segunda-feira, 12 de maio de 2008

EM HOMENAGEM AOS 103 ANOS DO SPORT CLUBE RECIFE


HISTÓRIA - A origem do Sport é semelhante à de alguns clubes brasileiros. Um recifense, Guilherme de Aquino Fonseca, voltou de seus estudos na Inglaterra, onde conheceu o futebol. Encantado com o novo esporte, ele trouxe a modalidade para sua terra e, junto com outros 22 amigos, fundou o clube ao meio-dia do dia 13 de maio de 1905, no salão da Associação dos Empregados do Comércio do Recife, tendo como primeiro presidente Elysio Alberto Silveira.
O fato também pode ser interpretado como o início do esporte bretão em Pernambuco, já que não se tem notícia nem registro de manifestação do futebol anterior ao Sport - o Clube Náutico Capibaribe surgiu em 1901, mas como clube de remo. O primeiro jogo aconteceu quase um mês depois, no dia 22 de maio, no campo do Derby. Os rubro-negros enfrentaram o English Eleven, time formado por funcionários de companhias inglesas do Recife. Com muita raça, o time local arrancou empate por 2x2.
O time disputou amistosos até 1916, quando estreou no Campeonato Pernambucano - cuja primeira edição realizara-se no ano seguinte. E a primeira empreitada foi em grande estilo. Os rubro-negros conquistaram o primeiro de seus 37 estaduais, com uma goleada de 4x1 em cima do Santa Cruz, no dia 16 de dezembro. A dose seria repetida no ano seguinte, novamente diante dos tricolores, com vitória por 3x1.
Em 1919, o Sport realizou sua primeira excursão e que mudaria para sempre a imagem do clube. A delegação rubro-negra foi ao Pará para uma série de jogos. No último deles, contra um combinado Remo-Paysandu estava em disputa o troféu Leão do Norte.
Certos da vitória, os paraenses reagiram com fúria à derrota por 3x2. Depois de muita pancadaria, um torcedor local invadiu o navio em que a delegação retornava para o Recife e, com um cano de ferro atingiu o troféu, danificando a cauda do Leão.
A conquista heróica fez com que a diretoria alterasse o brasão do clube. Antes era uma âncora com um salva-vidas ladeado por um par de remos e, no centro do salva-vidas um pau de críquete, uma raquete de tênis e uma bola de futebol. Em cima, a data de fundação. Para completar, as cores não eram as do clube (vermelha e preta) e sim vermelha e amarela. Armando Vieira dos Santos insipirou-se nas armas escocesas para adotar o leão no novo escudo.
Coincidência ou não, a partir daí o Sport cresceu a passos largos, tendo conquistado seu primeiro tricampeonato em 23/24/25 e a aquisição do terreno de sua sede, no dia 29 de novembro de 1935. Foram pagos 53 contos de réis pela Chácara da Ilha do Retiro. Dois anos depois, o estádio da Ilha do Retiro, mais tarde oficialmente Adelmar da Costa Carvalho, foi inaugurado com uma partida eletrizante, em 4 julho. O Sport venceu o Santa Cruz, por 6x5, com o gol da vitória anotado por Haroldo Praça - pai do atual vice-presidente do Leão, Sílvio Guimarães.
Em 1941, o time da Ilha fez outra vitoriosa excursão, desta vez pelos estados Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Pela primeira vez um time do Norte/Nordeste empreendia tal feito. Em 16 jogos foram 11 vitórias, dois empates e quatro derrotas. Nada menos que seis atletas foram contratados por clubes cariocas, entre eles, Ademir de Menezes, que foi para o Vasco e depois tornou-se artilheiro da Copa de 1950, com nove gols, sendo, até hoje, o maior matador brasileiro numa única Copa do Mundo.
Em 1955, o clube chegou aos seus 50 anos com a conquista do Pernambucano, onde se destacavam o zagueiro Bia, o médio Eli e o atacante Traçaia, maior artilheiro rubro-negro, com 201 gols. Em 1957, nova excursão, desta vez para a Europa, onde o Leão conquistou vitória sobre a seleção de Israel, da Turquia e o Fenerbaçhe.

JEJUM - Mas como toda história gloriosa, a saga leonina também tem tristezas no meio. Após o bicampeonato (61/62), o clube entrou em seu maior hiato de conquistas. Foram amargos 12 anos em que os rubro-negros assistiram, impotentes a um hexacampeonato do Náutico (63/68) e um penta do Santa (69/73). O alívio veio em 1975, com uma vitória sobre o Náutico em pleno Eládio de Barros Carvalho.
A partir daí, o Leão oscilou bons e maus momentos em sua caminhada, mas o ponto alto deu-se em 1987 com a maior conquista da agremiação. Com um regulamento confuso que fez a competição terminar apenas no ano seguinte, o Sport sagrou-se campeão brasileiro depois de dois jogos com o Guarani e um sem-número de embates jurídicos - a questão foi bater até no Supremo Tribunal Federal, que homologou a conquista rubro-negra.
Depois do pentacampeonato, conquistado em 2000, o Leão entrou numa crise política, com dois grupos digladiando-se durante quase dois anos e suas conseqüências quase levando o clube à Terceira Divisão - chegou bem perto em 2004 e 2005, ano do centenário. A recuperação iniciou-se em 2006, com o retorno à Série A depois de cinco anos. Hoje, o Sport vive uma expansão de seu patrimônio caminhando lado a lado com bons resultados no futebol - atualmente é tricampeão estadual.
Fonte: http://jc.uol.com.br/tvjornal/2008/05/12/not_153170.php

Programação de Aniversário

06:00 - ALVORADA RUBRO-NEGRA - SPORT
15:00 - ENTREGA DA REVITALIZAÇÃO DAS ARQUIBANCADAS - PÁTIO EXTERNO DO ARCO
16:00 - ENTREGA DO MASTRO RUBRO-NEGRO - ENTRADA DO ARCO18:00 - DESCERRAMENTO DO BUSTO DA MULHER-MÃE, TORCEDORA SÍMBOLO DO SPORT
18:30 - MISSA EM AÇÃO DE GRAÇAS - NICHO NOSSA SENHORA DE FÁTIMA
19:45 - EXECUÇÃO DO HINO NACIONAL, DE PERNAMBUCO E DO SPORT - SALÃO SOCIAL
20:00 - SESSÃO SOLENE DO CONSELHO DELIBERATIVO- SALÃO SOCIAL
APÓS A SESSÃO SOLENE - FESTIVAL PIROTÉCNICO - PÁTIO EXTERNO DO CLUBE
APÓS A SESSÃO SOLENE - CORTE DO BOLO COMEMORATIVO - SALÃO SOCIAL

In: http://www.sportrecife.com.br/ver_destaque.php?id=660

Obs.: este texto não tem nada a ver com Gabriela. Palavras dela, “deixa, antes, bem claro que não se trata de provocação e que eu não tenho nada a ver com o conteúdo”.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Maio de 1968.

