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sábado, 8 de agosto de 2009

Não poderia ser outra coisa

Começo de período todo mundo fica assíduo na xerox do Diretório Central dos Estudantes (DCE) e sai correndo no final da aula para garantir lugar na fila, que nesta época do ano é enorme. Pois bem, como toda boa aluna que promete, no fim do período anterior, ler todos os textos do período seguinte, gastei meus tostões no primeiro capítulo de Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda. Bem, o professor da cadeira intitulada Realidade Sócio-econômica-política-cultural Brasileira (quase perco o fôlego!), Dacier Barros, já garantiu que essas aulas tendem a ser bem mais instigantes que os silenciosos debates unilaterais da disciplina de Ciência Política, que mediou no semestre passado. Ao que tudo indica, será mesmo, afinal, como o próprio nome diz, trata-se da Realidade [...] Brasileira e se os (futuros) jornalistas não se interessarem por ela, Triste Fim de Policarpo Quaresma (!). Também como reza a cartilha dos primeiros dias de aula, li o texto antes do professor iniciar o assunto e, óbvio, pude compreendê-lo muito melhor. Hoje, contudo, extrapolei as promessas de começo de período e acordei cedo (fato relevante, afinal eu SEMPRE hiberno e, principalmente, porque hoje é sábado) para estudar. É verdade que não faço isso desde os tempos do vestibular e, assim, não é impossível a comparação do vestibulando com o "trabalhador aventureiro", realizada por Dacier. De qualquer forma, vim até aqui — aproveitando o intervalo entre um capítulo e outro — para escrever algumas linhas que li no prefácio do livro supracitado. As palavras são de Antonio Candido (sim, sem acentos) e remontaram-me às saudosas (por que não saudosíssimas?) aulas de História do Brasil ministradas professor José Carlos da Mata no colégio NAP. Incrível como, invariavelmente, lembro-me desse professor quando leio sobre o Brasil; seja em livro de Manuel Correia de Andrade, de Gilberto Freyre ou no prefácio de Raízes do Brasil, escrito por Antonio Candido (!). E tenho certeza de que a leitura desse clássico de Sérgio Buarque de Holanda trará, muitas vezes, a figura de Senhor Wilson (Da mata é muito igual ao velhinho do desenho Dennis, o pimentinha) à minha memória. Voltando ao que interessa (?), lá vai um pouco do significado de Raízes do Brasil, que remonta às aulas de História porque esta ciência, na MINHA opinião, tem muito do que Candido escreveu.
Uma das forças de Raízes do Brasil foi ter demonstrado como o estudo do passado, longe de ser operação saudosista, modo de legitimar as estruturas vigentes, ou simples verificação, pode ser uma arma para abrir caminho aos grandes movimentos democráticos integrais, isto é, os que contam com a iniciativa do povo trabalhador e não o confinam ao papel de massa de manobra, como é uso. [A. Candido, 1986]

sábado, 27 de junho de 2009

Insustentável

Tomas pensava: deitar com uma mulher e dormir com ela, eis duas paixões não somente diferentes mas quase contraditórias. O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma série inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (este desejo diz respeito a uma só mulher).

[A insustentável leveza do ser - Milan Kundera]

terça-feira, 19 de maio de 2009

Que livro você é?

Esses dias, fiz o teste Que livro você é? e descobri que sou Antologia Poética, de Carlos Drummond de Andrade. O resultado completo dizia:
"O primeiro amor passou / O segundo amor passou / O terceiro amor passou / Mas o coração continua". Estes versos tocam você, pois você também observa a vida poeticamente. E não são só os sentimentos que te inspiram. Pequenas experiências do cotidiano – aquela moça que passa correndo com o buquê de flores, o vizinho que cantarola ao buscar o jornal na porta – emocionam você. Seu olhar é doce, mas também perspicaz.
"Antologia poética" (1962), de Drummond, um dos nossos grandes poetas, também reúne essas qualidades. Seus poemas são singelos e sagazes ao mesmo tempo, provando que não é preciso ser duro para entender as sutilezas do cotidiano.
De fato, não sei se concordo com o que diz o resultado, mas ele bem que se assemelha à minha pessoa, sentimental.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Preciso conhecer a história de Baleia!

