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quarta-feira, 28 de julho de 2010

Ao Max

A amizade entre Mary & Max fez-me recordar uma atitude que tomei há um tempo, com a ressalva de que utilizei meios mais tecnológicos. Em 2006, imbuída de curiosidade e de certa angústia, dei início a um diálogo que não se esgota. Como Mary, eu tinha necessidade de descobrir coisas para além do que estava ao meu redor e precisava conversar com alguém suficientemente capaz de entender-me. Claro que minha perturbação se distinguia dos dramas psíquicos (ao menos em tese) abordados por Adam Elliot neste e em outro filme, intitulado Harvie Krumpet, mas tinha um sentido semelhante. Buscava alguém capaz de responder-me questões tão complexas quanto explicar a uma criança de onde vêm os bebês. Acho, inclusive, que a solução encontrada por Max foi bem mais engraçada. A minha escolha por aquele amigo e não outro foi menos aleatória do que a estratégia utilizada por Mary, embora também desconhecesse sua cidade natal. Os diálogos, que no filme ocorrem por meio de cartas, aconteciam, entre mim e meu amigo distante, através do Orkut e, posteriormente por Messenger e Skype, e até por cartas mesmo. Horas de tec-tec no teclado, que hoje, tanto tempo depois, já nem é mais o mesmo. Como na ficção, a mocinha enchia o amigo, visto como mais experiente, de perguntas sobre as situações novas que enfrentava, buscando conselhos e até mesmo explicações sobre a vida e o funcionamento das coisas. Curiosamente, assim como na relação entre Mary e Max, ambos aprenderam bastante com essa amizade, sendo assim, ao mesmo tempo em que eu indagava, também respondia a muitas questões. Um crescimento simultâneo. Lembrei bastante de mim enquanto assistia ao filme. Foi engraçado identificar o meu amigo no sofrimento de Max, que queria ajudar a garota, mas não sabia as respostas. Inclusive, minhas questões não tinham como serem respondidas, menos ainda por alguém que não eu. Os anos passaram. O mote das conversas mudou. A conjuntura das nossas vidas também. Contudo, a relação perdura, sempre mais intensa. Mantemos contato que, graças à internet, ocorre de forma bem mais veloz do que em Mary & Max. Diálogos diários que não cansam de crescer. Experiências que são sempre compartilhadas. Quilômetros que estão cada vez mais comprimidos. Felizmente, agi como Mary.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Aquela italiana que faz vestidos*

"Quando o vento arranca o chapéu da sua cabeça e o faz voar cada vez mais longe, é preciso correr mais rápido que o vento para alcançá-lo. Eu sempre soube que para construir mais solidamente, às vezes somos obrigados a destruir, a fim de estabelecer uma nova elegância para as maneiras brutais da vida moderna."
Elsa Schiaparelli


Com tanto burburinho acerca de Gabrielle Bonheur Chanel devido aos cem anos da França no Brasil e, mais ainda, por causa do lançamento do filme Coco avant Chanel (Coco antes de Chanel) , este post soará implicante, pois discorre sobre Elsa Schiaparelli, grande rival da estilista francesa. Nunca é demais falar sobre Coco Chanel, ícone da moda do século XX e, sem dúvida, o mais conhecido nome do estilismo até os dias de hoje. Certamente, esses "títulos" foram a razão para o argumento do filme e a força motriz para sua bilheteria. Antes de ser a famosa estilista que ditou moda dos seus modelos ao próprio corte de cabelo , ela era apenas Gabrielle, uma costureira e cantora de cabaré que perdeu os pais enquanto ainda era criança. Coco avant Chanel conta, em detalhes, toda a vida pré-fama dessa madeimoselle, talvez por isso algumas pessoas não tenham saído satisfeitas do cinema. Quem achava que, por meio do filme, entenderia por que essa mulher influenciou fortemente a moda, de fato, não atingiu o objetivo. Mas, como disse o jornal The Washington Times, "Se você sai do cinema decepcionado porque o filme não mostra quase nenhum dos projetos brilhantes que tornou famosa sua personagem principal, não se pode dizer que não foi avisado, já que o título é, afinal, 'Coco Antes de Chanel'".

Não tão renomada quanto a rival, Elsa Schiaparelli não foi menos importante. Grande estilista italiana, ela foi responsável por uma verdadeira revolução estética, que fundiu arte e moda. Amiga de vanguardistas como Salvador Dali e Marcel Duchamp, Schiaparelli introduziu conceitos do surrealismo e do cubismo em suas peças, criando modelos, no mínimo, ousados e irreverentes. Diferentemente de Coco Chanel, que criava um vestuário mais contido e funcional, símbolo da mulher moderna, Schiaparelli investia em modelos exóticos. Criadas em parceria com Salvador Dali, suas peças tinham forte influência surrealista e causaram grande polêmica na Europa do entre guerras. A rivalidade e o intriga entre essas duas mulheres era, basicamente, fruto dessa discrepância de perspectiva da moda. Como não se escandalizar os modelos de Schiaparelli? Eu não consegui. Hoje cedo, em conversa com minha tia sobre história da moda, conheci a extravagância e genialidade dessa estilista. Soube, inclusive, que devemos a ela a cor rosa-choque ou rosa-shocking. Abaixo seguem algumas fotos que, de tão "surrealistas", fizeram-me escrever acerca dessa mulher.

Chapéu em formato de sapato.

Vestido com desenho de lagosta.