Por ocasião dos 40 anos do maio/68.
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“SEJAMOS REALISTAS, QUE SE PEÇA O IMPOSSÍVEL”, com esta frase um companheiro, deu início ao seu discurso, naquele dia pacato em Paris. Confesso ter ficado bastante entusiasmada com a idéia de poder pedir o impossível e, ainda assim, ser considerada realista. Era um tempo em que proibir era proibido, nós queríamos abraçar o mundo e transformá-lo num lugar melhor, mais justo. Lembro-me que esse companheiro proferiu tal frase com olhar distante, parecendo querer esta causa com todo o seu âmago; emocionei-me, estava, confesso, assustada com tudo o que estava ocorrendo e com medo do que estava por vir. Meus pais haviam impedido a minha ida à luta; eu fingi concordar, no entanto, mesmo extremamente assustada, deixei o ideal tomar conta da minha alma, não hesitei, junto aos amigos, resolvi participar intensamente desse "acontecimento revolucionário mais importante do século XX".
Hoje acordei lembrando daquele "episódio" de outrora, senti-me bastante orgulhosa e contei a meus netos essa difícil "aventura". Olhei para cada um deles, enquanto falava, observei cada expressão. Eles escutavam-me atentamente e entreolhavam-se em alguns momentos. Posteriormente, tentando descobrir o que minha história representava para eles, afinal eles são de outra geração bem distante daquela, para minha consternação, a sala virou uma grande galhofa. Eram três rapazes rindo da história da avó, diante da própria. Passei a vida, confesso, sendo considerada meio louca, em vários sentidos e por motivos diversos, enfim, não levaram muito a sério o que os contei. Almoçamos e cada um retornou a sua respectiva casa. Eu cá com meus bordados comecei a pensar e a cotejar o mundo da minha época e da época deles, perorei que falar em ideais, luta idealista e em impossível ser possível havia tornado-se, para muitos desta vigente sociedade, anacrônico. Com a conclusão em mente, perguntei-me, introspectivamente: Netos, o que dirão, vocês, ter feito de útil para a humanidade?

*Texto ficcional.
**Postado neste mesmo blog em 06/jun/07.

terça-feira, 29 de abril de 2008

O caráter cênico III.

Só Hoje tive a oportunidade de atentar-me para as primeiras páginas da xerox do livro História do Espetáculo (FILHO, Hermilo Borba, 1968), fiquei realmente comovida com algumas descobertas e com alguns detalhes conhecidos, mas que sob a ótica do Hermilo Borba Filho soaram bem mais emocionantes. História das Artes Cênicas é uma das cadeiras mais aproveitáveis deste período, não apenas pelo nome, que realmente apresenta-se interessante, mas também pela seriedade do professor e dos alunos.
O primeiro capítulo versa sobre a gênese do teatro, que remonta à Grécia, desmistificando essa visão, pois, atualmente, sabe-se que a arte cênica já era praticada desde a época dos egípcios (Antigüidade Oriental). A partir da perspectiva do grande Hermilo Borba Filho, o instinto teatral é algo inerente ao homem e certamente sempre existiu, como ele profere romanticamente no livro História do Espetáculo: "O teatro é tão antigo quanto o homem e com o homem permanecerá enquanto ele se mantiver sobre a face da Terra.” Acredita-se que a origem do teatro é realmente imprecisa e que talvez ele sempre tenha existido, ainda que sob a forma inconsciente, concedendo a necessidade de transformar-se e transfigurar-se aos humanos, "seres essencialmente teatrais".
Atribui-se à dança o título de mãe do teatro, conferindo a ela o papel de precursora das artes cênicas. Na dança uma das características principais do teatro já estava expressa, a imitação. Drama da Paixão Egípcia é considerada a dança dramáticas mais antiga e descreve a memorável luta entre Osíris e Set, ainda hoje lembrada pelo povo do Egito. Outra condição necessária para a existência do teatro é o caráter literário, pois o texto tem a grande responsabilidade de angariar aplausos ou vaias para a peça.
Na Grécia, a origem do teatro é atribuída a três acontecimentos recorrentes: aos Mistérios de Delos, à louvação às divindades quintoneanas e ao culto a Dionísio. A hipótese do culto ao deus Baco (Dionísio em romano) é a mais creditada, consistindo do sacrifício de um bode, tragos em grego, que dá origem à palavra tragédia. Como Dionísio é o deus da uva e, por conseguinte, do vinho, a festa dionisíaca tinha como característica principal a embriaguez, através da qual o espetáculo, bacanal, era realizado com grande entusiasmo e espontaneidade, sendo saudado pelos fiéis com muita música, dança, sexo e até violência.
Comprovando a origem religiosa e campestre do teatro, algumas cenas do filme Seconds (FRANKENHEIMER, John, 1966) foram analisadas em sala de aula e retratam, segundo o professor Ricardo Bigi, com fidedignidade, na medida do possível, o "ritual Baco", sempre realizado no meio rural.
Os bacanais, após a expansão romana, foram absorvidos pela cultura da Península Itálica, causando escândalos e desordem na capital do Império. Após 186 a.C., o Senado proibiu a sua realização, alegando haver grande vulgaridade, conspirações políticas e até crimes em tal festa. Devido à má reputação que a festa tinha naquela época, ainda hoje a palavra tem uma conotação pejorativa.
Ainda na Grécia, à época de Sólon, a organização teatral passou a ser responsabilidade do Estado, através de uma discussão entre Téspis, primeiro "diretor de troupes" gregas, e o legislador Sólon, que o acusou de mal-caráter por mentir na frente de todos. Em resposta, Téspis esclareceu que se tratava apenas de uma representação cênica. Assim, Sólon percebeu a tênue diferença entre o teatral e o "real" e considerou legítima a prática de tal "mentira", mas fez a ressalva de que ela deveria ficar restrita ao "palco", quando disse: "E aprovando tais maneiras de mentir conscientemente, não poderemos compreender que as achemos boas em relação à nossas convenções e aos nossos próprios negócios."
É engraçado perceber, após tantos séculos, que ainda há pessoas que não conseguem (ou não querem) discernir por completo ficção e realidade, confundindo personagens com atores e atuando (mentindo) como personagens.

sábado, 26 de abril de 2008

Sapatinhos de cristal.

A grande fragmentação e a conseqüente reconfiguração cultural, ocorridas a partir da segunda metade do século XX, tornaram necessária a aquisição de um novo termo para designar a cultura vigente. Grandes especulações sobre o fim da ideologia, da arte e das classes sociais associadas à crise do leninismo e da social-democracia configuram o que se denomina de Pós-Modernismo ou “condição sócio-cultural e estética do capitalismo tardio” e suas origens remontam à década de 1950 e 1960.

No livro Pós-Modernismo: A lógica cultural do capitalismo tardio, o crítico norte-americano e marxista Fredric Jameson classifica a obra pós-moderna de Andy Warhol como uma arte centrada no mercado e traça um paralelo interessante entre Van Gogh, pós-impressionista, e a maior figura do movimento do Pop Art, Andy Warhol, a partir de suas obras Three pair of shoes e Diamond dust shoes, respectivamente. A parcialidade de Fredric Jameson é percebida quando ele classifica de canônicos os trabalhos do pintor holandês e refere-se ao quadro de Andy Warhol como inexplicável, afirmando que a obra não diz absolutamente nada.

Three pair of shoes deve ser analisado a partir da reconstrução do contexto histórico em que foi pintado. A época, como alude a imagem, era de grande miséria e pobreza rural, ao homem cabia apenas a labuta coerciva. Assim, tal obra de Van Gogh deixa de ser mera imagem de contemplação artística e passa a ser um documento histórico.

Na obra de Andy Warhol, que começou a carreira artística como ilustrador de moda, a questão central do quadro encontra-se imbuída de possíveis dimensões políticas centradas em torno da mercantilização ao enfatizar o fetichismo das mercadorias. Como todas as imagens do movimento Pop Art, que, geralmente, figuram ícones populares, é evidente que o quadro Diamond dust shoes apresenta, seguindo a ótica de Fredric Jameson, falta de profundidade e superficialidade quanto ao seu sentido. É possível perceber como característica do pós-modernismo o esmaecimento do afeto cultural, que, infelizmente, propicia perda quase (?) total da subjetividade da imagem.