Os Retirantes - Candido Portinari

Esses dias, não sei exatamente o motivo, mas deu-me uma vontade louca de ler Vidas Secas. Desde que tive conhecimento da existência do livro, tardiamente no segundo ano, fiquei interessada na leitura que protelei até a presente data. Ontem, acordei decidida: Preciso conhecer a história de Baleia! Então, dirigi-me ao site da Livraria Cultura (sim, eu tenho preguiça) e pedi que me trouxessem o livro em casa.

Cheguei tarde da labuta diária ontem, ainda assim não deixei de dar uma lidinha rápida na mais famosa obra do escritor Graciliano Ramos. E hoje, mesmo bastante cansada e com o adicional "cólica", não posso deixar de escrever as minhas primeiras impressões.

Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.
Depois enxaguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.
Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer. [RAMOS, Graciliano]
Bem, na capa do livro que comprei tem uma citação muito perspicaz do autor que me rendeu alguns momentos de reflexão. Comparando o ato de escrever com a maneira como as lavadeiras de Alagoas lavam as roupas, Graciliano deixa uma lição aparentemente óbvia, mas muito importante: "A palavra foi feita para dizer."

Pouco li sobre Baleia, mas já deu para perceber que o clima do livro é bem mais pesado do que eu imaginava. Uma passagem do livro remontou-me a uma foto famosa bastante triste e angustiante de uma criança moribunda da África, trazendo grande melancolia para a minha noite, principalmente ao lembrar que o livro é ficção, mas que a foto é uma cruel realidade comum em todos os lugares do mundo.

A catinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas. O vôo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos. [RAMOS, Graciliano]
Sem mais, pois ainda estou nas primeiras páginas do livro, termino este texto para retornar a minha longa caminhada com os retirantes de Vidas Secas.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Férias Líquidas

Na comunidade da turma, fizemos um balanço do que lemos nas férias. A campeã em leitura leu nove livros, sendo a maioria deles pertencentes à coleção de vampiros, última moda. Os demais membros, ou leram alguns dos tais livros ou, pelo menos, conheciam os seus títulos. Eu, diferentemente deles, só conhecia o mais famoso da série, Crepúsculo, que recentemente virou filme e praticamente uma peste entre os mais jovens. Nas férias, como de costume, não li muita coisa, apesar de ter pretendido. O livro que comecei a ler, Identidade, de Zygmunt Bauman, ainda não chegou ao fim, e olhe que eu pretendia devorá-lo em apenas dois dias. Refletindo sobre tudo isso e com o respaldo da teoria da liquidez de Bauman, cheguei à conclusão de que as ficções fantásticas estão seguindo as tendências da Modernidade Líquida, se ela realmente existir. Alguns filmes, como AI - Inteligência Artificial (2001) e o próprio Homem Bicentenário (1999) — que retratam um futuro afirmado pela Ciência como cada vez mais próximo — também são exemplos dessa tendência, mostrando uma pretensa naturalidade na possível convivência entre homens e robôs. Ao contrário do que acontecia anteriormente, a excentricidade dos seres fictícios, sejam eles extra-terrestre, robôs ou vampiros, está cada vez mais esmaecida, cedendo lugar à tendência de humanização que eles vêm sofrendo nos últimos trinta anos. Anteriormente, pois, o foco da ficção era retratar as diferenças entre os seres humanos e os fantásticos, destacando as características excêntricas destes; a tendência atual, entretanto, concede primazia às semelhanças entre esses dois mundos.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

De Joann Sfar para Saint-Exupéry


Antoine de Saint-Exupéry dispensa qualquer apresentação. O autor de O Pequeno Príncipe já teve todo o reconhecimento possível através da sua grande obra, traduzida da língua francesa para mais de 160 idiomas e dialetos, sendo o livro francês mais lido no mundo.