*Xingamento de Coco Chanel a Elsa Schiaparelli, que revidava referindo-se a Chanel como "a monótona e insignificante provinciana".

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Que tal um cineminha?

Mesmo com dezenas de páginas para ler, eu não tenho dispensado um cineminha à noite. Só esta semana que ainda está na metade , fui ao cinema duas vezes. Na última segunda-feira, assisti a A verdade nua e crua (The ugly truth) e ontem foi a vez do infantil Tá chovendo Hamburguer, (Cloudy with a Chance of Meatballs), ambos produções do cinema estadunidense. Além da coincidência no país de origem algo não muito improvável, tendo em vista a grande produção cinematográfica dos Estados Unidos , a temática dos filmes assemelha-se no tocante ao mote televisivo que ambos apresentam em seus roteiros.

Em A verdade nua e crua, a busca pela audiência leva a produtora Abby Richter (Katherine Heigl) a infringir seus princípios e aceitar as idéias malucas do apresentador Mike Alexander (Gerard Butler). Ele tem uma teoria bastante controversa acerca do mundo masculino, que, como sugere o poster do filme, está mais interessado em sexo e não liga para sentimentos. Mike é considerado, por Abby, um grande machista, mas com suas dicas "preciosas", ela conquista um verdadeiro gentleman e percebe que as teorias do apresentador fazem algum sentido.

O filme não surpreendentemente é repleto de clichês das "comédias românticas norte-americanas" e dos ensinamentos de livros de auto-ajuda, inclusive a impressão que se tem ao assisti-lo é de estar lendo algo como Por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor? E claro, o desfecho do longa-metragem não poderia ser mais óbvio. Com toda a carga de elementos negativos do filme, contudo, considero-o uma boa pedida para um fim de noite despretensioso, pois dispõe de certa graciosidade.

Acerca da proposta de Tá chovendo Hamburguer adaptação de livro infantil escrito pelos próprios roteiristas do filme, Judi Barret e Ron Barrett é possível tecer comentários mais positivos. Com produção da Sony Pictures, o filme estreou no último fim de semana e já lidera as bilheterias brasileiras, tendo, inclusive, superado o público de Up - altas aventuras, grande aposta dos estúdios Disney / Pixar para este ano.

Assinado por Phil Lord e Chris Miller, que também dirigiram Shrek Terceiro (Shrek the third), o longa conta a história do cientista bem intencionado Flint, capaz de fazer chover comida na sua cidade. Na tentativa de mudar a rotina dos moradores que, há anos, alimentam-se exclusivamente de sardinha, ele cria uma máquina para converter a água das nuvens em deliciosos lanches e guloseimas. A cidade inteira comemora a invenção de Flint, que passa a ser ícone do lugar e alvo dos interesses do ambicioso prefeito.

Com a mirabolante invenção, Flint fica a mercê dos desejos gastronômicos dos cidadãos, que exigem cada vez mais da máquina. A situação modifica o comportamento do clima e traz sérias conseqüências para a cidade. Tal fato atrai a cobertura da mídia, que no filme é representada pela (quase) jornalista Sam Sparks, estagiária de uma emissora de TV. Sam, à princípio vista como destrambelhada pelo âncora do telejornal, revela-se uma "nerd" que entende tudo sobre os fenômenos meteorológicos e a invenção de Flint; ou seja, alguém capaz de ajudá-lo na recuperação da normalidade do lugar. E, claro, ela é a mocinha da história por quem Flint vai nutrir certa paixão.

Mundo infantil à parte, uma visão atenta do filme revela um tom de crítica do roteiro à sociedade vigente que tendendo ao consumo exagerado e à exploração do Meio Ambiente sofre, hoje, com o aquecimento global e as suas conseqüências. Uma inteligente e bem sucedida metáfora da situação do mundo atual que soa como Uma verdade inconveniente destinado ao público infantil. Uma boa sugestão para o Dia das Crianças que se aproxima.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Lucy in the sky with Sam

Fim de semana passado assisti a alguns filmes, todos bons, mas um realmente comoveu-me. I'm Sam (Uma Lição de Amor). Em cena, o mesmo Sean Penn digno do Oscar de melhor ator em 2008 pelo filme Milk - A voz da igualdade em parceria com uma garota adorável, Dakota Fanning, que recentemente esteve na telona com Crepúsculo. Ambos numa performace admirável, ele na pele de um pai com problemas mentais e ela no papel de uma filha suficientemente esperta para entender que nada é mais importante que o amor. De Kristine Johnson e Jessie Nelson, I'm Sam foi escrito e montado com muito bom gosto, do roteiro à trilha sonora — repleta de sucessos de The Beatles. O próprio nome da personagem interpretada por Dakota faz referência à banda, Lucy. O fime, lançado em 2001, se passa nos Estados Unidos e tem o clímax quando Lucy completa sete anos, superando a idade mental de Sam e passa a resistir ao aprendizado para não desapontar o pai. A partir de então, uma assistente social decide que a menina deve viver com uma família adotiva capaz de respaldá-la intelectualmente. A atriz Michelle Pfeiffer — interpretando a advogada Rita — entra em cena, neste momento, na defesa da dupla de pai e filha em grande sintonia, Sam e Lucy. O restante do filme mostra cenas emocionantes e provoca no expectador um grande debate em relação ao destino de Lucy. Vale muito a pena.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Nota sobre John Hughes