Bibliografia consultada: JAMESON, Fredric. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 1996. 431 p. 27-39.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Oscilando entre a "ficção" e a realidade

O seguinte texto versa sobre o filme, The Pervert's Guide to Cinema (2006), e tenta sistematizar os principais nexos lógicos que norteiam a trama. O autor promove uma discussão sobre grandes obras do cinema mundial, contrapondo-as as teorias da psicanálise. Realiza um debate de um lado enfatizando o que determinados filmes dizem sobre a construção das fantasias (ficção/realidade) humanas e por outro lado, como a psicanálise interpreta tais fenômenos. O meu intuito foi delinear os principais pontos de argumentação e tentar, na medida do possível, incrementar o debate com alguns conceitos sociológicos mesmo que de maneira rudimentar. Enfim, abaixo você encontrará algumas divagações próprias do Zizek e algumas oscilações da realidade minhas.

Slavoj Zizek é um filósofo lacaniano-marxista de Ljubliana, capital da Eslovênia. Tem escrito livros com temáticas com o cinema de Hitchcock, Lênin, a ópera, e os ataques terroristas de 11 de setembro. A meta da obra de Zizek é combinar a crítica marxista do capitalismo com informes psicanalíticos para desmascarar a forma que opera o capitalismo sobre a imaginação pública. Em 1990, Slavoj Zizek foi candidato a presidência da República da Eslovênia nas primeiras eleições democráticas do país.

Obs.: o título foi um "plágio" daquele encontrado no próprio blog - Oscilando entre a divagação e a realidade. Achei-o adequado ao propósito da empreitada e só adeqüei às minhas necessidades.

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O problema a ser considerado aqui, não é responder se nossos desejos são saciados ou não! No entanto, é saber o que desejamos. Não há nada de espontâneo no desejo humano. Os desejos são artificiais (construto social), e devemos, portanto, aprender a desejar.

O cinema é assim a arte pervertida por excelência. Ele não te dá aquilo que deseja, mas sim te diz como desejar.

Imagine uma cena onde diante dos seus olhos, uma atriz qualquer, vê vislumbrada os bastidores do que ocorre nos vagões de um trem. Observação, o trem continua em seu percurso, e é como se numa brecha do espaço-tempo, ela (atriz) permanecesse inerte e atenta a todos os movimentos dos vagões. Porém, mesmo diante de seus olhos, ela não pode interferir, pois é apenas um indivíduo passivo no processo construtivo da relação. Fazendo assim uma analogia ao que ocorre na relação direta entre espectador e a arte cinematográfica. Por fim, quando um rapaz que está em um dos vagões, oferece-lhe uma taça de bebida, é como se o filme - o macro - oferecesse a ela algo possível e acessível ao desejo. (1931 - Possuída (Possessed))

Uma visão crítica lembra-nos que a realidade não se restringe aos momentos vividos. A realidade social é bem mais complexa do que nossos momentos particulares. Várias ações pretendidas ou não-pretendidas reunem-se num processo de síntese para a realidade tornar-se completa. A realidade é mostrada frente a frente à ficção. O autor defende que dentro da própria realidade há um quê de ficção. E o essencial está não em descartar a ficção, mas perceber a realidade que há dentro da ficção.

Numa análise psicológica, ele defende que procedimentos traumáticos, violentos ou que possuam gozo em demasia, produzem resultados internos que rompem com as "coordenadas da realidade". E que posteriormente são transformadas em processos intrinsecamente repletos de elementos da ficção.

No filme Os Pássaros (1963), a ação e o ataque dos pássaros nada mais é do que a interferência da estrutura social no âmbito particular. O filme retrata uma relação típica do complexo de Édipo mal resolvido. Tal realidade é interrompida pela chegada de um outrem que rompe com os valores compartilhados anteriormente. Esse problema relacionado à normatização da ordem social - como as estruturas sociais se mantêm - tem sido o mote de muitos trabalhos nas ciências sociais. (a internalização das normas sociais)

Ele analisa o fenômeno como sendo "a explosão do superego materno". Isso seria numa ótica da psicologia. Numa perspectiva sociológica, o fenômeno poderia ser interpretado como um processo de não-internalização das regras sociais ao longo do processo de socialização primária. O que culminaria em termos durkheimianos-parsonianos numa "anomia social". Tendo como conseqüências, os sentimentos de culpa ou como se a sociedade estivesse "esmagando" sua cabeça.

Análise e caracterização dos sistemas de personalidade.

O alvo do estudo é o filme Psicose (1960) e a problematização deriva da distribuição espacial onde se desenrola a trama. Os níveis da psiquê estariam localizados da seguinte maneira, 1) o térreo seria o ego - o ambiente da normalidade, onde se respeita os padrões de comportamento social; 2) no primeiro andar encontra-se o superego maternal; e 3) no sótão temos o id. A relação entre o superego e o id é direta. O superego é uma entidade "obscena" que nos influencia com ordens impossíveis. Características fundamentais, 1) o superego é hiperativo; 2) o ego é racional, egoísta e calcula suas ações todo o tempo; e 3) o id é misterioso, porém, ao mesmo tempo que é infantil e inocente tem um mal intrínseco.

O controle das interações face-a-face

A voz representaria a dimensão da possibilidade de controle das reações dos outros indivíduos. (Se possível, ler algo sobre o sociólogo canadense, Erving Goffman). Aqui, ele trata dos "objetos parciais" e autônomos. Explica que tais atitudes, em relação aos “objetos parciais” não são exteriores à sua "natureza". Elas, na verdade, fazem parte da sua personalidade. Se você esquece a dimensão que ao mesmo tempo que ouve pode ver a cena em um filme. E parte para uma dimensão onde apenas o sentido da audição é possível, a imaginação decorre daquilo que você mesmo imagina que faria e não o que realmente acontece. Pois o que se passa não é necessariamente aquilo que você imagina, mas você imagina porque gostaria que passasse como você quer.

Por que precisamos do suplemento virtual da fantasia? O inconsciente - os desejos gerados no inconsciente geram culpa. A fantasia é produto do inconsciente, e como tal é um sonho. Quando a fantasia é realizada o que vem em mente é um sentimento de pesadelo. Em relacionamentos desta magnitude, o que vale e o que está em jogo são as circunstancias e o meio físico, não a outra pessoa em si.

Não existem emoções pré-determinadas. Todas elas, com exceção da ansiedade, como dita Freud, são construídas. Poderia então o cinema proporcionar a emoção da ansiedade? Para Zizek, o cinema é a arte das aparências. Ele nos diz algo sobre a realidade. Nos fala como se constitui a realidade. A realidade é constituída de maneira fetichista. Ou seja, determinados objetos encarnam significados que não necessariamente pertencem a eles. Em certas cenas, sabemos o que vai acontecer, no entanto, não ficamos menos surpresos quando os fatos ocorrem. Mesmo assim, o problema não se encontra no fato de não levarmos a sério aquilo que é apenas uma ficção. Mas é o contrário, o engano está em não levar a ficção em consideração. Ele cita o exemplo de indivíduos que escolhem em um jogo personagens para atuar. Dentre varias opções, o ator seleciona aqueles com características sádicas, ou estupradores, ou qualquer outra coisa. Na verdade, esse sujeito supre suas necessidades internas de maneira a minimizar suas carências reais, adotando características no jogo de uma pessoa forte e promiscua que representa uma auto-imagem falsa sua. Esta é a leitura ingênua. A interpretação mais rebuscada mostra que essa imagem falsa adotada representa o próprio "eu" do indivíduo. E que na vida real devido as sanções e normatizações sociais, não se pode deliberadamente liberá-las. Precisamos de uma ficção para mostrar aquilo que realmente somos.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

O caráter cênico II.