Publicado há mais de sessenta anos, nos Estados Unidos — por ocasião da lastimável Segunda Guerra Mundial — O Pequeno Príncipe ainda provoca emoção nos jovens e adultos que o lêem.

Tendo aprendido com o livro do aviador coisas sobre a morte e a aquarela, Joann Sfar — considerado um dos mais talentosos quadrinistas da nova geração franco-belga — publicou, no último dia 15, no Brasil, uma adaptação em quadrinhos do livro que já vendeu mais de 80 milhões de exemplares em todo o mundo.

Segundo a crítica, não se trata de uma versão fiel ao clássico infantil e é exatamente nisso que consiste sua beleza. O livro de Sfar já foi eleito pela revista francesa Lire a melhor História em Quadrinhos do ano. Um grande presente a Saint-Exupéry no 65º aniversário de publicação de O Pequeno Príncipe.

Nesse último Natal, eu que tive a honra de ser presenteada com toda a singeleza deste clássico que não canso de ler. A adaptação em quadrinhos, pelo que já pude conferir, foi detalhadamente produzida e o resultado parece muito bom. Certificarei-me disso depois da agradável leitura que farei assim que puder.

Obrigada, Papai Noel.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

O caráter cênico IV.

Esses dias, eu comecei a pensar na possibilidade de incluir a arte cênica na minha vida, diante disso, fui em busca de pensamentos que convergissem com o meu. O propósito do "tcheco-brasileiro" Yan Michalski agradou-me bastante.

“No precário campo da bibliografia teatral brasileira, tal registro [o livro O Teatro Sob Pressão: Uma Frente de Resistência] talvez seja, no momento, a tarefa mais urgente: ele permite reunir numa publicação única dados que se acham dispersos, esboçar as linhas gerais de um panorama, refrescar uma memória coletiva que, diante da velocidade com que a vida nacional evolui, tende a enfraquecer-se progressivamente e construir uma base factual para futuros estudos.” [MICHALSKI, 1989]

Desde o princípio, o escritor deixa claro seu grande desafio no livro O Teatro Sob Pressão: Uma Frente de Resistência: Mostrar que, apesar da repressão, o teatro realizado durante o período ditatorial brasileiro foi muito influente e bem realizado, sem que isso acarrete afirmar que a censura foi um elemento favorável à criação cênica.

Yan Michalski sugere em 1989, o que hoje é bastante notório: a grande problemática do teatro atual. Em decorrência dos altos custos das produções, prevalecem nos palcos os monólogos, as peças de pequeno porte ou os roteiros ínfimos que só atraem o público médio interessado em ver os atores “globais”, nem sempre talentosos.

“O teatro adquiriu, na vida do país, um destaque que nunca antes lhe coubera, e que voltou a não lhe caber a partir do momento em que a ‘distensão’ e posteriormente a ‘abertura’ começaram a desalojá-lo do espaço excepcional para o qual havia sido projetado e no qual soube firmar-se nos tempos mais duros do regime militar.” [MICHALSKI, 1989]

Diante disso, sem qualquer intuito de apologia à ditadura, muito pelo contrário, sobram questionamentos:
Quais os meios possíveis para reviver a grandeza teatral de outrora? Por que a bilheteria do cinema sobrepõe-se, hoje, à do teatro? Como e quando as produções cinematográficas "roubaram" o público e o glamour das peças teatrais?