Muitos devem estar se perguntando: Quem é esse? Pois é, suas obras são mais famosas do que seu próprio nome. Ele foi o diretor dos filmes, “Clube dos Cinco”, “Curtindo a Vida Adoidado” – que foi alvo de postagem neste blog – e, como produtor e roteirista, do longa “Esqueceram de Mim I e II”. Quem não se lembra desses filmes, principalmente, os três últimos? Enfim, a nota é para dizer que hoje, 06 de agosto, ele faleceu, vítima de um infarto em Nova Iorque aos 59 anos. O idealizador de filmes que estão em nossas memórias de infância se foi, entretanto, suas obras serão eternas.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Boas cenas, belas músicas

Hoje, como é terça-feira, é dia de mais um: “Boas cenas, belas músicas”. Dessa vez, o filme escolhido é “Volver (2006)”, do cineasta espanhol, Pedro Almodóvar. Em minha opinião, esta película está longe de ser uma das suas melhores. Bem antes do fim da história, qualquer pessoa, que ficou minimamente atenta à narração, percebe qual é o mistério e qual será o desfecho do longa. Mas mesmo assim, é sempre interessante observar o emaranhado de relações pessoais, e como as histórias de vida, inicialmente, distantes, tornam-se tão próximas aos espectadores, fazendo sentido na trama. E isso, ele faz como ninguém, além de abusar de cores sempre fortes em seus cenários, exaltando o calor latino, do qual nos identificamos logo de cara, mas tudo isso, ele faz sem cansar, nem deixar pesado o entendimento do seu argumento.

Outros temas referentes ao filme poderiam ser levados à tona aqui, mas esse não é o nosso objetivo. Nossa meta é mostrar uma cena que achei bem legal, e que vocês podem ver a seguir. Nela, minha bela Penelópe Cruz interpreta a música de nome que batiza o filme, “Volver”. Falando na canção que por sinal já é belíssima, torna-se mais admirável com a desenvoltura dela que teve seu nome indicado ao Oscar de melhor atriz por essa película. Enfim, pela beleza da música, a leveza de sempre que caracteriza os filmes almodovarianos e a interpretação da Penelópe, essa é a nossa segunda “Boa cena, bela música”.

domingo, 2 de agosto de 2009

Filmes que quero assistir

Na verdade trata-se de três filmes e um documentário. Dos filmes, um já foi lançado, e os outros dois, só no segundo semestre, enquanto que o documentário já não é mais novidade. Falo um pouco sobre eles a seguir.

Documentário:

1. Kurt Cobain - Retrato de uma Ausência. Esse é um documentário elaborado a partir de uma montagem de uma série de entrevistas concedidas pelo músico ao Michael Azerrad.
Informações: Dizem que vendo esse filme muitas coisas sobre a vida do cara começam a fazer sentido. Até porque, é ele, falando dele mesmo! Para os modistas, nem se empolguem, o filme não traz imagens ou shows do Kurt Cobain. Como disse, o filme é uma coletânea de entrevistas, e as imagens são dos lugares citados pelo cantor, ou de paisagens aleatórias.
Direção: AJ Schnack
Nacionalidade: Estados Unidos (2006)

Filmes:

2. Control. Esse mostra a vida do cantor da extinta banda Joy Division, Ian Curtis.
Informações: O filme é em preto e branco e não tem nada a ver com essa história clichê de “sexo, drogas e rock’n’roll”. Quero só ver isso! No mais, tenta conectar a antiga banda “Joy Division” com a criação da banda “New Order”, formada após o término dessa primeira.
Direção: Anton Corbijn
Nacionalidade: Estados Unidos/Inglaterra (2007)
Prêmios: Em Cannes, entre outros prêmios, levou o de melhor filme europeu.

3. Los Abrazos Rotos. Esse não importa nem o enredo, basta saber que é um filme com a marca Almodóvar. Além disso, ainda tem no elenco minha sétima colocada, Penelópe Cruz. Isso basta! O filme estréia por aqui em 20/11/2009.
Informações: Já recebeu boas críticas dos especialistas. Mesmo que não tivesse sido recomendado, que se danem os especialistas!
Nacionalidade: Espanha

4. Paciente 67. Esse é o novo filme do Martin Scorsese. Espero que não seja algo estilo, “A Rocha”. Além disso, o filme é com o pupilo do diretor, Leonardo diCaprio. Mas vamos esperar para conferir. Pelo que li sobre o argumento do filme, ele envolve investigação e uma foragida de um hospital psiquiátrico, e sobre isso, Scorsese entende bem.
Informações: É esperar para ver. Está pelas telas brasileiras em 09/10/2009.
Nacionalidade: Estados Unidos

Se alguém que ler os post tiver alguma sugestão de filmes, documentários ou afins, pode ficar à vontade para indicá-los.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Boas cenas, belas músicas

Aproveitando que irei iniciar um novo ciclo de postagens no blog, vou tentar corrigir um erro cometido quando eu pretensiosamente elegi as mais belas atrizes de todos os tempos. Naquela lista, tinha deixado de fora a Audrey Hepburn. E justifiquei dizendo que não a achava um mulherão, e sim, uma “bonequinha de luxo”, se é que vocês me entendem.

Posteriormente, pensando sobre essa nova postagem, lembrei de uma cena do filme “Breakfast at Tiffany's” de 1961, onde a mesma Audrey Hepburn interpreta a música “Moon River” com muito charme, delicadeza e sentimentalismo. Assim, se ela não é nenhuma Sophia Loren, ela também é bem mais bela que a Demi Moore que ocupava a oitava colocação na ocasião. Então, assédios sexuais a parte, venho ratificar a escolha, e mudar o ranking. Dessa forma, Demi Moore sai da minha lista das eleitas, e na sua posição, entra a Audrey.