Ler História dos Espetáculos tem sido bastante útil para a cadeira de História das Artes Cênicas e, sobretudo, para a minha vida intelectual. Hermilo Borba Filho expõe lindamente todo o seu conhecimento artístico naquelas velhas e quase arrancadas páginas do livro da biblioteca. Propagandas à parte, foi a partir de uma leitura extasiante sobre o Teatro Inglês que tive a oportunidade de conhecer o mais famoso teatrólogo da língua inglesa, William Shakespeare. Ele nasceu para a arte somente em 1592, quando, ainda como ator, ingressou na Companhia de Burbage. Posteriormente, passou a ser um grande fornecedor de peças, fazendo adaptações e traduções de antigas histórias. Em seguida, escreveu algumas peças que lhe renderam a alcunha de gênio no final do século XVIII. A sua primeira peça foi A Comédia dos Erros, famosa por suas influências, inclusive do Teatro Romano, em 1594. Há, ainda, grande questionamento a respeito da autenticidade dos textos shakespeareanos, vários estudos são destinados a provar que o teatrólogo, na verdade, não passava de um factotum¹. Com Hermilo Borba Filho aprendi a insignificância desse fato, afinal o homem por si só não é nada diante da arte, pois a sua obra é, sem dúvida, o grande e verdadeiro legado da humanidade. E apesar da revolta de Greene, ao apelidar Shakespeare de John Factotum, não se pode negar todo o monumento artístico concebido pelo inglês. À época elisabethana, faziam bastantes comparações entre os teatrólogos da Inglaterra, e muitos consideravam Ben Johnson qualitativamente melhor, pois sua arte parecia mais regular; com o passar dos séculos, entretanto, o tempo comprovou a importância de Shakespeare ao consagrá-lo como um dos maiores gênios das artes. A consagração torna-se notória ao nomear as peças de ambos autores, pois com imensa dificuldade as obras de Ben Johnson serão citadas, diferentemente do que ocorrerá com as obras do autor de Romeu e Julieta. Após a morte do amigo e rival, Shakespeare, Ben Johnson proferiu lindas palavras descrevendo-o, quiçá suficientes para explicar o fenômeno nascido em abril de 1564:
“Se a natureza é a matéria do poeta, é a sua arte que lhe dá a forma. O trabalho faz o poeta, tanto quanto o nascimento; e este foi o seu caso. Aquele que compôs estâncias eternas sobre trabalhar na bigorna das musas, voltou a manejar várias vezes seus próprios versos, corrigiu também seu caráter, porque o verdadeiro poeta se faz: não nasce somente. Tu és a prova, meu Shakespeare [...] ELE NÃO PERTENCIA AO SEU TEMPO, MAS A TODOS OS TEMPOS.”

¹ Homem que emprestava o seu nome para algum outro que não desejava aparecer.

sábado, 5 de abril de 2008

"Fica a dica."

VÍDEO Essa semana, Rodrigo alertou-me para o "hit do inverno" e, desde então, a propagação foi tamanha que em todos os lugares ouço "qualquer coisa no seu quadrado, qualquercoisanoseuquadrado". O mais interessante é notar que o vídeo não é novo, mas data de 2006 ainda, como nós não tínhamos nos dado conta desse verdadeiro "ventilador cultural"? De qualquer forma, nunca é tarde para apreciar a arte. Sintam-se à vontade no seu quadrado.
http://www.youtube.com/watch?v=Ktgsn_G59os
MÚSICA Caminhando pela casa, eu, de repente, achei um livro sobre o "Dark Side Of The Moon", de Pink Floyd e, no mínimo, fiquei interessada em folear e decodificar cada página. Nada disso foi feito ainda, no entanto, visualizar o livro lembrou-me do imenso tempo que não ouço a banda. Aproveitei a deixa para ouvir e viciar-me na música que atrae, especialmente, a minha atenção nesse cd, Brain Damage. A explicação para esse circuito magnético é bem obscura, não sei o motivo da cisma com essa música, mas a dica é essa.
http://musica.busca.uol.com.br/radio/index.php?ad=on&ref=Musica&busca=brain+damage&param1=homebusca&q=brain+damage&check=musica
QUADRO O quadro é realmente intrigante e o título ainda mais. Hoje, na minha pacata aula de História das Artes Plásticas tive o prazer de conhecer mais essa obra de Courbet, a grande expressão do Realismo francês. Com uma análise bastante ignorante, senti que aquele quadro não poderia ser de outro movimento artístico, é extremamente real o que observo naquela pintura, não por (talvez) parecer o que de fato é, mas pela crueza como tudo é exposto e pela sensação de, no mínimo, estranheza que a obra nos causa. Enfim, o Realismo literário e plástico atraem-me bastante.
http://www.rmn.fr/gustavecourbet/02parcours/img/20.jpg

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O caráter cênico.

Semana passada lembrei do livro que ganhei indo ao teatro há, pelo menos, cinco anos, assistir à peça O Alienista, baseado na obra homônima de Machado de Assis. Falando em artes cênicas, estou sendo uma aluna exemplar na cadeira do velho Bigi, passei o fim de semana lendo ou tentando ler a tal A Mandrágora, do maquiavélico, a fim de me preparar para o seminário de Júlia, Talita e Pacífico, o traidor (por sempre boicotar a nossa tentativa de boicotar a aula de espanhol), na segunda. Se eu soubesse que Talita ia narrar a peça de forma tão extasiante, confesso que não teria sacrificado meu fim de semana de descanso para ler as intermináveis páginas. Confesso, ainda, que eu não sabia o que significava o verbete mandrágora e muito menos sabia do poder de tal planta. De qualquer forma, como eu já previa, conclui que o Teatro Renascentista é bem mais interessante que o Teatro Romano, tema do meu trabalho, que me "obrigou" a ler O Eunuco, de Terêncio. Inclusive, desde o primeiro dia de aula naquela bodega esse eunuco me estressou, após quase quatro anos sem apresentar um único trabalho, eu precisava dar um show de apresentação em apenas três semanas. E achando isso pouco, Daniel ainda ficava me assombrando. Dos males o menor, quase eu não consigo apresentar por "bloqueio de memória", mas depois deu tudo certo, aposto num dez (ironia visível). E o feitiço virou contra o feiticeiro Daniel, que trocou o nome do protagonista Parmenão por Parmesão, mas ele gosta tanto de aparecer que não duvido que tenha sido um equívoco proposital. Voltando às bandas de Itaguaí, Simão de Bacamarte me encantou bastante com toda a sua determinação ao negar o pedido do rei de Portugal de permanecer regendo a Universidade de Coimbra com a sublime frase: "A ciência é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo." As conclusões do doutor da Casa Verde, contudo, culminou em algo bem trágico, até porque definir loucura é algo, no mínimo, louco e a pobre Dona Evarista sofreu as conseqüências como um cão, como o João de Santo Cristo, desde as primeiras páginas do conto. Esse fim de semana, Shakespeare será o autor da vez, vou tentar dar uma lida no Teatro Inglês até 1800, assunto do próximo seminário. Estou bem interessada nessa tarefa, porque desde o Teatro Romano leio sobre as influências de Shakespeare e estou chegando à conclusão de que ele é um copista (ironia, claro), sobretudo com a peça A Comédia dos Erros, bastante influenciada por Terêncio e por renascentistas que não vou citar nomes para evitar que Daniel fale "fica decorando os nomes dos autores desconhecidos para citar na aula", como ele me disse segunda-feira. É bom salientar que essa cisma de Daniel passou dos limites saudáveis e agora é loucura mesmo, aposto que o mestre Simão adoraria estudar esse fenômeno, porque já fui até ameaçada, por pouco não acontece a Terceira Guerra Mundial, segundo Diogo. Por hora, é isso. Inclusive, o caráter vai-e-volta deste texto foi uma homenagem ao livrinho mega chato dos franceses Philippe Breton e Serge Proulx, espero que ter lido aquilo tenha rendido os esperados dois pontos.

quarta-feira, 26 de março de 2008

O Jogo da Amarelinha - Cap. 07

"Toco a sua boca,
com um dedo toco o contorno da sua boca,
vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão,
como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse,
e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar.
Faço nascer,
de cada vez, a boca que desejo,
a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto,
e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca,
que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.
Você me olha,
de perto me olha, cada vez mais de perto,
e então brincamos de cíclope,
olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores,
se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se,
e os cíclopes se olham,
respirando confundidos,
as bocas encontram-se e lutam debilmente,
mordendo-se com os lábios,
apoiando ligeiramente a língua nos dentes,
brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio.
Então,
as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo,
cariciar lentamente a profundidade do seu cabelo,
enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes,
de movimentos vivos, de fragância obscura.
E se nos mordemos, a dor é doce;
e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego,
essa instantânea morte é bela.
E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura,
e eu sinto você tremular contra mim,
como uma lua na água."