Recomendações:
O Teatro Sob Pressão: Uma Frente de Resistência, Yan Michalski

Por Que é Tão Dicífil Gostar de Teatro?, Antro Particular

quarta-feira, 4 de junho de 2008

A LÉON WERTH

A LÉON WERTH
Peço perdão às crianças por dedicar este livro a uma pessoa grande. Tenho uma desculpa séria: essa pessoa grande é o melhor amigo que possuo no mundo. Tenho um outra desculpa: essa pessoa grande é capaz de compreender todas as coisas, até mesmo os livros de criança. Tenho ainda uma terceira: essa pessoa grande mora na França, e ela tem fome e frio. Ela precisa de consolo. Se todas essas desculpas não bastam, eu dedico então esse livro à criança que essa pessoa grande já foi. Todas as pessoas grandes foram um dia crianças. (Mas poucas se lembram disso.) Corrijo, portanto, a dedicatória:
A LÉON WERTH QUANDO ELE ERA PEQUENINO
Quem já leu O Pequeno Príncipe, certamente, impressionou-se com a belíssima dedicatória de Antoine de Saint-Exupéry a Léon Werth. Relendo o livro (na versão espanhola, El Principito), esses dias, para um trabalhoso trabalho de espanhol, novamente deparei-me com as palavras emocionantes de tal dedicatória. A leitura de cada frase parece dizer muito mais do que Exupéry explicitamente diz e propociona um choro tímido, por razões talvez não tão óbvias para outras pessoas. Assim, na curiosidade de descobrir quem foi Léon Werth, fui à busca e encontrei um texto bem legal sobre a relação que ele tinha com o grande Exupéry.

"Léon Werth, ensaísta e novelista francês encontrou-se com Saint-Exupery no ano de 1931. Tornaram-se amigos. Eram opostos. Werth era vinte e dois anos mais velho que o amigo, autor de vários livros, tendo sua escrita um estilo surrealista. Nada mais diferente e nada que impedisse essa amizade. Saint Exupery dedicou-lhe dois livros (Carta a um Refém, O príncipe pequeno) e consultou Werth em mais três. Enquanto escrevia "O pequeno príncipe", em New York, Saint-Exupery pensava nos amigos e suas privações por causa da guerra. Teria dito na ocasião que diante da impossibilidade de retirar os amigos da Europa em guerra, preferia juntar-se a eles e assim o fez.
O fim da segunda guerra mundial, Antoine de Saint Exupery não viveu para ver. Em 31 de Julho de 1944, o general Gavoille confia-lhe uma missão. É o seu último vôo. Desaparece sem deixar vestígios.
Leon Werth diria ao fim da guerra: a "paz, sem Tonio (Exupery) não é inteiramente a paz." Leon Werth não leu o livro pelo qual foi em parte responsável senão cinco meses após a morte do seu amigo, quando recebeu edição especial da obra."
Extraído, integralmente, de: Literatus

terça-feira, 29 de abril de 2008

O caráter cênico III.

