blog em 06/jun/07.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Maio de 1968

“SEJAMOS REALISTAS, QUE SE PEÇA O IMPOSSÍVEL”, com esta frase um companheiro, deu início ao seu discurso, naquele dia pacato em Paris. Confesso ter ficado bastante entusiasmada com a idéia de poder pedir o impossível e, ainda assim, ser considerada realista. Era um tempo em que proibir era proibido, nós queríamos abraçar o mundo e transformá-lo num lugar melhor, mais justo. Lembro-me que esse companheiro proferiu tal frase com olhar distante, parecendo querer esta causa com todo o seu âmago; emocionei-me, estava, confesso, assustada com tudo o que estava ocorrendo e com medo do que estava por vir. Meus pais haviam impedido a minha ida à luta; eu fingi concordar, no entanto, mesmo extremamente assustada, deixei o ideal tomar conta da minha alma, não hesitei, junto aos amigos, resolvi participar intensamente desse "acontecimento revolucionário mais importante do século XX".
Hoje acordei lembrando daquele "episódio" de outrora, senti-me bastante orgulhosa e contei a meus netos essa difícil "aventura". Olhei para cada um deles, enquanto falava, observei cada expressão. Eles escutavam-me atentamente e entreolhavam-se em alguns momentos. Posteriormente, tentando descobrir o que minha história representava para eles, afinal eles são de outra geração bem distante daquela, para minha consternação, a sala virou uma grande galhofa. Eram três rapazes rindo da história da avó, diante da própria. Passei a vida, confesso, sendo considerada meio louca, em vários sentidos e por motivos diversos, enfim, não levaram muito a sério o que os contei. Almoçamos e cada um retornou a sua respectiva casa. Eu cá com meus bordados comecei a pensar e a cotejar o mundo da minha época e da época deles, perorei que falar em ideais, luta idealista e em impossível ser possível havia tornado-se, para muitos desta vigente sociedade, anacrônico. Com a conclusão em mente, perguntei-me, introspectivamente: Netos, o que dirão, vocês, ter feito de útil para a humanidade?