Júlio Cortázar

domingo, 23 de março de 2008

Evasão

Faz um tempo que eu sumi, inclusive dessas bandas daqui, mas a pedidos, ou não, voltei. O motivo de tanto "descaso" com esse blog não é, necessariamente, proposital. Na verdade, ando numa fase meio "adaptativa", pessoas, assuntos, lugares, livros, tudo novo. Conheci, dia desses, Gabriela Mistral durante uma divertida aula de espanhol. Bem, ainda não li o suficiente para dizer que conheço tal poeta (poeta mesmo, porque poetisa não é nada poético, clichê à parte), mas já fui incubida da tarefa de fazer a sua biografia (bem sintética). A professora pediu, ainda, uma auto-biografia, a seguir, então, lerás sobre as duas Gabrielas. Creio que a coincidência restringe-se ao nome, qualquer semelhança é mera imaginação.

A MISTRAL
Nasció en 7 de abril de 1889, en el Chile y fue la primera mujer latinoamericana a ganar el Premio Nobel de Literatura (1945). Su verdadero nombre es Lucila de María del Perpetuo Socorro Dodoy Alcayaga, pero utiliza el seudónimo Gabriela Mistral, en homenaje a sus poetas favoritos, Gabriele D'Annunzio y Frédéric Mistral, desde que recebió su primer premio. En sus poesías los temas principales hacen referencia al abandono de su padre y la muerte de su amante.

A BEZERRA
Nasció en la guapa mañana de domingo, en 6 de noviembre de 1988, en Recife, ciudad brasileña. Su infancia fue muy graciosa, ella suelava jugar sólo todas las tardes de profesora o presentadora en lo patio trasero de la casa de su abuela. Con el tiempo, ella passó a gustar de leer periódicos por influencia del su abuelo, que suelava leer todos, ciedo por la mañana. Ahora, Gabriela es una estudiante de periodismo muy satisfecha con su elección.

Não postarei nenhuma poesia de Gabriela Mistral, cabe a cada um o interesse ou a falta dele.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Quinta, sexta e sábado.

Nas férias os dias ficam mais longos e sobra tempo para apreciar o que realmente merece apreço. Quinta sai andarilhando, como de costume, pelas ruas da minha amada cidade. O destino foi o Poço da Panela, bairro bastante arborizado com ruas de pedra, onde mora o ilustre Ariano Suassuna. A calmaria do local remete às cidades interioranas, o som máximo é o canto dos pássaros. Os casarões antigos ou novos sugerem um certo ar de riqueza, alertando que se trata de um bairro nobre. Caminhei pelas ruas ladrilhadas durante algum tempo e percebi algumas "pracinhas", um busto de Mané alguma coisa, um campo de vôlei e uma pequena Igreja. Vi, ainda, um pouco do rio Capibaribe que se atreve a passar por lá. Logo na rua Real do Poço, uma perpendicular à avenida Dezessete de Agosto, nota-se o fim do asfalto e o início das ruas de pedras. A quantidade de verde no local também é admirável, algumas casas, inclusive, ostentam palmeiras reais nas calçadas. Fugindo do clima dos casarios, vi dois condomínios fechados, três ou quatro apartamentos, algumas ruas fechadas, uma academia e um colégio, que para não se diferenciar tanto da paisagem, é verde. Há uma realidade contrastante naquela ambientação tão bonita, algumas casas apresentam-se com fachada, digamos assim, não tão nobres. Literalmente às margens do bairro, existe uma parcela populacional de nível financeiro bastante inferior ao dos donos de Hilux que também moram nas redondezas. Depois de "xeretar" a vizinhança e sem obter o sucesso de encontrar a casa do mestre armorial, voltei à movimentada e bastante comercial Avenida Dezessete de Agosto.
Na sexta, ontem, tive um dia mais recluso e musical. Sob o lema de descansar, coloquei as pernas para o ar, como sugeriu Ascenso Ferreira, e permaneci em casa admirando a genialidade de Chico Buarque de Hollanda cantando as músicas que não canso de ouvir. Fiquei, então, a curtir as canções de protesto e deleite-me ao som das faixas do cd O Político. A letra de Acorda Amor, como de costume, chamou minha atenção com seu lirismo e dramaticidade contextual que bate à porta: "Era a dura, numa muito escura viatura".
Hoje, sábado, optei por enclausurar-me no conforto de casa e novamente assistir a Hair, de Milos Forman. O filme do tcheco naturalizado norte-americano foi um sucesso na década de 70 e continua bastante atual, mesmo que seu contexto histórico tenha mudado, afinal o "imperialismo" americano continua em voga. A irreverência do filme ao mostrar os "bastidores" do que foi a Guerra do Vietnã, a popularidade das drogas e o amor-livre dos hippies torna-o muito relevante, inclusive, como referência daquela época. As cenas hilárias, reflexivas e tristes no cenário de Nova Iorque ainda emocionam bastante; ao assistir, fico sempre na expectativa da mudança no desfecho, que me rouba algumas lágrimas.

*Recomendo o passeio, a música e o filme.
**Créditos a Rafael, sempre presente.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Centenária.

A figura chave do feminismo sessentista nascia, em pleno inverno parisiense, há 100 anos, fruto da decadente aristocracia e da alta burguesia à beira da ruína. A paixão pelos livros foi incutida através do pai, que voltou de uma curta participação na guerra, em 1914, mais dedicado à família. A personalidade audaciosa e o hostil criticismo à sociedade, no entanto, só foram adquiridos mais tarde por influência de amizades. Na adolescência, devido ao desastre econômico da família, a jovem começa a sofrer fortes humilhações advindas de seu próprio pai, que a vê como uma mulher pobre e feia destinada ao fracasso matrimonial e, conseqüentemente, social. Então, sob o lema de "vencer depressa", a fim de livrar-se do conservadorismo da família, Simone de Beauvoir não hesita ao ingressar na Sorbonne estudos filosóficos. Posteriormente, na universidade, conhece Jean-Paul Sartre, com quem fará um curioso "pacto", que consistiu basicamente na supressão da monogamia em prol do maior conhecimento da alma humana. Formaram, assim, o casal mais célebre do século XX, embora morassem em casas separadas. No fim da década de 50, Beauvoir causa grande escândalo na sociedade com a publicação dos dois volumes do livro O Segundo Sexo, que quebra importantes tabus ao falar sobre o corpo da mulher e a sexualidade feminina. As vendas foram um grande sucesso, mas lhe renderam severos ataques, inclusive por parte dos amigos, além do livro ter sido posto na lista do Index pelo Vaticano. A posição favorável à libertação argelina a torna ainda mais vulnerável a observações de caráter ultrajante por parte da parcela social pró-colonização. Na sociedade vigente, Simone de Beauvoir ainda é lembrada como uma grande feminista da década de 60, sendo considerada responsável por uma verdadeira bíblia a favor das mulheres. Nenhuma outra escritora, dita feminista, fez tanto sucesso quanto ela, nem mesmo a inglesa Virginia Woolf. Duramente ofendida após publicação do livro A Mulher Desiludida, Simone deixa uma perspicaz mensagem à sociedade, afirmando que o "mal" não é o casamento, mas sim a mulher submissa: "É preciso que as mulheres trabalhem". Ela dizia que não se nasce mulher, torna-se mulher, explicando a questão da mulher por um viés cultural e não biológico. Há referências à escritora também na questão do aborto, que foi, graças ao Manifesto das 343, assinado por ela, legalizado em 1975, na França. Escreveu, ainda, um ensaio com temática bastante atual e diferente da costumeira, alertando o mundo para a questão dos idosos em A Velhice: "É preciso que todos os homens permaneçam seres humanos durante todo o tempo em que estiverem vivos". Devido à importância para a sua época e para gerações futuras, escrevi sobre a frágil garota, a determinada mulher e a ilustre velhinha, Simone de Beauvoir, que merece a nossa atenção, leitura e homenagem.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Ontem.

