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domingo, 25 de outubro de 2009

Caçulinha do papai

Levantei da mesa e chamei Bruno para passear comigo. Ele jogou-se nos meus braços, para que eu ajudasse-o a descer da cadeira. Assim, segurei firme a sua mão e disse "vamos?". Passo a passo percorremos todo o restaurante, observando cada detalhe do lugar e, volta e meia, rindo um para o outro. Pés gordinhos e dentes, que de tão pequenos, se escondem e só são perceptíveis nas grandes gargalhadas. Ele parecia meio bêbado, andava cambaleando, mas eu com zelo protegia-o do chão. Parávamos quando ele achava por bem paquerar um pouco as meninas do saguão, depois retomávamos a caminhada, atrapalhando os garçons e alegrando nosso pai pela nossa união. Já sabia que Bruno estava andando começou há alguns dias , mas ainda não tinha visto, nem tampouco passeado com ele, segurando a sua mãozinha. Tinha esquecido como tudo é especial e incrivelmente lindo quando se está ao lado de uma criança. No fim do dia, Bruno riu para mim o seu sorriso mais bonito, mostrando os seus dentinhos, que, de tão pequenos, são quase imperceptíveis.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Delirando

Certo dia, conheci, na livraria Cultura, um menino, que, provavelmente vestia uma camisa do Bob Dylan, levando seu característico olhar distante no rosto. Durante alguns dedos de prosa, percebi que estava diante de uma criatura realmente intrigante, um artista? O momento não era o mais propício para conversas sem tanto nexo, afinal, estávamos sendo "testados" pelos nossos futuros colegas de turma.
Alguns dias depois, as aulas começaram e a convivência diária foi revelando, aos poucos, cada um de nós. O garoto quase sempre chegava atrasado na faculdade, quando ia, porque as ausências, por motivos laringológicos, eram bastante freqüentes. Sem negar nenhuma aventura proposta por um colega ainda mais ousado, fomos umas duas vezes, depois da aula, para praia conversar um pouco e até jogar uma bolinha. No meio da conversa, nos “declaramos”, falando algo como “eu gosto de você, mesmo sem parecer”, acho que nos sentíamos meio estranhos por não demonstrar qualquer afeto um pelo outro. Nessa noite conversamos sobre algumas coisas de âmbito pessoal, ele deu-me alguns conselhos amorosos, depois tomamos uma água de coco e fomos todos para suas respectivas casas.
Lembro-me de outro dia, em que voltamos juntos para casa depois da aula, começamos a conversar e, entre as freadas bruscas do ônibus, o garoto novamente tentou ajudar-me com outros conselhos. Talvez, até hoje, ele nem imagine, mas as poucas palavras que trocamos naquele dia foram de muita importância para mim, foi mesmo um ombro amigo.
Com o passar do tempo, a turma foi percebendo a irreverência e a criatividade existente naquele garoto, que fazia músicas para a turma e brincava de cantar. Naquela época, não tão distante de hoje, ninguém colocava muita fé quando ele afirmava ter uma banda, e julgavam ser apenas uma brincadeira, tal qual a Imparciais do Samba. Eis que algumas músicas começaram a ser postas na internet, ficando notoriamente conhecidas pela turma, que, aos poucos, foi mudando de opinião em relação às brincadeiras que aquele garoto seria capaz.
Dia 30 de agosto seria a prova de fogo, apresentar para a turma a tal Caravana do Delírio. O show ocorreu da melhor forma e foi, realmente, um sucesso. Entre músicas e tietagens, a banda foi anunciando morder a vida com os dentes. Com muita irreverência, que não poderia faltar, os garotos da Caravana ajudaram a divulgar o trabalho do colega em início de carreira, o Bob Dylan.
Confessando que, antes, eu era uma das que não colocava muita fé no gogó do garoto, ouvi “a seco” o som muito instigante, eu diria até delirante, da banda e transformei-me numa grande tiete da Caravana do Delírio. E, como já era, fiquei ainda mais fã de Matheus de Jesus.

Conheça você também: http://www.myspace.com/acaravanadodelirio

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Quinta, sexta e sábado.