Só Hoje tive a oportunidade de atentar-me para as primeiras páginas da xerox do livro História do Espetáculo (FILHO, Hermilo Borba, 1968), fiquei realmente comovida com algumas descobertas e com alguns detalhes conhecidos, mas que sob a ótica do Hermilo Borba Filho soaram bem mais emocionantes. História das Artes Cênicas é uma das cadeiras mais aproveitáveis deste período, não apenas pelo nome, que realmente apresenta-se interessante, mas também pela seriedade do professor e dos alunos.
O primeiro capítulo versa sobre a gênese do teatro, que remonta à Grécia, desmistificando essa visão, pois, atualmente, sabe-se que a arte cênica já era praticada desde a época dos egípcios (Antigüidade Oriental). A partir da perspectiva do grande Hermilo Borba Filho, o instinto teatral é algo inerente ao homem e certamente sempre existiu, como ele profere romanticamente no livro História do Espetáculo: "O teatro é tão antigo quanto o homem e com o homem permanecerá enquanto ele se mantiver sobre a face da Terra.” Acredita-se que a origem do teatro é realmente imprecisa e que talvez ele sempre tenha existido, ainda que sob a forma inconsciente, concedendo a necessidade de transformar-se e transfigurar-se aos humanos, "seres essencialmente teatrais".
Atribui-se à dança o título de mãe do teatro, conferindo a ela o papel de precursora das artes cênicas. Na dança uma das características principais do teatro já estava expressa, a imitação. Drama da Paixão Egípcia é considerada a dança dramáticas mais antiga e descreve a memorável luta entre Osíris e Set, ainda hoje lembrada pelo povo do Egito. Outra condição necessária para a existência do teatro é o caráter literário, pois o texto tem a grande responsabilidade de angariar aplausos ou vaias para a peça.
Na Grécia, a origem do teatro é atribuída a três acontecimentos recorrentes: aos Mistérios de Delos, à louvação às divindades quintoneanas e ao culto a Dionísio. A hipótese do culto ao deus Baco (Dionísio em romano) é a mais creditada, consistindo do sacrifício de um bode, tragos em grego, que dá origem à palavra tragédia. Como Dionísio é o deus da uva e, por conseguinte, do vinho, a festa dionisíaca tinha como característica principal a embriaguez, através da qual o espetáculo, bacanal, era realizado com grande entusiasmo e espontaneidade, sendo saudado pelos fiéis com muita música, dança, sexo e até violência.
Comprovando a origem religiosa e campestre do teatro, algumas cenas do filme Seconds (FRANKENHEIMER, John, 1966) foram analisadas em sala de aula e retratam, segundo o professor Ricardo Bigi, com fidedignidade, na medida do possível, o "ritual Baco", sempre realizado no meio rural.
Os bacanais, após a expansão romana, foram absorvidos pela cultura da Península Itálica, causando escândalos e desordem na capital do Império. Após 186 a.C., o Senado proibiu a sua realização, alegando haver grande vulgaridade, conspirações políticas e até crimes em tal festa. Devido à má reputação que a festa tinha naquela época, ainda hoje a palavra tem uma conotação pejorativa.
Ainda na Grécia, à época de Sólon, a organização teatral passou a ser responsabilidade do Estado, através de uma discussão entre Téspis, primeiro "diretor de troupes" gregas, e o legislador Sólon, que o acusou de mal-caráter por mentir na frente de todos. Em resposta, Téspis esclareceu que se tratava apenas de uma representação cênica. Assim, Sólon percebeu a tênue diferença entre o teatral e o "real" e considerou legítima a prática de tal "mentira", mas fez a ressalva de que ela deveria ficar restrita ao "palco", quando disse: "E aprovando tais maneiras de mentir conscientemente, não poderemos compreender que as achemos boas em relação à nossas convenções e aos nossos próprios negócios."
É engraçado perceber, após tantos séculos, que ainda há pessoas que não conseguem (ou não querem) discernir por completo ficção e realidade, confundindo personagens com atores e atuando (mentindo) como personagens.

sábado, 26 de abril de 2008

Sapatinhos de cristal.

A grande fragmentação e a conseqüente reconfiguração cultural, ocorridas a partir da segunda metade do século XX, tornaram necessária a aquisição de um novo termo para designar a cultura vigente. Grandes especulações sobre o fim da ideologia, da arte e das classes sociais associadas à crise do leninismo e da social-democracia configuram o que se denomina de Pós-Modernismo ou “condição sócio-cultural e estética do capitalismo tardio” e suas origens remontam à década de 1950 e 1960.

No livro Pós-Modernismo: A lógica cultural do capitalismo tardio, o crítico norte-americano e marxista Fredric Jameson classifica a obra pós-moderna de Andy Warhol como uma arte centrada no mercado e traça um paralelo interessante entre Van Gogh, pós-impressionista, e a maior figura do movimento do Pop Art, Andy Warhol, a partir de suas obras Three pair of shoes e Diamond dust shoes, respectivamente. A parcialidade de Fredric Jameson é percebida quando ele classifica de canônicos os trabalhos do pintor holandês e refere-se ao quadro de Andy Warhol como inexplicável, afirmando que a obra não diz absolutamente nada.

Three pair of shoes deve ser analisado a partir da reconstrução do contexto histórico em que foi pintado. A época, como alude a imagem, era de grande miséria e pobreza rural, ao homem cabia apenas a labuta coerciva. Assim, tal obra de Van Gogh deixa de ser mera imagem de contemplação artística e passa a ser um documento histórico.