Ontem, fui ver uma mostra (gratuita) de documentários em prol da justiça global, na Fundação Joaquim Nabuco. Assisti a apenas um dos documentários (são dois por dia) que versava sobre o impacto da indústria do medo, tratando também do monopólio e do poder dos meios de comunicação. O vídeo, produzido por feministas e ativistas da justiça social, continha depoimentos acerca do mundo de hoje e da possibilidade de um futuro mais justo, com participação de José Saramago, Sami Nair, Gabriel García Marques, Manu Chao, entre outros. Com linguagem bastante simples, deixou a desejar apenas na ausência de legenda em português, os relatos traziam a reflexão do que seria o real terrorismo, além de fazer críticas alusivas e diretas à política de Bush, o 43º. Faz, inclusive, menção à invasão do Iraque, em 2003, não como política de combate ao terrorismo, mas como o próprio terrorismo, suscitando debates sobre o imperialismo e a pretensão norte-americana de dominar o mundo.
Após o documentário, que demorou para chegar ao fim, devido à falhas do DVD, fui a caminho da parada de ônibus, a fim de voltar logo para casa. Ainda em frente ao Quartel da Polícia Militar, no Derby, fomos (eu e Rafael) assaltados por três garotos com aparência de vinte anos de idade. Devido à abordagem cautelosa dos assaltantes, munidos apenas de bicicletas, cada qual na “sua” (bem provavelmente conseguida em situação de roubo), e à nossa distração, não havia possibilidade de escapar. Eles vieram por trás e nos cercaram na calçada da rua mediamente movimentada e ironicamente localizada em frente a um quartel. Não fizeram nada comigo, apenas seguraram Rafael pela camisa e com uma pancada na perna, deixaram-no imóvel e levaram seu celular. Os garotos não estavam interessados em dinheiro, fato que nos leva a crer que já fazem parte de uma “quadrilha” de roubo de celular. Ainda viram a carteira de Rafael e apalparam a minha bolsa, em busca de outro celular, mas não levaram mais nada, nem carteira nem bolsa. Em seguida, foram embora pedalando bicicletas como se nada tivesse ocorrido. Posteriormente, avistamos um policial, já um pouco distante do local do assalto, e fomos falar com ele, não na intenção de reaver o celular, claro; a intenção era, porém, de alertar a polícia para que haja maior segurança no local. O diálogo com “o fardado” foi responsável pela perda de qualquer esperança na polícia:

-Acabamos de ser assaltados em frente ao quartel do Derby
-Roubaram o que?
-O celular.
-Vocês estão com celular ai? Liguem para o 190 e comuniquem isso.

Se roubaram o celular, como poderíamos estar com ele?

*Programação da amostra: http://www.concepto.com.br/cclf/admin/modules/noticia/?id=324

sábado, 12 de janeiro de 2008

Garantia do fim da violência!?

Hoje, recebi um e-mail que comentava a reunião acorrida no Palácio das Princesas, a qual lançou oficialmente o Pronasci (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania) em Pernambuco.O programa tem o objetivo de conseguir uma maior participação das prefeituras do Estado no combate à violência. A cerimônia contou com a presença do polêmico Newton Carneiro, prefeito de Jaboatão dos Guararapes, que expôs dois projetos acerca do tema. Um deles foi a criação de uma secretaria municipal de segurança. O outro, um cemitério exclusivo para bandidos. Havia, ainda, no e-mail, uma entrevista com o autor dos projetos, em que ele explicava a finalidade e importância do cemitério. Desconhecendo a alcunha de louco atribuída por muitos a Newton Carneiro, iludi-me ao pensar que leria não a solução, mas, ao menos, uma medida plausível a fim de realmente diminuir/acabar com a violência. No decorrer da leitura percebi que a intenção do prefeito não é reduzir a criminalidade do Estado, mas tão-somente diminuir os índices de violência em Jaboatão, através do desvio de crimes para as cidades vizinhas, numa atitude puramente eleitoreira. Os meios para alcançar tal meta são ainda mais medonhos, visto que a justificativa é, no mínimo, ingênua (“Bandido tem medo de cemitério, de caixão de defunto!”). Após algumas gargalhadas momentâneas, surgiu a séria preocupação com o futuro do país. Posteriormente, busquei informações a respeito do inusitado prefeito, sem grande dificuldades descobri que ele foi acusado pelo Ministério Público por IMPROBIDADE. Como o próprio Newton Carneiro diz em http://acertodecontas.blog.br/entrevistas/vou-derrotar-doutor-infraero-e-doutor-dancarina/ (vale a pena conferir), que o povo não entende o que é gay, fui em busca de uma explicação sucinta a respeito do termo jurídico (“Improbidade, regra geral, é toda ação ou omissão desonesta do empregado, que revelam desonestidade, abuso de confiança, fraude ou má-fé, visando a uma vantagem para si ou para outrem. Ex.: furto, adulteração de documentos pessoais ou pertencentes ao empregador, etc.”) para que ninguém deixe de entender a gravidade da acusação. Enfim, é com completa desconfiança na redução da violência e com tamanha perplexidade ao "conhecer" tal figura que deixo aqui a entrevista recebida por e-mail (*não tenho as fontes da entrevista, mas deixo claro que tal genialidade do cemitério não é segredo para ninguém.):
- O senhor quer fazer um cemitério?
NEWTON CARNEIRO - Um cemitério pra bandido. Um cemitério especial para sepultar unicamente bandidos e criminosos de toda a espécie.
- E por que um cemitério tão específico assim?
CARNEIRO - Jaboatão tem um milhão e duzentos mil habitantes. De algum tempo pra cá, a violência lá (Jaboatão) aumentou mais do que no Recife. Venho observando que de 30 dias pra cá houve um colapso na Segurança Pública no Grande Recife. Dá pra entender que está havendo uma greve clandestina subterrânea que o governador não sabe.
- E o senhor acha que esse cemitério vai ajudar?
CARNEIRO - Pelo menos espanta os bandidos de lá e eles vão atuar em Olinda, Paulista, no Recife, porque aqui os prefeitos não têm coragem de fazer isso.
- O senhor acha que os bandidos, ao saber que tem um cemitério para eles em Jaboatão, vão fugir?
CARNEIRO - Bandido tem medo de cemitério, de caixão de defunto! Nós vamos inovar um pouco. Vamos enterrar eles normal, horizontal, são 80 centímetros por dois metros. Vai ser enterrado num saco de pano!
- Num saco de pano?
CARNEIRO - Porque com um ano e meio depois nos recolhemos os ossos todinhos pra tocar fogo!"