Dito isso, a segunda coisa é justificar este ciclo de novas postagens com o mesmo título. Os posts intitulados, “Boas cenas, belas músicas”, vão tratar de passagens do cinema onde a conjunção desses dois elementos (o cinematográfico e o musical) se combinam e transformam o momento em mágico. Inclusive, bons casamentos entre trilha sonora e composições visuais proporcionam cenas inesquecíveis, fazendo algo que seria mais uma tomada, entrar para o imaginário do público e a história da sétima arte.

Como dito anteriormente, a cena a seguir, é do filme “Breakfast at Tiffany's”, em português, Bonequinha de Luxo, que tem como atriz principal a Audrey Hepburn. Entre o desejo de se tornar rica (casando com um milionário) e o risco de viver um verdadeiro amor, ouvimos a canção “Moon River” (vencedora dos Oscars de Melhor Trilha Sonora - Comédia/Drama e Melhor Canção Original) interpretada pela própria Audrey. Pelo conjunto, música, interpretação e cena, essa é a primeira “Boa cena, bela música” da série.



Também vale a pena ouvir as versões da mesma música nas vozes de Frank Sinatra, Louis Armstrong, Michael Stipe (R.E.M.) e Morrissey(ex-Smiths).

quarta-feira, 8 de julho de 2009

“Mas eu não quero ver gente maluca”

Você já imaginou um lugar onde flores pensam que você é uma erva daninha, lagarta faz o estilo fumante-intelectual, um coelho apressado corre porque está atrasado, um gato fica sob sua própria cabeça, chaleiras cantam, urubus são guarda-chuvas, corujas tem pescoço de sanfona, cachorros tem cabeça em forma de vassoura e maçanetas falam? Pode acreditar, esse lugar existe! Pelo menos, em “Alice no País das Maravilhas (1951)”.

Esse é um filme clássico que muitos devem ter assistido quando eram crianças. Entretanto, a interpretação que se tem nesse momento, não é a mesma quando se tem um pouco mais de bagagem intelectual. Pelo menos é o que se espera! Sem dúvida, ter contato com essa obra da Disney é submergir e brincar com a imaginação. Contudo, sem leituras ingênuas, proponho uma visão do filme que busca reconstruir conceitos sem se basear na racionalidade típica das sociedades ocidentais.

Alice é uma garota chateada com sua vida sem grandes emoções. Para ela, sua vida é um livro sem figuras. Acredito que os psicanalistas adorariam ter uma paciente aos moldes de Alice. O filme nada mais é do que arte, certa estética, associada à psique da protagonista (que não é tão protagonista). Ou seja, o que vemos é um determinado imaginário extraído de um sonho, sem necessariamente, importar coisas como, coerência, significados racionais e adequação. O problema – se assim o posso chamar – de Alice está na sua dificuldade em resignificar e recodificar estruturas de pensamento já consolidadas em sua ação, sem, contudo, ter a ajuda de claras passagens cognitivas.

Mas nem pense que nesse mundo surreal – literalmente – há apenas devaneios. O real também está no nonsense (Oscilando entre a "ficção" e a realidade). O encontro de Alice com a lagarta é um deles. Incessantemente, a lagarta pergunta à Alice: Quem é você? Ora, em minha perspectiva, isso pode ser interpretado, na passagem, tanto como um artifício para desqualificar a fala da menina, ou seja, um instrumento autoritário de poder, como uma indagação reflexiva sobre a existência dela. Aqui, o autoritarismo perde espaço para uma ação fenomenológica. A lagarta, na verdade, pergunta à Alice, como é que ela se percebe no mundo. E é a própria inquiridora que dá a resposta ao se transformar em borboleta. E agora eu pergunto, de fato, não somos uma eterna mutação? Não estamos em eterna mudança? Não é isso que somos?

Em um caminho tortuoso, regado a explicações incompletas e conclusões precipitadas, temos um segundo momento que merece destaque. O primeiro encontro de Alice com o gato de Cheshire inicia-se com uma pergunta simples: Qual caminho devo tomar? O gato caminha em uma linha tênue entre loucura e lucidez, é ele que alerta a garota da insanidade dos outros, e dá pistas de como sobreviver neste ambiente. Veja se isso não é a vida real. 1) Estar com os outros, e discordar minimamente deles; 2) Tentar não irritar as pessoas; 3) Elogiá-los; e 4) Se adequar ao local, ou seja, nunca tente inovar muito em circunstâncias estranhas. Seguindo essas quatro regras, você sempre será bem quisto. A seguir, você pode ver um trecho dessa conversa de Alice com o mestre gato. Na cena, além da discussão sobre qual rumo tomar, há também, um processo de desconstrução de raciocínio que o gato promove sobre o possível paradeiro do coelho atrasado.



Mas ainda não é esse o ponto. O mais interessante nesse encontro, é como o gato transmite a ideia de escolha associada a de responsabilidade individual. Se não se sabe qual caminho tomar, é porque não se sabe para onde ir, uma ótima definição para o que chamamos de “indecisão”. A seguir, uma pequena transcrição da conversa que se refere a esse debate que estamos tendo.

Alice: Eu só queria saber que caminho tomar.
Gato: Isso depende do lugar onde quer ir.
Alice: Realmente não importa.
Gato: Então não importa que caminho tomar.