Na obra de Andy Warhol, que começou a carreira artística como ilustrador de moda, a questão central do quadro encontra-se imbuída de possíveis dimensões políticas centradas em torno da mercantilização ao enfatizar o fetichismo das mercadorias. Como todas as imagens do movimento Pop Art, que, geralmente, figuram ícones populares, é evidente que o quadro Diamond dust shoes apresenta, seguindo a ótica de Fredric Jameson, falta de profundidade e superficialidade quanto ao seu sentido. É possível perceber como característica do pós-modernismo o esmaecimento do afeto cultural, que, infelizmente, propicia perda quase (?) total da subjetividade da imagem.


Bibliografia consultada: JAMESON, Fredric. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 1996. 431 p. 27-39.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

O caráter cênico II.

Ler História dos Espetáculos tem sido bastante útil para a cadeira de História das Artes Cênicas e, sobretudo, para a minha vida intelectual. Hermilo Borba Filho expõe lindamente todo o seu conhecimento artístico naquelas velhas e quase arrancadas páginas do livro da biblioteca. Propagandas à parte, foi a partir de uma leitura extasiante sobre o Teatro Inglês que tive a oportunidade de conhecer o mais famoso teatrólogo da língua inglesa, William Shakespeare. Ele nasceu para a arte somente em 1592, quando, ainda como ator, ingressou na Companhia de Burbage. Posteriormente, passou a ser um grande fornecedor de peças, fazendo adaptações e traduções de antigas histórias. Em seguida, escreveu algumas peças que lhe renderam a alcunha de gênio no final do século XVIII. A sua primeira peça foi A Comédia dos Erros, famosa por suas influências, inclusive do Teatro Romano, em 1594. Há, ainda, grande questionamento a respeito da autenticidade dos textos shakespeareanos, vários estudos são destinados a provar que o teatrólogo, na verdade, não passava de um factotum¹. Com Hermilo Borba Filho aprendi a insignificância desse fato, afinal o homem por si só não é nada diante da arte, pois a sua obra é, sem dúvida, o grande e verdadeiro legado da humanidade. E apesar da revolta de Greene, ao apelidar Shakespeare de John Factotum, não se pode negar todo o monumento artístico concebido pelo inglês. À época elisabethana, faziam bastantes comparações entre os teatrólogos da Inglaterra, e muitos consideravam Ben Johnson qualitativamente melhor, pois sua arte parecia mais regular; com o passar dos séculos, entretanto, o tempo comprovou a importância de Shakespeare ao consagrá-lo como um dos maiores gênios das artes. A consagração torna-se notória ao nomear as peças de ambos autores, pois com imensa dificuldade as obras de Ben Johnson serão citadas, diferentemente do que ocorrerá com as obras do autor de Romeu e Julieta. Após a morte do amigo e rival, Shakespeare, Ben Johnson proferiu lindas palavras descrevendo-o, quiçá suficientes para explicar o fenômeno nascido em abril de 1564:
“Se a natureza é a matéria do poeta, é a sua arte que lhe dá a forma. O trabalho faz o poeta, tanto quanto o nascimento; e este foi o seu caso. Aquele que compôs estâncias eternas sobre trabalhar na bigorna das musas, voltou a manejar várias vezes seus próprios versos, corrigiu também seu caráter, porque o verdadeiro poeta se faz: não nasce somente. Tu és a prova, meu Shakespeare [...] ELE NÃO PERTENCIA AO SEU TEMPO, MAS A TODOS OS TEMPOS.”

¹ Homem que emprestava o seu nome para algum outro que não desejava aparecer.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O caráter cênico.