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Na lama do meu quintal.

Vida de estudante é andar de ônibus mesmo, mas na minha situação atual, até esse transporte já virou luxo. Então estou tendo o prazer e, talvez, o risco de aproveitar mais o Recife, literalmente com os pés no chão. Essas caminhadas à noite, tarde da noite, pela cidade rendem um certo friozinho na barriga, mas servem para aproveitar melhor a beleza da cidade. Não estranhem se parecer piegas demais, estou ainda mais apaixonada pelo Recife. As aventuras nos bacuraus do Cais de Santa Rita têm sido bastante freqüentes; nem sempre, porém, é possível desfrutar de um ônibus, muitas vezes preciso andar da rua do Parque Treze de Maio até o "encontro dos bacuraus" na madrugada parada de Recife nos "dias de branco". Enfim, acho legal a trilha, inclusive tenho observado que a cidade anda com muito policiamento. O que, de fato, irrita são os amigos (bem intencionados, claro) mandando eu apressar os meus curtos passos. Domingo foi um dos melhores dias vividos nessa parte velha da cidade, que inclusive tem quase uma Champs-Elysées em frente ao famoso Bar Novo Pina, é bom salientar que todos riram muito de mim quando fiz este comentário ufanista ontem. Nas tardes de domingo, é possível encontrar pessoas de todas as partes da "pirâmide social" nas ruas do velho Recife, fato bastante curioso e notório que se tornou ainda mais curioso e notório no dia 6 de janeiro, um domingo. A escassez de dinheiro sempre me leva para a cidade velha na garantia de um programa legal e barato, nesse dia não foi diferente, a surpresa foi o enorme som do maracatu que ecoava de longe. Meus conterrâneos sabem o quão corriqueiro é ouvir o batuque do maracatu nessas ruas; nesse dia, porém, presenciei o som do melhor maracatu que já ouvi. A harmonia era tanta que emocionava ainda mais, cada batuque batia forte no meu coração. Sempre gostei desse som estrondoso, mas domingo ele lavou a minha alma de uma forma que eu pensava que não existia. E era lindo observar todos os estamentos da tal "pirâmide social" vangloriarem o mesmo som da mesma forma, dava a impressão que algo naquele lugar unia as pessoas, pobres e ricos divertiam-se a admirar e curtir a cultura pernambucana. Ontem, preferi ficar pelo Treze de Maio, próximo à Faculdade de Direito do Recife, que tem carimbo do Império e da República, a fim de garantir uma acústica melhor para conversar. A vitrola de ficha dava um aconchego melhor ao lugar, um pouco de Beatles e um pouco de Águas de Março regavam a discussão. Uma modesta exposição fotográfica acontecia no bar, uma das fotos era do majestoso "pau de Brennand", que trouxe o tema (belezas do) Recife à mesa. Uma amiga havia ido ver de perto o monumento no começo do dia de ontem e estava ainda mais fissurada nessa obra ou insulto, segundo a opinião de alguns. Eis que o "pau de Brennand" não queria sair das nossas bocas (risos), passamos bom tempo falando sobre ele, que segundo a constatação visual de um dos integrantes da mesa, está cada dia mais próximo do Marco Zero. A conversa não se restringiu apenas ao plano cultural, divagamos também sobre a política, discutindo o futuro da cidade, Estado e país. Palpitando acerca das próximas eleições e da conduta política de "famosos" vereadores numa discussão bastante produtiva. Depois da quase expulsão do bar, devido à hora, fomos em busca do nosso bacurau Dois Irmãos, percorrendo a pé a longa e admirável rua da Aurora. Ainda arriscamos tirar fotos próximo ao caranguejo gigante e ao lado do ilustríssimo João Cabral de Melo Neto, que sempre está sentado à beira do Rio Capibaribe, assim como Manuel Bandeira. Já próximo de casa, não resistimos ao imenso desejo de imitar os beatles na capa do Abbey Road, a penúltima obra da banda. Após chegar em casa, jogamos Master, numa partida engraçada, em que, inclusive, uma das perguntas era sobre The Beatles e que o Ringo do nosso grupo, que vive querendo ser Lennon, acertou, claro. E assim o dia amanheceu e quem é de ônibus, pegou ônibus e quem é de pé, andou a pé.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Ainda em 2007.

Eu andei, a "pedido" do vestibular, pesquisando bastante sobre a obra de Clarice Lispector e vi-me encantada com a literatura clariceana. Evidente que o conhecimento sobre a renomada autora era anterior; a leitura de seus clássicos, porém, iniciou-se a partir de A Hora da Estrela, livro recomendado pela UFPE, o qual me foi bastante útil, inclusive, nas provas. Ainda nas primeiras páginas, deparei-me com meu pensamento recorrente sobre a essência humana explícito no livro. A partir de então, senti-me mais à vontade na leitura, sem intimidações, pois percebi que corroborávamos de uma idéia. Enquanto Rodrigo S.M. (Clarice) descrevia a ingênua Macabéa e fazia uma "análise" da própria análise acerca da protagonista, ele proferiu a seguinte frase que, parafraseando Clarice, soou como uma "explosão" dentro de mim:
"Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?" Tal frase suscita a especulação paradoxal entre Hobbes e Rousseau, que nos impulsiona a refletir se o homem é essencialmente mau ou se é a sociedade que o corrompe. Além de recordar aos leitores o quão cruel e mesquinho é o ser humano, quando o compara com um monstro. O brilhantismo da ucraniana quase pernambucana (risos) torna-se ainda mais evidente na percepção da linguagem extremamente simples e eficiente utilizada pela autora, que não escraviza o leitor ao dicionário. A dificuldade encontrada ao ler Clarice está na complexidade do conteúdo e não na erudição vocabular, pois são textos repletos de psicologia, que, ao meu ver, muito lembra as análises psicológicas de Machado de Assis. Este ano, várias referências à autora foram feitas nos meios comunicativos, em virtude dos 30 anos de sua morte. Em função da admiração pela escritora e da celebração dessa data, não poderia deixar de homenageá-la ainda em 2007, ano em que, inclusive, tive a grande oportunidade de “conhecê-la” mais profundamente. No ensejo de tal homenagem, cito os versos proferidos por Chico Buarque durante uma das entrevistas que integram o livro Clarice Lispector: Entrevistas. Na ocasião, a entrevistadora (Clarice) havia pedido, num clima de informalidade, alguns versos ao músico.
"Como Clarice pedisse
Um versinho que eu não disse
Me dei mal
Ficou lá dentro esperando
Mas deixou seu olho olhando
Com cara de Juízo Final"

*Recomendo o livro Clarice Lispector: Entrevistas, que atualmente integra minha mesinha de cabeceira.
**Créditos a Luciana e a Rafael Martins pelo livro emprestado e pelos conselhos na contrução deste texto, respectivamente.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