Nas férias os dias ficam mais longos e sobra tempo para apreciar o que realmente merece apreço. Quinta sai andarilhando, como de costume, pelas ruas da minha amada cidade. O destino foi o Poço da Panela, bairro bastante arborizado com ruas de pedra, onde mora o ilustre Ariano Suassuna. A calmaria do local remete às cidades interioranas, o som máximo é o canto dos pássaros. Os casarões antigos ou novos sugerem um certo ar de riqueza, alertando que se trata de um bairro nobre. Caminhei pelas ruas ladrilhadas durante algum tempo e percebi algumas "pracinhas", um busto de Mané alguma coisa, um campo de vôlei e uma pequena Igreja. Vi, ainda, um pouco do rio Capibaribe que se atreve a passar por lá. Logo na rua Real do Poço, uma perpendicular à avenida Dezessete de Agosto, nota-se o fim do asfalto e o início das ruas de pedras. A quantidade de verde no local também é admirável, algumas casas, inclusive, ostentam palmeiras reais nas calçadas. Fugindo do clima dos casarios, vi dois condomínios fechados, três ou quatro apartamentos, algumas ruas fechadas, uma academia e um colégio, que para não se diferenciar tanto da paisagem, é verde. Há uma realidade contrastante naquela ambientação tão bonita, algumas casas apresentam-se com fachada, digamos assim, não tão nobres. Literalmente às margens do bairro, existe uma parcela populacional de nível financeiro bastante inferior ao dos donos de Hilux que também moram nas redondezas. Depois de "xeretar" a vizinhança e sem obter o sucesso de encontrar a casa do mestre armorial, voltei à movimentada e bastante comercial Avenida Dezessete de Agosto.
Na sexta, ontem, tive um dia mais recluso e musical. Sob o lema de descansar, coloquei as pernas para o ar, como sugeriu Ascenso Ferreira, e permaneci em casa admirando a genialidade de Chico Buarque de Hollanda cantando as músicas que não canso de ouvir. Fiquei, então, a curtir as canções de protesto e deleite-me ao som das faixas do cd O Político. A letra de Acorda Amor, como de costume, chamou minha atenção com seu lirismo e dramaticidade contextual que bate à porta: "Era a dura, numa muito escura viatura".
Hoje, sábado, optei por enclausurar-me no conforto de casa e novamente assistir a Hair, de Milos Forman. O filme do tcheco naturalizado norte-americano foi um sucesso na década de 70 e continua bastante atual, mesmo que seu contexto histórico tenha mudado, afinal o "imperialismo" americano continua em voga. A irreverência do filme ao mostrar os "bastidores" do que foi a Guerra do Vietnã, a popularidade das drogas e o amor-livre dos hippies torna-o muito relevante, inclusive, como referência daquela época. As cenas hilárias, reflexivas e tristes no cenário de Nova Iorque ainda emocionam bastante; ao assistir, fico sempre na expectativa da mudança no desfecho, que me rouba algumas lágrimas.

*Recomendo o passeio, a música e o filme.
**Créditos a Rafael, sempre presente.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Ontem.

