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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O Ready-made musical de Israel

O álbum mais revolucionário de 2009 é resultado de uma miscelânea de vídeos do YouTube criativamente sobrepostos em forma de música.


Conhecido profissionalmente como Kutiman, Ophir Kutiel — músico, compositor e produtor musical israelense de Jerusalém — é o responsável pelo primeiro álbum lançado no YouTube e produzido com mescla de diversos vídeos dessa rede social. A idéia era compor uma espécie de “som colaborativo”. Assim, inspirado, principalmente, pelas batidas do funk, esse músico dedicou-se a vasculhar uploads amadores armazenados na internet para compor o seu maior sucesso: ThruYOU. O resultado desse projeto ousado é um álbum virtual composto por sete faixas dignas de provocar inveja a “bandas tradicionais”; sem dúvida, um dos grandes lançamentos de 2009.

Kutiman teve seu primeiro contato com a música durante a infância, quando, aos seis anos de idade, aprendeu a tocar piano, e desde então se mostrou um grande apreciador dessa arte. Posteriormente, ele passou a estudar mais dois instrumentos — bateria e guitarra — e, aos 18 anos, não hesitou em mudar de cidade para freqüentar aulas de jazz no Rimon Music College, renomada escola israelense de música contemporânea. Ainda na adolescência, ele foi apresentado — pelo amigo e parceiro musical, Sabbo — ao ritmo do “pai do soul”, James Brown, e ao multi-instrumentista nigeriano Fela Kuti, em quem se inspirou para compor o seu nome artístico.

O músico israelense já viajou bastante pelo mundo na busca por novos sons, como o reggae na Jamaica, e, atualmente, com 27 anos, ele tem cinco álbuns acumulados na carreira; todos lançados nos moldes tradicionais e a maioria pelo selo alemão Melting Pop Music (MPM). O penúltimo trabalho de Kutiman, um álbum homônimo, contou com a colaboração musical de muitos artistas israelenses, como Hadag Nahash, grupo de funk famoso por suas letras de cunho político. Tal álbum teve uma repercussão positiva em Israel, mas Kutiman tornou-se, de fato, reconhecido após a criação do seu projeto musical de vídeo online no YouTube.

Lançado em março do ano passado, ThruYOU é composto por sete faixas de puro mashup — produto novo formado a partir do conteúdo de outras aplicações da web —, quase um ready-made nos moldes de Marcel Duchamp. O próprio nome do álbum remonta a uma produção conjunta, já que, traduzido para a língua portuguesa, significa “através de vocês”. Visualmente, o trabalho deixa a desejar, afinal consiste em pedaços de vídeo-aulas de instrumentos musicais e clipes amadores de músicos. Kutiman não fez qualquer intervenção na aparência dos vídeos, apenas uma “colagem”, talvez porque propôs um álbum de música e não um áudio-visual. A beleza estética de ThruYOU está justamente na musicalidade, trabalhada de forma intensa durante dois meses de clausura em que Kutiman só via o próprio computador.

A idéia do álbum surgiu quando o produtor israelense assistiu, no YouTube, a vídeo-aulas do baterista estadunidense Bernard Purdie e passou a acompanhá-lo com a sua guitarra. A partir de então, Kutiman, ao buscar vídeos de outros instrumentos para fazer mais sobreposições, descobriu que podia misturar tudo e formar novos sons. Meses antes, ainda em 2008, no Brasil, o cantor Marcelo Camelo — da banda, em stand-by, Los Hermanos — produziu algo bem semelhante, a Orquestra YouTube, mas com qualidade bastante inferior, por ser praticamente inaudível. Assim, não se pode dizer que criação de Kutiman é, realmente, original; antes dele, outras pessoas já “tocaram internet”. A virtude de ThruYOU está no resultado, que fisgou mais de um milhão de internautas em menos de uma semana.

Os gêneros das canções são variados, remontando ora à levada dos clássicos jazz e blues, ora ao ritmo dos mais modernos hip hop e música eletrônica, resgatando também o funk e o soul. A primeira faixa do álbum — Mother of all funk chords — traz um pouco da cadência de tudo isso, sendo difícil não lembrar de James Brown. Na música seguinte — This is what it became — ficam notórias as influências do reggae e dos DJs e MCs, estes, inclusive, figuram em vários dos vídeos que compõem ThruYOU. Pode-se destacar também Babylon band, quarta faixa do álbum, que, certamente, agrada a legião de fãs da eletro music. No decorrer de ThruYOU, a melodia das músicas assume um caráter mais calmo e intimista, destoando um pouco da primeira metade das faixas do álbum. Enquanto as canções iniciais apresentam um tom mais estridente, inclusive com sons de sirene, a segunda parte do trabalho distancia-se da tendência funk, como Just a Lady, música que encerra o álbum.

