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segunda-feira, 5 de julho de 2010

Trânsito

Sol a pino, Centro do Recife. Impaciente com um congestionamento quilométrico que enlouquecia a cidade, Teresa passou a fazer a única coisa que lhe restava, olhar pela janela do ônibus e tentar distrair-se com a beleza das pontes e a sujeira do Cão sem Plumas. Ela até carregava um livro dentro da bolsa vermelha, mas nem o melhor enredo de Kafka a faria ler no vuco-vuco daquele coletivo. A leitura de um bom livro no caminho para casa parecia algo bastante útil para passar o tempo, e ela admirava quem conseguia fazê-lo, mas ler qualquer coisa dentro de um veículo em movimento lhe causava náuseas. As buzinas serviam de trilha sonora para aquele momento flâneur e, não raro, algum passageiro lhe confidenciava irritação com aquela demora. Nesses momentos, ela estampava - com esforço - um sorriso de simpatia no rosto, coisas da cordialidade tão esmiuçada pelo, como é mais conhecido, "pai de Chico". As pessoas estavam impacientes dentro daquele ônibus, uns reclamavam do trânsito, enquanto outros culpavam o motorista pela demora. A velocidade era de um metro por minuto, mas não havia o que fazer, nenhum carro se movimentava. Indisposta a esperar, uma passageira levantou-se e pediu ao motorista que abrisse a porta ali mesmo para ela descer. Nisso, Teresa tirou os olhos da rua e fixou-os na mulher que, ao não ser ouvida ou ao ser ignorada, irritava-se a cada segundo. A princípio, a passageira usou da gentileza para ter seu pedido atendido, mas ao perceber o cinismo do cobrador e do motorista, que fingiam não ouvir, desesperou-se. Xingado, o motorista, finalmente, deu atenção à mulher; contudo, não a atendeu. Apenas retrucou. "Grossa", disse ele. Assim teve início um bate boca vertiginoso. Todos passageiros olhavam de um lado para o outro acompanhando a confusão. Eis que (amém) chegou a parada de ônibus e então a mulher desceu. Ainda xingando, mas desceu. Findada a confusão, Teresa, novamente, isolou-se em seus pensamentos e voltou a vaguear o olhar para fora daquele veículo. Ao cruzar uma das pontes do Recife Velho, ela fixou o olhar. O ônibus seguia, mas o olhar da garota continuava lá atrás. Uma criatura vestida de vermelho com uma câmera fotográfica chamava a sua atenção. Pela aparência e em função do seu comportamento, parecia um turista. Teresa pensou em descer do ônibus para conversar com o rapaz e se livrar do trânsito, mas, enquanto hesitava, a distância entre eles ficava maior. Certamente, o motorista não iria aceitar parar antes da parada, que distava bastante dali. Seria uma nova polêmica. Então, preferiu seguir viagem. Pensando no que podia ter sido e não foi.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Sobre maracatus e carnavais

Quando eu era criança, minha família (meus avôs, minha mãe e meu irmão) costumava fugir do barulho das troças do carnaval recifense indo para a Zona da Mata do Estado, aproveitando a ocasião para visitar minha tia-avó. A viagem não me agradava muito, mas não adiantava reclamar.

Minha tia-avó, que também era minha madrinha, chamava-se Antônia, carinhosamente chamada de tia Nita, morava em Carpina, cidade natal da família da minha avó materna. A casa, que era bem grande e bem antiga, lembrava as casas descritas em romances do século XIX. Naquela época, as cidades interioranas seguiam o padrão "tudo acontece ao redor da pracinha", ainda que estivessem saindo dessa fase para uma mais comercial.

Tradicionalmente comum na Zona da Mata, o Maracatu de Baque Solto, também conhecido como Maracatu Rural, garantia a alegria de Carpina durante o feriado carnavalesco. Eu, entretanto, não me alegrava muito com ele. Os caboclos de lança - talvez pela iminência do duelo, ainda que fictício - davam-me medo. Meu avô, serelepe que só ele, ficava chamando os caboclos para perto de mim, obrigando-me a correr para os braços da minha mãe.