Ontem, fui ver uma mostra (gratuita) de documentários em prol da justiça global, na Fundação Joaquim Nabuco. Assisti a apenas um dos documentários (são dois por dia) que versava sobre o impacto da indústria do medo, tratando também do monopólio e do poder dos meios de comunicação. O vídeo, produzido por feministas e ativistas da justiça social, continha depoimentos acerca do mundo de hoje e da possibilidade de um futuro mais justo, com participação de José Saramago, Sami Nair, Gabriel García Marques, Manu Chao, entre outros. Com linguagem bastante simples, deixou a desejar apenas na ausência de legenda em português, os relatos traziam a reflexão do que seria o real terrorismo, além de fazer críticas alusivas e diretas à política de Bush, o 43º. Faz, inclusive, menção à invasão do Iraque, em 2003, não como política de combate ao terrorismo, mas como o próprio terrorismo, suscitando debates sobre o imperialismo e a pretensão norte-americana de dominar o mundo.
Após o documentário, que demorou para chegar ao fim, devido à falhas do DVD, fui a caminho da parada de ônibus, a fim de voltar logo para casa. Ainda em frente ao Quartel da Polícia Militar, no Derby, fomos (eu e Rafael) assaltados por três garotos com aparência de vinte anos de idade. Devido à abordagem cautelosa dos assaltantes, munidos apenas de bicicletas, cada qual na “sua” (bem provavelmente conseguida em situação de roubo), e à nossa distração, não havia possibilidade de escapar. Eles vieram por trás e nos cercaram na calçada da rua mediamente movimentada e ironicamente localizada em frente a um quartel. Não fizeram nada comigo, apenas seguraram Rafael pela camisa e com uma pancada na perna, deixaram-no imóvel e levaram seu celular. Os garotos não estavam interessados em dinheiro, fato que nos leva a crer que já fazem parte de uma “quadrilha” de roubo de celular. Ainda viram a carteira de Rafael e apalparam a minha bolsa, em busca de outro celular, mas não levaram mais nada, nem carteira nem bolsa. Em seguida, foram embora pedalando bicicletas como se nada tivesse ocorrido. Posteriormente, avistamos um policial, já um pouco distante do local do assalto, e fomos falar com ele, não na intenção de reaver o celular, claro; a intenção era, porém, de alertar a polícia para que haja maior segurança no local. O diálogo com “o fardado” foi responsável pela perda de qualquer esperança na polícia:

-Acabamos de ser assaltados em frente ao quartel do Derby
-Roubaram o que?
-O celular.
-Vocês estão com celular ai? Liguem para o 190 e comuniquem isso.

Se roubaram o celular, como poderíamos estar com ele?

*Programação da amostra: http://www.concepto.com.br/cclf/admin/modules/noticia/?id=324

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Na lama do meu quintal.

Vida de estudante é andar de ônibus mesmo, mas na minha situação atual, até esse transporte já virou luxo. Então estou tendo o prazer e, talvez, o risco de aproveitar mais o Recife, literalmente com os pés no chão. Essas caminhadas à noite, tarde da noite, pela cidade rendem um certo friozinho na barriga, mas servem para aproveitar melhor a beleza da cidade. Não estranhem se parecer piegas demais, estou ainda mais apaixonada pelo Recife. As aventuras nos bacuraus do Cais de Santa Rita têm sido bastante freqüentes; nem sempre, porém, é possível desfrutar de um ônibus, muitas vezes preciso andar da rua do Parque Treze de Maio até o "encontro dos bacuraus" na madrugada parada de Recife nos "dias de branco". Enfim, acho legal a trilha, inclusive tenho observado que a cidade anda com muito policiamento. O que, de fato, irrita são os amigos (bem intencionados, claro) mandando eu apressar os meus curtos passos. Domingo foi um dos melhores dias vividos nessa parte velha da cidade, que inclusive tem quase uma Champs-Elysées em frente ao famoso Bar Novo Pina, é bom salientar que todos riram muito de mim quando fiz este comentário ufanista ontem. Nas tardes de domingo, é possível encontrar pessoas de todas as partes da "pirâmide social" nas ruas do velho Recife, fato bastante curioso e notório que se tornou ainda mais curioso e notório no dia 6 de janeiro, um domingo. A escassez de dinheiro sempre me leva para a cidade velha na garantia de um programa legal e barato, nesse dia não foi diferente, a surpresa foi o enorme som do maracatu que ecoava de longe. Meus conterrâneos sabem o quão corriqueiro é ouvir o batuque do maracatu nessas ruas; nesse dia, porém, presenciei o som do melhor maracatu que já ouvi. A harmonia era tanta que emocionava ainda mais, cada batuque batia forte no meu coração. Sempre gostei desse som estrondoso, mas domingo ele lavou a minha alma de uma forma que eu pensava que não existia. E era lindo observar todos os estamentos da tal "pirâmide social" vangloriarem o mesmo som da mesma forma, dava a impressão que algo naquele lugar unia as pessoas, pobres e ricos divertiam-se a admirar e curtir a cultura pernambucana. Ontem, preferi ficar pelo Treze de Maio, próximo à Faculdade de Direito do Recife, que tem carimbo do Império e da República, a fim de garantir uma acústica melhor para conversar. A vitrola de ficha dava um aconchego melhor ao lugar, um pouco de Beatles e um pouco de Águas de Março regavam a discussão. Uma modesta exposição fotográfica acontecia no bar, uma das fotos era do majestoso "pau de Brennand", que trouxe o tema (belezas do) Recife à mesa. Uma amiga havia ido ver de perto o monumento no começo do dia de ontem e estava ainda mais fissurada nessa obra ou insulto, segundo a opinião de alguns. Eis que o "pau de Brennand" não queria sair das nossas bocas (risos), passamos bom tempo falando sobre ele, que segundo a constatação visual de um dos integrantes da mesa, está cada dia mais próximo do Marco Zero. A conversa não se restringiu apenas ao plano cultural, divagamos também sobre a política, discutindo o futuro da cidade, Estado e país. Palpitando acerca das próximas eleições e da conduta política de "famosos" vereadores numa discussão bastante produtiva. Depois da quase expulsão do bar, devido à hora, fomos em busca do nosso bacurau Dois Irmãos, percorrendo a pé a longa e admirável rua da Aurora. Ainda arriscamos tirar fotos próximo ao caranguejo gigante e ao lado do ilustríssimo João Cabral de Melo Neto, que sempre está sentado à beira do Rio Capibaribe, assim como Manuel Bandeira. Já próximo de casa, não resistimos ao imenso desejo de imitar os beatles na capa do Abbey Road, a penúltima obra da banda. Após chegar em casa, jogamos Master, numa partida engraçada, em que, inclusive, uma das perguntas era sobre The Beatles e que o Ringo do nosso grupo, que vive querendo ser Lennon, acertou, claro. E assim o dia amanheceu e quem é de ônibus, pegou ônibus e quem é de pé, andou a pé.