Semana passada lembrei do livro que ganhei indo ao teatro há, pelo menos, cinco anos, assistir à peça O Alienista, baseado na obra homônima de Machado de Assis. Falando em artes cênicas, estou sendo uma aluna exemplar na cadeira do velho Bigi, passei o fim de semana lendo ou tentando ler a tal A Mandrágora, do maquiavélico, a fim de me preparar para o seminário de Júlia, Talita e Pacífico, o traidor (por sempre boicotar a nossa tentativa de boicotar a aula de espanhol), na segunda. Se eu soubesse que Talita ia narrar a peça de forma tão extasiante, confesso que não teria sacrificado meu fim de semana de descanso para ler as intermináveis páginas. Confesso, ainda, que eu não sabia o que significava o verbete mandrágora e muito menos sabia do poder de tal planta. De qualquer forma, como eu já previa, conclui que o Teatro Renascentista é bem mais interessante que o Teatro Romano, tema do meu trabalho, que me "obrigou" a ler O Eunuco, de Terêncio. Inclusive, desde o primeiro dia de aula naquela bodega esse eunuco me estressou, após quase quatro anos sem apresentar um único trabalho, eu precisava dar um show de apresentação em apenas três semanas. E achando isso pouco, Daniel ainda ficava me assombrando. Dos males o menor, quase eu não consigo apresentar por "bloqueio de memória", mas depois deu tudo certo, aposto num dez (ironia visível). E o feitiço virou contra o feiticeiro Daniel, que trocou o nome do protagonista Parmenão por Parmesão, mas ele gosta tanto de aparecer que não duvido que tenha sido um equívoco proposital. Voltando às bandas de Itaguaí, Simão de Bacamarte me encantou bastante com toda a sua determinação ao negar o pedido do rei de Portugal de permanecer regendo a Universidade de Coimbra com a sublime frase: "A ciência é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo." As conclusões do doutor da Casa Verde, contudo, culminou em algo bem trágico, até porque definir loucura é algo, no mínimo, louco e a pobre Dona Evarista sofreu as conseqüências como um cão, como o João de Santo Cristo, desde as primeiras páginas do conto. Esse fim de semana, Shakespeare será o autor da vez, vou tentar dar uma lida no Teatro Inglês até 1800, assunto do próximo seminário. Estou bem interessada nessa tarefa, porque desde o Teatro Romano leio sobre as influências de Shakespeare e estou chegando à conclusão de que ele é um copista (ironia, claro), sobretudo com a peça A Comédia dos Erros, bastante influenciada por Terêncio e por renascentistas que não vou citar nomes para evitar que Daniel fale "fica decorando os nomes dos autores desconhecidos para citar na aula", como ele me disse segunda-feira. É bom salientar que essa cisma de Daniel passou dos limites saudáveis e agora é loucura mesmo, aposto que o mestre Simão adoraria estudar esse fenômeno, porque já fui até ameaçada, por pouco não acontece a Terceira Guerra Mundial, segundo Diogo. Por hora, é isso. Inclusive, o caráter vai-e-volta deste texto foi uma homenagem ao livrinho mega chato dos franceses Philippe Breton e Serge Proulx, espero que ter lido aquilo tenha rendido os esperados dois pontos.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Ainda em 2007.

Eu andei, a "pedido" do vestibular, pesquisando bastante sobre a obra de Clarice Lispector e vi-me encantada com a literatura clariceana. Evidente que o conhecimento sobre a renomada autora era anterior; a leitura de seus clássicos, porém, iniciou-se a partir de A Hora da Estrela, livro recomendado pela UFPE, o qual me foi bastante útil, inclusive, nas provas. Ainda nas primeiras páginas, deparei-me com meu pensamento recorrente sobre a essência humana explícito no livro. A partir de então, senti-me mais à vontade na leitura, sem intimidações, pois percebi que corroborávamos de uma idéia. Enquanto Rodrigo S.M. (Clarice) descrevia a ingênua Macabéa e fazia uma "análise" da própria análise acerca da protagonista, ele proferiu a seguinte frase que, parafraseando Clarice, soou como uma "explosão" dentro de mim:
"Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?" Tal frase suscita a especulação paradoxal entre Hobbes e Rousseau, que nos impulsiona a refletir se o homem é essencialmente mau ou se é a sociedade que o corrompe. Além de recordar aos leitores o quão cruel e mesquinho é o ser humano, quando o compara com um monstro. O brilhantismo da ucraniana quase pernambucana (risos) torna-se ainda mais evidente na percepção da linguagem extremamente simples e eficiente utilizada pela autora, que não escraviza o leitor ao dicionário. A dificuldade encontrada ao ler Clarice está na complexidade do conteúdo e não na erudição vocabular, pois são textos repletos de psicologia, que, ao meu ver, muito lembra as análises psicológicas de Machado de Assis. Este ano, várias referências à autora foram feitas nos meios comunicativos, em virtude dos 30 anos de sua morte. Em função da admiração pela escritora e da celebração dessa data, não poderia deixar de homenageá-la ainda em 2007, ano em que, inclusive, tive a grande oportunidade de “conhecê-la” mais profundamente. No ensejo de tal homenagem, cito os versos proferidos por Chico Buarque durante uma das entrevistas que integram o livro Clarice Lispector: Entrevistas. Na ocasião, a entrevistadora (Clarice) havia pedido, num clima de informalidade, alguns versos ao músico.
"Como Clarice pedisse
Um versinho que eu não disse
Me dei mal
Ficou lá dentro esperando
Mas deixou seu olho olhando
Com cara de Juízo Final"