Enfim, para além de um filme infantil, “Alice no País das Maravilhas (1951)” traz bons pensamentos nada infantis. Diferentemente, de outros filmes com a marca Disney, este além do seu pouco ou nenhum comprometimento com a realidade, mostra que para um filme ser bom, não é preciso: 1) Que ele gire em torno de um grande propósito ou dilema, e/ou 2) Que haja uma lição de moral a ser apreendida ao longo dele. Quem não o viu depois de adulto, que o veja! Ahhh, e feliz desaniversário para quem nos lê.

domingo, 5 de julho de 2009

O fabuloso destino de uma digressão de domingo

Em geral, sou bastante receptiva em relação aos filmes nacionais; não quero com isso dizer que gosto de todos, nem poderia, afinal não tenho vocação para major Quaresma. De qualquer forma, é melhor alertar, o quanto antes, para a opinião frágil e facilmente rebatida que tenho sobre filmes, já que não entendo sobre arte cinematográfica e pouco (!) conheço do cinema brasileiro de antes da "retomada". Em suma, não tenho bagagem teórica nem prática para dialogar horas a fio sobre o melhor de Truffaut ou mesmo acerca do grande Glauber Rocha.

O desconhecimento que tenho da cena cinematográfica mundial e brasileira não é premeditado, ao contrário, tento findá-lo, pois me agrada entender sobre o tema. Assim, não escrevo como forma de apologia ao "analfabetismo cinematográfico", de jeito nenhum; contudo, não posso negar esse fato, essa minha condição.

Espero que, com o que eu disse, o leitor não pense que meu filme preferido é O Diário de Bridget Jones, a que assisti com asco no auge dos meus treze anos, para satisfazer a vontade de uma amiga. Explico para não pensarem, equivocadamente, que eu gostei de ver O Poderoso Chefão. Não, não gostei. Sei o quanto dizer isso aos quatro ventos é pedir para ser olhada com ar de desprezo — sobretudo, se você estuda no Centro de Artes de Comunicação — mas não escondo.

Lembro que fui sozinha à locadora, ano passado, pegar a trilogia de O Poderoso Chefão e o balconista olhou-me com uma expressão de respeito, como se dissesse "Escolha perfeita!" Certamente, surpreendeu-se com o fato de uma garota com jeito de treze ou catorze anos interessar-se pelo clássico de Coppola. A expectativa pelo filme era gigante, já que o título é presença garantida no top five dos intelectuais de plantão, e eu odeio a "expectativa cinematográfica", que, em geral, transforma-se em decepção para mim.

Decepção foi o que senti quando o cast subiu. Definitivamente, a família Corleone não me agradou (!). Talvez seja necessário frisar que não considero o filme ruim, nem posso, não tenho argumento para sustentar essa tese; também não posso, contudo, afirmar que gostei, porque a história não chamou a minha atenção. Quando falo isso, dizem que eu não estava num bom dia para ver aquele estilo de filme e que por isso não gostei; pode ser, mas não tenho vontade de revê-lo. E para terminar de frustrar qualquer paquera "intelectualóide", eu não só gostei de Titanic, como chorei todas as vezes que revi (sim, eu revi!).

Bem, existem muitos filmes entre O Poderoso Chefão e Titanic e dentre esses títulos, em alguns, compartilho do mesmo posicionamento dos intelectuais de plantão (livrei-me da fogueira!). Recentemente, por exemplo, gostei muito de O Curioso Caso de Benjamin Button, cujos imperceptíveis e nada enfadonhos cento e sessenta e seis minutos também foram elogiados pela crítica.

Folheando a revista Veja, ontem, deparei-me com a história de um pai, crítico de cinema, que, atendendo ao pedido do filho, aceitou que ele parasse de estudar aos quinze anos. A única condição imposta ao garoto foi que ele assistiria aos filmes que o progenitor indicasse. Assim, toda semana, durante três anos, pai e filho compartilharam experiências cinematográficas. A fim de evitar "tendenciosidades", o pai escolhia os filmes aleatoriamente, bons e ruins, antigos ou lançamentos. Óbvio, que foi uma decisão difícil e bastante arriscada, mas deu certo; o garoto decidiu dar continuidade aos estudos e pretende ser cineasta. A trajetória dessa experiência pode ser lida em O Clube do Filme, livro que há três semanas está entre os mais vendidos na lista da Veja.

A história, que ganhou páginas na Veja desta semana, expressa um pouco a influência que os filmes, bons ou ruins, têm nas vidas das pessoas, tais como os livros. Quem nunca sentiu vontade de viver uma passagem cinematográfica? Inúmeros foram os títulos de filme que serviram para a minha construção. Afinal, algumas cenas, realmente, ficam marcadas na cabeça, como trechos de músicas que nunca esqueceremos.

Hoje, uma cena assim veio à minha mente. Quando assisti ao filme Lisbela e o Prisioneiro, a passagem em que o pai da mocinha dá adeus a ela chamou a minha atenção. O delegado, temendo a prisão da filha, aceita que ela fuja com o Leléu — um malandro sem eira nem beira — e despede-se de Lisbela com um grito que nunca esqueci, algo como: Vá e seja feliz! (Na verdade é "Vááááááá e seja filiiiiiiiiiiiiiiiiiix"). A cena marcou-me pelo notório estado de tristeza que ele fica com a partida da filha e, principalmente, pelo amor expressado em tal frase.