XXVIII. Melinda e Melinda - Woody Allen.

Assisti ao filme há algum tempo e, posteriormente, li críticas a respeito, a (imensa) maioria eram negativas. Aqui nessa comunidade (Doutrina dos Filmes Certos), inclusive, muitos demonstraram-se "insatisfeitos" com o desempenho do Woody Aleen nesse trabalho. Eu penso que o filme é de boa qualidade, não um excelentíssimo filme, mas bastante satisfatório. Não tenho muito conhecimento sobre filmes do Woody Allen, na verdade nem entendo muito de filmes; logo não sou a pessoa mais indicada para dá um veredito. Enfim, hoje achei uma crítica positiva sobre o filme e considerei-a bastante válida, ela expressa bem o que eu senti ao assistir a Melinda e Melinda. Deixo aqui o link para vocês avaliarem:

domingo, 23 de dezembro de 2007

XXVII. Recife


Ontem, andando pelas ruas do mangue do meu quintal, aperriei meus companheiros andarilhos ao proferir diversas vezes frases de louvor à cidade do Recife. A "revolta" deles não se devia ao fato de não sermos conterrâneos, afinal somos, mas ao fato da insistência retórica de vangloriar a minha cidade natal em todas as vezes que presto visita ao velho Recife. As belíssimas pontes, as construções antigas e a grandiosidade do rio Capibaribe inspiram e insuflam um enorme espírito recifense que se torna explícito no primeiro batuque do maracatu ou no ritmo exalado das bandas de frevo. Enfim, a partir de então, pensei que essa foto seria excelente para mostrar a beleza das pontes. Alerto, ainda, que não se trata de um nacionalismo aos moldes do major Quaresma, pois além do orgulho exprimido ao passear pelo Recife antigo, há uma imensa tristeza por ver que tal patrimônio histórico-artístico não é suficientemente cuidado e por saber da tamanha violência e criminalidade na nossa capital. Na noite passada mesmo, próximo a uma das pontes, abordaram-nos numa ameaça de assalto, mas resolvemos ignorar e seguir adiante (corajosos!?). Posteriormente, já no bacurau, ao temer uma provável briga entre um cara que pulou a catraca do ônibus e outro cheirando o popular "sucesso", decidimos descer em plena Conde da Boa Vista a fim de encontrar um transporte mais tranqüilo para voltar para casa. A periculosidade da noitada não findava, já na rua da minha casa, enquanto caminhávamos para alcançar o portão, avistamos dois caras de bicicleta (clichê de ladrões da região) que nos fizeram correr a partir do ato rápido de um dos garotos ao pular da bicicleta de repente. Felizmente, por estarmos já próximo de casa, numa rua movimentada, fomos mais uma vez poupados da provável tentativa de assalto. Tal episódio ocorreu no sábado à noite(22/12), enquanto havia show de Nação Zumbi no Marco Zero. E, finalmente em casa, pudemos descansar.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Será que todos os políticos são realmente iguais?

Esta reflexão surgiu de um recado recebido de uma amiga. Dizia-me o seguinte:

Gabriela:
Asclépio: O "Pedro Simon" se revelou um petista no ultimo instante votando a favor do PT e do Lula. Justo ele, que tanto brigou contra o PT e o Lula.Para mim foi um decepção!Será que todos os politicos são realmente iguais?
Responder


Isso é um verdadeiro absurdo Gabi. O que tenho para dizer a você é q não confie, nem acredite em todas as notícias veiculadas pela imprensa escrita ou televisiva. Muitas das informações são altamente vazias, quando não, são falsas inversões ou interpretações q n condizem com os verdadeiros fatos. Um dos mecanismos que ajudam os cidadãos a escolherem os seus representantes é a boa informação n só dos fatos, como e principalmente, de análises mais sofisticadas de dadas realidades. Infelizmente, nossa Ciência Política ainda é muito vã, se comparada a de outros países a começar pela dos EUA. Digo mais, não só nossa Ciência Política, como também a nossa própria democracia.

Explicarei. Para muitos seria um absurdo o que irei dizer. No entanto, há provas e estudos empíricos que apontam que o Brasil é um país governável e que a nossa democracia está em vias de consolidação. Para afirmar tal coisa, os analistas apontam que mecanismos como, fragmentação partidária, baixa disciplina, fisiologismo, estão presentes no nosso desenho institucional, mas não da forma como muitos acreditam. Ou seja, a relação entre Executivo e Legislativo vai muito bem obrigado e não há tanta fragmentação partidária, indisciplina e fisiologismo, muito pelo contrário.

Assim, a impressão que quiseram passar nessa notícia em relação ao Pedro Simon é falsa. Sua atitude é altamente compreensível por aqueles que têm acesso a informações mais refinadas sobre o jogo político saudável, e bom para a democracia. Toda a disputa política no Congresso ocorre perante a Instituição Partido Político. Logo, o razoável seria a identificação do candidato com o programa partidário. Via de regra, nosso sistema presidencialista é de um "presidencialismo de coalização". O que caracteriza tal desenho institucional é que em essência, os partidos proporcionam o respaldo parlamentar necessário e, em contrapartida, participam do governo. Por isso, como o PMDB faz parte da coligação governista, é mais do que claro, que Pedro Simon vote com a bancada governista, e que assim, votasse pela prorrogação da CPMF, já que esse provavelmente foi o voto defendido pelo seu líder. Já que ele possui alta identificação com o partido, ele segue, como todos deveriam, o voto do líder de sua bancada. Aqui, entram dois conceitos, o de disciplina partidária e o de líder do partido.

Para JAIRO NICOLAU, a disciplina partidária no Parlamento contribui para dar previsibilidade ao processo de produção legislativa. Por disciplina entende-se a fidelidade de um deputado à posição do líder da bancada nas votações nominais em plenário. E para FABIANO SANTOS, há no nosso Congresso a existência de líderes parlamentares em detrimento dos deputados como conjunto que legisla. Logo, infere-se daí de que se os líderes partidários têm poder efetivo, há realmente poder no Congresso, e poder disperso se o número de partidos expressivos for alto.

Enfim, a conclusão que chego é que não há nada de estranho na atitude do Senador Pedro Simon. Mas, muito pelo contrario, ele agiu da forma como todos nossos Excelentíssimos Parlamentares deveriam agir, respeitando a decisão do líder da bancada, e fazendo valer a disciplina partidária. Só um parêntese. Nesse caso, um Senador que agiu errado, foi o Senador Jarbas Vasconcelos, que votou contra a prorrogação da CPMF. (No entanto, até para essa atitude há uma explicação plausível, mas fica para um próximo texto).

Por fim, deixo para quem se interessar pelo debate alguns links, onde se poderá encontrar bons textos sobre esse debate iniciado aqui.

1) AMORIM NETO, Octavio. Presidential cabinets, electoral cycles, and coalition discipline in Brazil. Dados , Rio de Janeiro, v. 43, n. 3, 2000 . Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=s0011-52582000000300003&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 15 Dec 2007. doi: 10.1590/S0011-52582000000300003. (Há uma versão em português)

2) NICOLAU, Jairo. Disciplina partidária e base parlamentar na Câmara dos Deputados no primeiro governo Fernando Henrique Cardoso (1995-1998). Dados, Rio de Janeiro, v. 43, n. 4, 2000. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=s0011-52582000000400004&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 15 Dez 2007. doi: 10.1590/S0011-52582000000400004

3) PERFORMANCE PARTIDÁRIA E INCENTIVOS ELEITORAIS: DESVENDANDO OS MISTÉRIOS DOS LÍDERES - Dalson Britto Figueiredo Filho e José Alexandre da Silva Júnior. In: http://www.seminariopolitica.t5.com.br/docs/Papers/ST552.pdf. Acesso em: 15 Dec 2007.

4) Prestígio e Credibilidade na Seleção dos Líderes no Congresso Nacional - José Alexandre da Silva Júnior e Dalson Britto Figueiredo Filho. In: http://201.48.149.89/anpocs/arquivos/15_10_2007_10_43_36.%20e%20Dalson%20Britto.pdf. Acesso em: 15 Dec 2007.

5) PALERMO, Vicente. How to govern Brazil? The debate on political institutions and the policy-making process. Dados , Rio de Janeiro, v. 43, n. 3, 2000 . Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0011-52582000000300004. Acesso em: 15 Dec 2007. doi: 10.1590/S0011-52582000000300004. (Há uma versão em português)