Kutiman não se vê como pesquisador musical e admite conhecer pouco sobre mashup. Ele garante que o processo de criação de ThruYOU foi bastante ingênuo e concebido a partir de uma brincadeira. Assim, trata-se de um álbum não-comercial, sem qualquer intenção de repercutir — muito menos mundialmente —, tanto que foi divulgado somente para vinte amigos. Em entrevistas mundo afora, o israelense diz que produziu ThruYOU por amor e apoio aos músicos envolvidos nos vídeos utilizados, por ele, na mistureba áudio-visual e que não almeja ganhar nenhum dinheiro com o projeto. Há uma faixa extra no fim do álbum, intitulada About, em que o próprio Kutiman agradece a todos que colaboraram — ainda que sem saber — com a sua produção e explica um pouco em que ela consiste.

SÍNTESE DA CENA MUSICAL – Mesmo surgido a partir de uma brincadeira, é impossível não ver em ThruYOU uma oportunidade para discutir o momento atual da indústria fonográfica. Composto por cenas aleatórias, devidamente identificadas pelos perfis do YouTube, o álbum traz — sem pedir licença — cem vídeos sobrepostos. Kutiman, ainda que sem perceber, lançou um álbum capaz de suscitar extensos debates acerca de criação coletiva, compartilhamento de arquivos, propriedade intelectual e, até, conceito de arte. Uma vez que não pediu autorização a nenhum dos músicos que registraram os temas originais para criação do seu álbum, Kutiman — além de ter desapontado as pessoas que rejeitam o ideal mashup por considerarem-no pouco criativo — demonstrou seguir a bandeira Copyleft de livre reprodução para fins não-comerciais.

Mesmo com a revolução protagonizada pelo artista francês Marcel Duchamp, no pós-Primeira Guerra, com o conceito de Ready-made, a inserção de elementos cotidianos — a priori sem valor artístico — no campo da arte ainda tem sido bastante rejeitada. E talvez por isso, muitos internautas desprezem centenas de milhares de videoclipes do YouTube por acreditarem que só os pertencentes aos artistas das grandes gravadoras merecem ser vistos. Esse, sem dúvida, é o maior mérito de Kutiman: sua paciência para quebrar esse dogma contemporâneo — vasculhando um sem número de vídeos caseiros e plasticamente discutíveis — e comprovar que há som interessante para além daqueles consagrados.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Xau, 2009

Cara, ainda bem que o ano está acabando Nesses vinte e um anos, não me recordo de ter vivido dias tão tristes. Logo nos primeiros meses, uma grande dor no meu coração; a pessoa que eu mais amei na vida disse que seu amor chegara ao fim. E, mesmo sem querer, precisei dizer adeus aos meus sonhos e seguir. Cada fluxo de memória doía imensamente. Desta forma, ainda que pareça extremamente piegas, eu só pedia para que fosse possível fazer o mesmo tratamento ao qual Clementine foi submetida. Posteriormente, quando achei que as lágrimas haviam cessado, o fel da decepção. Inerte, pensei, por dias, que não podia confiar em ninguém e, de novo, chorei. Metade do ano foi riscada do calendário. Assim, resolvi seguir em frente e disfarçar a tristeza; a mágoa havia passado, mas a dor não. Durante esses últimos meses, tentei provar para mim mesma que posso amar outras pessoas. Nada, contudo, brotou no meu coração. Para piorar, cruzei com pessoas frívolas que, seguramente, não valorizariam quaisquer dos meus sentimentos. Por isso e por vezes, embriaguei-me para fingir felicidade, mentindo para mim mesma sobre o significado da alegria. Risos e gargalhadas não faltavam, mas bastava uma noite de sono para que eu percebesse o quão volátil era tudo aquilo. No dia seguinte, qual não era a minha decepção ao me olhar no espelho e não me reconhecer? Papai Noel, dias melhores.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

2009

Quem pôde ler o primeiro Jornal do Commercio do ano, conferiu o editorial* (O incerto 2009) pouco otimista do presidente do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação - João Carlos Paes Mendonça. O saudosismo das promessas de 2008 foram o mote do texto, que prevê um 2009 incerto, por ocasião da crise mundial, que ele considera "talvez superior àquela que determinou a quebra da bolsa em 1929".

Vamos ver no que dá!

FELIZ ANO NOVO!