*Recomendo o livro Clarice Lispector: Entrevistas, que atualmente integra minha mesinha de cabeceira.
**Créditos a Luciana e a Rafael Martins pelo livro emprestado e pelos conselhos na contrução deste texto, respectivamente.

sábado, 20 de outubro de 2007

Maconha por Gabeira


"Se a Cannabis sativa fosse uma família, teria dois filhos. São irmãos de sangue, com a diferença de que num deles os exames detectam níveis mais altos de THC --o tetraidrocanabinol. O cânhamo, que entra na produção de 20 mil produtos importantes para a humanidade, tem um nível de THC inferior a 3%. A partir daí, entra em cena sua irmã, a maconha, que produz toneladas de bons e maus sonhos, com um teor de THC em torno de 6%. Na maioria dos países, a plantação de cânhamo e de maconha é igualmente proibida, um irmão pagando pelo outro, o cordeiro pelo lobo.
Pensar que é ilegal plantar cânhamo nos Estados Unidos e que a Constituição dos Estados Unidos foi escrita em papel de cânhamo ajuda pelo menos a entender as grandes fogueiras que se fazem periodicamente para destruir a canábis. Já foi assim com os livros, com a diferença de que naquela época se queria matar a cultura e na nossa querem matar uma planta --sem perceber que se trata, também, de uma cultura, e não só de uma espécie vegetal que se possa levar à extinção. [...]
A ascensão social da maconha implicou numa guinada, pois era descrita como uma droga que impulsiona o crime e agora se tornava um fator de apatia e desmotivação. Grandes dirigentes mundiais, como Bill Clinton (que "não tragou") e Fernando Henrique (que não gostou), confessaram ter experimentado a planta. As atenuantes que apresentam servem para mostrar como se toleram os excessos de uma época, desde que desvencilhados deles para cumprir as funções sociais. [...]
Não confiar cegamente em pesquisas vale tanto para as que são contra quanto para as que são a favor. Resta a observação pessoal como um ponto de referência. Os efeitos mais comuns --relaxamento, alteração do humor, redução da agressividade-- nos autorizam a afirmar que a maconha leva a um estado contemplativo. Independentemente da presença de espiritualidade, é uma experiência humana para muitos indispensável.
Há gente, no entanto, que fuma o mesmo baseado diante do mesmo pôr-do-sol e reclama que nada de novo acontece. A maconha em si não é a resposta para isso. Ela tem de ser procurada no cotidiano da pessoa, em como enfrenta seus desafios, como capitula ou avança em suas decisões íntimas.É compreensível que se tome a maconha como um sujeito com responsabilidade própria, capaz de ser julgado por seus atos ou contra quem devemos fazer uma guerra. A maconha tem mil e uma utilidades. A milésima primeira é, precisamente, servir de bode expiatório para nossas dificuldades de encarar o real." [...]
*Trechos do primeiro capítulo do livro A Maconha de Fernando Gabeira
*O primeiro capítulo completo pode ser lido em:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u4313.shtml