O amor é um sentimento tão forte que é capaz de renunciar a presença, ainda que ela seja muito triste, em prol da felicidade de quem se ama; tal despedida expressa exatamente isso e, assim, encanta-me profundamente. Bem, recordei-me dessa cena porque um querido amigo está de malas prontas para viajar. Hoje foi a despedida dele e foi nítido perceber o mesmo amor do pai de Lisbela em cada uma das pessoas presentes, pois ainda que a dor seja grande, o que mais queremos é a felicidade dele.

Eu nem sabia!

Um dia desses, conversando, falaram-me sobre O Divã, de Roberto Carlos. Não me recordo o motivo que trouxe essa canção à conversa, mas a citavam como uma música que remete à infância de quem a escreveu. Explicaram-me as analogias e as metáforas, mas eu não entendia. Posteriormente, soube do acidente que o cantor sofreu quando era criança e acarretou na perda de uma de suas pernas. Confesso que faz um tempo que me contaram isso e eu ainda estou sem acreditar. Não que isso não possa ter acontecido, o fato que me deixa perplexa é ter vivido vinte anos e nunca (não que eu lembre) ter ouvido uma só palavra sobre o assunto, afinal Roberto Carlos é um homem público e famoso no país todo (um rei!). A pergunta é: onde eu morei esse tempo todo? Enfim, acho que isso não é novidade para ninguém, já que, quando me contaram, ficaram surpresos por eu não saber; escrevo, então, pelo tamanho estado de perplexidade que fiquei e (por que não?) pelo exemplo de superação que essa história representa.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Lição de anteontem: "Uma paixão não anula a outra"

Certas coisas são inesquecíveis.

[Cena do filme Meu Primeiro Amor - My Girl]

Marcella diz:
eu nunca concordei com o fim [do filme]
gabi diz:
nem eu
gabi diz:
nem eu
gabi diz:
nem eu
gabi diz:
vou acrescentar isso [este diálogo] na postagem
gabi diz:
sajdhsakdjhsakjdhsakjdsa
gabi diz:
posso?

quinta-feira, 11 de junho de 2009

“Palavras e penas, o vento as leva”

Desde que vi o filme, Doubt (2008), tive vontade de postar sobre uma cena que me chamou atenção. Na verdade, pouco vou escrever sobre o filme, o que eu quero é transcrever uma cena dele. A cena se passa em um sermão que o padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) ministra em sua paróquia, após uma conversa com as irmãs Aloysius Beauvier (Meryl Streep) e James (Amy Adams). Estas últimas, em especial, a irmã Aloysius Beauvier está acusando o padre Flynn de ter cometido o crime de pedofilia contra um dos seus "coroinhas", no entanto, ela possui apenas a convicção, nada de provas, evidências ou testemunhas. A passagem a seguir, nos convida a sermos mais cautelosos com aquilo que falamos a respeito dos outros, pois como diz o título do post, "Palavras e penas, o vento as leva" e depois fica difícil juntá-las.

Agora, segue a transcrição:

"Uma mulher fofocou sobre um homem que não conhecia. Sei que nenhum de vocês faz isto. Certa noite, ela teve um sonho. Uma mão surgiu sobre ela e apontou em sua direção. Ela foi tomada por um sentimento de culpa. No dia seguinte, ela foi se confessar. Procurou um velho padre, o Padre O'Rourke, e ela contou-lhe tudo. "Fofocar é um pecado?”Ela perguntou ao velho padre. Era a Mão de Deus me apontando? Devo pedir seu perdão? Padre, diga-me, fiz algo errado?" Sim. Respondeu-lhe o Padre O'Rourke. Sim, mulher ignorante e mal educada! Criou falso juízo contra seu próximo. “Você foi irresponsável com a reputação dele, e deveria estar realmente envergonhada." A mulher disse estar arrependida e pediu o seu perdão. "Não tão rápido", disse O'Rourke. "Vá para casa, pegue um travesseiro e leve ao telhado, corte com uma faca, e volte aqui!" A mulher foi, pegou o travesseiro, e uma faca na gaveta, subiu ao telhado, e cortou o travesseiro. E então voltou ao velho padre como combinado. "Você cortou o travesseiro com a faca?" Ele perguntou. - Sim, Padre. - E o que aconteceu? As penas voaram, ela disse. As penas voaram? Ele repetiu. Todas as penas, Padre. Agora quero que você volte e junte até a última pena que o vento levou. Bem, ela disse, eu não posso fazer isso. Não sei para onde foram. O vento levou todas. "E isso”, disse o Padre O'Rourke, “é falar da vida alheia!” Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém".

sexta-feira, 29 de maio de 2009

"Bette Davis Eyes"

Dentre as grandes estrelas do cinema norte-americano, uma possui luz própria. Bette Davis foi modelo para seus colegas na arte da interpretação, e é referência para os amantes do cinema clássico americano. Na vida, era geniosa e temperamental. Criou várias inimizades com os colegas de trabalho. Mas sua personalidade sempre esteve associada a de uma mulher forte, sabedora de suas qualidades, que apostava no seu talento e que não admitia ser tratada como objeto pelos executivos dos estúdios. Para seu tempo, ela conseguiu algo praticamente impensável: ser o símbolo do mais puro feminismo quando nem mesmo o movimento estava consolidado.

Ela ganhou dois Oscars de melhor atriz pelos filmes "Dangerous"(1935) e "Jezebel" (1938), mas para além dos prêmios recebidos, sem dúvida, assistir um filme seu, é proporcionar uma festa para os olhos. Para começo, indico "All About Eve"(1950) e "What Ever Happened to Baby Jane?" (1962).