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*O incerto 2009
Publicado em 01.01.2009

Se os senhores pesquisarem a coleção do Jornal do Commercio e se depararem com a primeira página do dia 1° de janeiro do ano que findou, encontrarão lá a mensagem que tradicionalmente, a cada ano, tenho dirigido aos nossos leitores e aos pernambucanos em geral. É uma mensagem na qual eu falava que parecíamos ter expurgado definitivamente aquele clima de “depressão cava e profunda a que se referia o escritor Nelson Rodrigues” – e começávamos a viver momentos de euforia e otimismo, ditados pelos novos rumos que tomava a economia estadual, com investimentos vultosos e estruturadores, especialmente no entorno de Suape, com destaque para uma refinaria, um estaleiro e várias outras plantas industriais grandemente geradoras de empregos e de riquezas. Afinal, era este o clima que predominava ao final do ano de 2007, com grandes esperanças para o novo exercício que se iniciava. Tínhamos a inflação sob controle, reservas consideráveis em moeda forte, o real fortemente apreciado, investidores de várias nacionalidades chegando com seus recursos para novos investimentos. O mundo comprava as nossas commodities, especialmente grãos e minérios, gerando euforia nos pregões diários da nossa principal Bolsa de Valores.

Foi no início do segundo semestre que o clima mudou. Num mundo globalizado, a grave crise que se abateu sobre a economia dos Estados Unidos, que já sofria com um déficit orçamentário na casa do trilhão de dólares, caiu por gravidade sobre todos os países dos cinco continentes. O descontrole e a falta de regulação sobre o mercado, com privilégio da especulação sobre a economia real, levou a maior economia do mundo a uma crise talvez superior àquela que determinou a quebra da Bolsa em 1929, carregando sobre o mesmo tufão conglomerados bancários que pareciam inexpugnáveis, seguradoras, indústrias quase centenárias. E quando todos os países do mundo se precaviam e se resguardavam para enfrentar a crise, infelizmente, ainda acreditávamos que ela não chegaria até nós. Todos os fundamentos da macroeconomia ensinam que numa crise global não existe ninguém blindado - pois ela atinge, com maior ou menor intensidade, desde as economias mais fortes aos países emergentes, entre os quais estamos inseridos. Otimistas acham que serão necessários pelo menos 12 meses para que seja afastado o fantasma da recessão global e os países voltem a crescer. Os mais pessimistas dão um prazo de três anos. Mesmo que fiquemos com os mais otimistas, não podemos fugir dessa realidade: a crise instalou-se entre nós, embora venha sido combatida com medidas fiscais, ampliação do crédito, e outras providências pontuais, de modo a que seus impactos sejam mais atenuados.

Como já disse o poeta, “cesse tudo que a musa antiga canta quando um valor mais alto se alevanta”. Não podemos pensar em índices de crescimento do nosso PIB como aqueles projetados antes desse “tsunami” mundial. Não podemos nos dar ao luxo de gastos públicos sem controle, de imaginar que duraria para sempre uma apreciação irreal da moeda, que o viés de alta das Bolsas de Valores não teria limite. Temos de encarar nossas limitações e nossos problemas e esperar dos nossos homens públicos sabedoria e sensatez para atravessarmos esse período de instabilidade. Lembremo-nos de Franklin Delano Roosevelt, o presidente dos Estados Unidos que assumiu o governo após a grande depressão, mas que, com visão de estadista, devolveu à nação do Norte o amor próprio e o caminho da prosperidade. Tudo isso feito com os pés na realidade, com programas e projetos que reencaminharam a economia, com medidas concretas reais e factíveis – e não com discursos desprovidos de consistência e até certo ponto fora da realidade.

Não perdi a fé nem o otimismo em relação ao nosso País – pois sei do seu potencial e da capacidade que tem de se reinventar. No entanto, não posso deixar de manifestar minhas preocupações em relação ao ano que começa, uma vez que a crise já instalada vai continuar com seus efeitos perversos por tempo indeterminado. Na indústria de jornais – por exemplo – empresários do ramo já se ressentem da alta do dólar, vez que grande parte dos insumos ali utilizados não se produz no Brasil. A crise no setor automobilístico norte-americano tem ressonância nas montadoras brasileiras, assim como a restrição ao crédito afeta ao mercado como um todo. A retração no setor da construção civil adiou, por tempo indeterminado, vários projetos que se encontravam em gestação. A atividade da propaganda certamente se ressentirá. O ano de 2009 será, também, o penúltimo do segundo mandato do Presidente Lula – e logo começará a efervescência da campanha política, quando as pré-candidaturas iniciam sua gestação. São, portanto, muitos os fatores que contribuem para o quadro de incertezas que nos espera. Mas somos um povo forte e determinado.Precisamos nos conscientizar de que é possível superar mais esse obstáculo, trabalhando com determinação e com perseverança, na certeza de que são os grande problemas que requerem do homem grandes soluções. Faço votos de que tenhamos, todos nós, ao final de 2009, um quadro bem mais otimista do que temos nesse início – e que possamos continuar construindo com as nossas mãos o País da decência, da ética, do bem-estar social que queremos deixar para os nossos filhos e os nossos netos.

» João Carlos Paes Mendonça