domingo, 23 de dezembro de 2007

XXVII. Recife


Ontem, andando pelas ruas do mangue do meu quintal, aperriei meus companheiros andarilhos ao proferir diversas vezes frases de louvor à cidade do Recife. A "revolta" deles não se devia ao fato de não sermos conterrâneos, afinal somos, mas ao fato da insistência retórica de vangloriar a minha cidade natal em todas as vezes que presto visita ao velho Recife. As belíssimas pontes, as construções antigas e a grandiosidade do rio Capibaribe inspiram e insuflam um enorme espírito recifense que se torna explícito no primeiro batuque do maracatu ou no ritmo exalado das bandas de frevo. Enfim, a partir de então, pensei que essa foto seria excelente para mostrar a beleza das pontes. Alerto, ainda, que não se trata de um nacionalismo aos moldes do major Quaresma, pois além do orgulho exprimido ao passear pelo Recife antigo, há uma imensa tristeza por ver que tal patrimônio histórico-artístico não é suficientemente cuidado e por saber da tamanha violência e criminalidade na nossa capital. Na noite passada mesmo, próximo a uma das pontes, abordaram-nos numa ameaça de assalto, mas resolvemos ignorar e seguir adiante (corajosos!?). Posteriormente, já no bacurau, ao temer uma provável briga entre um cara que pulou a catraca do ônibus e outro cheirando o popular "sucesso", decidimos descer em plena Conde da Boa Vista a fim de encontrar um transporte mais tranqüilo para voltar para casa. A periculosidade da noitada não findava, já na rua da minha casa, enquanto caminhávamos para alcançar o portão, avistamos dois caras de bicicleta (clichê de ladrões da região) que nos fizeram correr a partir do ato rápido de um dos garotos ao pular da bicicleta de repente. Felizmente, por estarmos já próximo de casa, numa rua movimentada, fomos mais uma vez poupados da provável tentativa de assalto. Tal episódio ocorreu no sábado à noite(22/12), enquanto havia show de Nação Zumbi no Marco Zero. E, finalmente em casa, pudemos descansar.