Tornou-se conhecida do público mais jovem quando, em 1981, a cantora Kim Carnes lançou a canção "Bette Davis Eyes" (não à toa, título do post) que se tornou um sucesso pelo mundo à fora. Nos EUA, ela permaneceu como a mais tocada nas rádios durante dois meses. No vídeo abaixo, você pode conferir o hit. As cenas iniciais são do filme "What Ever Happened to Baby Jane?". E a atriz que aparece é Joan Crawford, umas das atrizes da época que não se dava bem com Bette Davis. Daí a brincadeira de quem fez o vídeo, nas passagens em que Davis aparece, Crawford parece surtar e demonstrar enorme ódio. Aos 33 segundos, é passada uma cena clássica de "All About Eve", na qual a atriz dá um show de interpretação, e diz com todo seu charme e elegância: "Apertem os cintos de segurança. Vai ser uma noite turbulenta."

Além da referência da música de Kim Carnes, outras homenagens estão nas músicas de Madonna - "Vogue", e do Bob Dylan - "Desolation Row". No próprio cinema, em "Todo sobre mi madre", do Almodóvar, é feita uma homenagem ao filme "All About Eve", e claro, à Bette Davis.

Há algum tempo, Bette Davis nos deixou (06/10/1989). No entanto, para os apreciadores do bom cinema, a impressão é que ela está viva, acessível através de seus filmes que nunca deixaram de ser exibidos na televisão, nas coleções de DVD, e nas biografias escritas a seu respeito. Esse culto em torno do nome de um artista é reservado apenas àqueles que aqui pisaram e conseguiram deixar sua marca. E é claro, Bette Davis é um desses mitos da sétima arte. Suas interpretações são altamente recomendadas. Não sem razão, Kim Carnes canta a beleza e expressividade do seu olhar. Pode conferir!

quarta-feira, 27 de maio de 2009

"Estou chegando quase"

Ontem assisti a Budapeste, adaptação cinematográfica do aclamado (terceiro lugar no Prêmio Jabuti de 2004) e debochado livro homônimo de Chico Buarque, que dispensa qualquer apresentação. Deixando de lado qualquer juízo de valor sobre a literatura e sobre o filme, dirigido por Walter Carvalho, comentarei alguns detalhes bobos com os quais me identifiquei. José Costa, brasileiro boêmio e escritor anônimo, desviado da rota de sua viagem — assim como Cabral, tal qual a historiografia oficial faz-nos crer — foi parar em outro lugar: Budapeste, capital húngara. Às margens do rio Danúbio, o escritor, que a essa altura do romance já é Kósta Zsoze (seu nome em húngaro), aprende o único idioma que o diabo respeita com uma interessante budapestina, Kriska. A árdua tarefa de aprendizagem do húngaro pela qual o protagonista passa, lembrou-me a minha dificuldade com a língua inglesa. Senti-me José Costa (!) por alguns instantes. Algumas situações engraçadas e até gafes cometidas por ele assemelharam-se às grandes bobagens que escrevo ou aventuro-me a falar no idioma britânico. Claro que ele tem como desculpa a imensa diferença entre o húngaro e o português, mas, para o meu próprio bem, não posso deixar de concordar com a sua lição: Devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Entre les Murs

Hoje estréia no Brasil um filme que eu quero muito assistir. Com roteiro baseado no livro homônimo - lançado em 2006 - do professor François Bégaudeau, que também é o protagonista da adaptação cinematográfica, o filme Entre os Muros da Escola (Entre les Murs, França, 2008), ganhador da Palma de Ouro no último Festival de Cannes, narra as histórias desenvolvidas durante um ano letivo numa escola pública na periferia de Paris.

O filme do diretor Laurent Cantet acompanha as interações multi-étnicas entre um professor e seus alunos com idades entre 13 e 15 anos, que também são os mesmos jovens na vida real. Entre os estudantes há desde chineses a caribenhos num cenário europeu nada receptivo aos estrangeiros, trazendo para a tela a dramatização do inevitável "choque de culturas".

François, numa leitura mais perspicaz - segundo as críticas - pode ser visto com uma espécie de colonizador, quando com dedicação tenta fazer com que os estudantes incorporem o idioma francês. Tal interpretação observa esse processo como algo civilizador, pois impõe o idioma às diversas etnias.

A temática educacional, por si só, já me é bastante convidativa, somada ao elemento sócio-histórico-geográfico visível na sociedade atual, então, parece garantir um bom filme. Estou realmente ansiosa.


Serviço:
Entre os Muros da Escola (Entre les Murs, França, 2008)
Horários: 17h40, 20h
Duração: 128 minutos
Local: Cinema da Fundação Joaquim Nabuco

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Um bom filme para as férias – II

Quando alguém fala sobre a luta pelos direitos civis, este alguém está pensando sobre os direitos fundamentais à vida, à liberdade, à propriedade e à igualdade perante a lei. Esses direitos fundamentais são desdobrados na garantia de ir e vir, de escolher o trabalho, de manifestar o pensamento, de organizar-se, de ter respeitada a inviolabilidade do lar e da correspondência, de não ser preso a não ser pela autoridade competente e de acordo com as leis e de não ser condenado sem processo legal regular. Enfim, estamos falando da liberdade individual.

Todavia, em muitos lugares, esse direito essencial não era garantido pelo Estado a certos segmentos da população. Nos anos de 1960, cerca de 10% da população estadunidense era composta por negros. Eles estavam concentrados, majoritariamente, nos estados do Sul e nas grandes cidades do Norte e Oeste, tais como Nova Iorque, Chicago e Los Angeles. Nesta época, em especial, eles sofriam dupla segregação, uma de ordem racial e outra social. Apenas como ilustrativo, sua renda era 58% inferior à dos brancos.

Entre 1961 e 1968, nos governos de John Kennedy e Lyndon Johnson, o governo federal dos Estados Unidos, adotou medidas contra a segregação racial com o apoio da Corte Suprema. Porém, como esperado, houve grande resistência às medidas nos estados sulistas. Nessa época, é válida a atuação de Martin Luther King, em especial, com a Marcha sobre Washington de 1963. Estas ações levaram o Estado norte-americano a sancionar o Ato dos Direitos Civis (igualdade racial de direitos) e o Ato dos Direitos do Voto (proibição de medidas que invalidassem o direito de voto dos negros).

É neste quadro histórico que o filme indicado neste post está inserido. Mississipi em Chamas (1988) é um dos marcos do cinema e um dos melhores filmes dirigidos por Alan Parker. Resumidamente, o filme conta uma história verídica do assassinato de três militantes dos direitos civis em uma pequena cidade onde a segregação divide a população em brancos e negros e a violência contra os negros é uma constante. Neste contexto, dois agentes do FBI investigam as supostas relações das mortes com a Ku Klux Klan que atua deliberadamente na cidade, inclusive com a conivência dos poderes públicos. Sobre a repercussão do filme no Oscar de 1989, ele venceu na categoria de Melhor Fotografia, tendo sido indicado nas categorias de Melhor Ator (Gene Hackman), Melhor Atriz Coadjuvante (Frances McDormand), Melhor Direção, Melhor Edição, Melhor Filme do Ano e Melhor Som.

Por fim, Mississipi em Chamas mostra na realidade, a consecução de três conceitos. Discriminação*, Preconceito** e Racismo***. Todas as cenas são muito boas, e fazem com que você reflita sobre a questão da igualdade de direitos, mas atenção ao diálogo a partir dos 89 minutos de filme transcrito abaixo:

- É feio.
- Esta coisa toda é tão feia.
- Você sabe o que é conviver com tudo isto?
- As pessoas nos vêem como fanáticos e racistas.
- O ódio não nasce com as pessoas.
- Ele é ensinado.
- No colégio, diziam que a segregação estava na Bíblia.
- Gênesis 9, versículo 27.
- Aos 7 anos você já ouviu o bastante, e passa a acreditar.
- Você acredita no ódio.
- Você vive o ódio, respira o ódio.
- Você se casa com ele.

Boa reflexão.
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*tratamento injusto de pessoas devido ao seu pertencimento a determinado grupo;
**atitude de se julgar uma pessoa com base nas características reais ou imaginárias de seu grupo;
***crença segundo a qual uma característica visível de um grupo, como por exemplo, a cor da pele, indica sua inferioridade e justifica a sua discriminação.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Um bom filme para as férias

Kramer vs. Kramer (1979) é um filme essencial para todos aqueles que já passaram por momentos de separação dos pais. O filme retrata as mudanças sociais ocorridas nas últimas décadas, especificamente, a entrada das mulheres no mercado de trabalho, e os seus anseios de paridade com os homens. Contudo, ainda hoje, haverá quem pense que Joanna Kramer (Meryl Streep) é uma desnaturada por fazer o que fez, mas, em minha opinião, ela fez o que é comum muitos homens fazerem, e que por sua vez, é visto como normal. No entanto, isso ainda não é justificativa para seu ato.

Joanna tem sérias razões para dar cabo aos seus pensamentos. Em um relacionamento de 8 (oito) anos, vive em um ambiente onde o diálogo não é nem fundamental, nem levado a sério, e onde toda a família vive em pró de um único membro, Ted Kramer (Dustin Hoffman). Hoje em dia, o filme pode até parecer banal, visto que a sua problemática é mais aceita socialmente. Porém, nos final dos anos 70, o assunto ainda era visto como tabu, e daí talvez, advenha sua enorme repercussão no meio cinematográfico. Mas muitos não aceitam o fato dele ter tido uma grande repercussão (no Oscar de 1980, ele concorreu diretamente com o filme Apocalypse Now do Francis Ford Coppola). Kramer vs. Kramer foi premiando com 5 (cinco) oscars (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Dustin Hoffman), Melhor Atriz Coadjuvante (Meryl Streep) e Melhor Roteiro Adaptado) e 4 (quatro) globos de ouro (Melhor Filme - Drama, Melhor Diretor, Melhor Ator - Drama (Dustin Hoffman) e Melhor Atriz Coadjuvante (Meryl Streep).

Deixando todas as controvérsias (que na minha opinião não existem), não tenha dúvida que você verá um ótimo filme e um show de interpretação, principalmente nas cenas finais, do Dustin Hoffman, da sensacional Meryl Streep e um show a parte do pequeno Billy Kramer (Justin Henry). Se eu pudesse dizer em uma frase algo sobre o filme, eu diria que ele mostra que nem tudo na vida é explicado, ou pode ser dito, de maneira dicotômica. Às vezes, um não, ou um sim, não são suficientes para expressar pensamentos ou responder perguntas.

*Peço desculpas por deixar em certos pontos o texto vago, mas foi uma opção para não revelar de maneira alguma o enredo do filme.