As tardes em Carpina eram bem pacatas. Os mais velhos, sentados em cadeiras de balanço, conversavam embaixo das árvores, enquanto eu e meu irmão, por não estarmos muito adaptados ao clima do interior, ficávamos escutando atentamente tais conversas. Eles falavam sobre, além de reminiscências, o "endiabramento" carnavalesco. Assim, cresci achando, graças aos meus progenitores, que carnaval era coisa do cão.

Nessa mesma época, o carnaval de Recife era um pouco diferente de como é hoje, ao menos é assim que o percebo. As troças, em geral, tocavam ritmos baianos, pois o axé estava na moda. Foi o auge da Banda Pingüim, com a música A vida inteira te amar, de André Rio tocando O bicho vai pegar, e de blocos como o Parceria, famoso por trazer bandas como "É o tchan" para a praia de Boa Viagem. Realidade transformada (ainda bem!) a partir dos governos de João Paulo e Luciana Santos, que instituiram a valorização das raízes pernambucanas no carnaval das cidades de Recife e Olinda, respectivamente.

O Maracatu de Baque Virado - diferentemente do Maracatu Rural, que é oriundo da cultura de Pernambuco - nasceu da tradição africana do Rei do Congo, que foi trazida para o Brasil através da colonização portuguesa. Caracterizado por um forte batuque, que energiza multidões durante o cortejo, o som deste maracatu pode, sem erro, ser verificado aos domingos nas ruas do Recife Antigo, sem hora nem lugar exato, sendo sempre uma surpresa boa encontrá-lo.

O meu primeiro contato com o Maracatu de Baque Virado, também chamado de Maracatu Nação, foi quando eu cursava a quinta série ginasial, durante os ensaios para a abertura dos jogos. O tema que o meu grupo (o vermelho) ficou responsável para retratar no evento esportivo foi A cultura pernambucana. Sinceramente, não lembro dos temas dos demais grupos (verde - eterno rival, azul e amarelo), mas me recordo bem dos ensaios e, principalmente, da apresentação final do grupo vermelho, que além de vários outros ritmos pernambucanos, mostrou um Rei Momo de dar inveja.

Durante alguns anos, enquanto eu migrava da minha infância para a adolescência, só pude curtir as festividades carnavalescas pela televisão, que, naquela época, dava total primazia ao carnaval carioca, mostrando as apresentações das escolas de samba à noite e reprisando-as à tarde. Ao completar meus quinze anos, consegui maior liberdade, podendo freqüentar o carnaval do Recife Antigo com amigos. Se na televisão já era emocionante, estar no Marco Zero, pulando ao som de Alceu Valença era algo impagável; cruzar com o batuque do maracatu nas ruas velhas do Recife também. E assim foi o meu carnaval até a minha fase "vestibulesca" (que durou muito) chegar e impedir tamanha folia.

Agora, livre do estresse do vestibular e com saudade do meu Recife em época carnavalesca, pretendo voltar às ruas, no próximo ano, para frevar. E enquanto o carnaval não chega (?), vou matando a saudade, ouvindo frevos-canção e pensando numa fantasia.


*Créditos às amigas Suzy e Mayra Luna, que me acompanharam aos carnavais no Recife Antigo.

domingo, 27 de julho de 2008

Eleitor do século XXI! (?)

(Reportagem do JC - 26/07/2008)
“Ele arrasa corações aqui. Merece ganhar pela beleza e pelo resto todo”, disse, animada, a estudante Jacilene Araújo, 21 anos, que caprichou no batom para receber o candidato. Mesmo mãe de quatro filhos, a dona de casa Valéria Cavalcanti, 27 anos, também aproveitou a caminhada para garantir a pose ao lado de Raul. “Um homem lindo desse como prefeito vai deixar a cidade bonita como ele. Largava até meu marido”, assegurou, despreocupada com a volta para casa.
FONTE: JC ON LINE
Pasmei ao ler, pensei até em discorrer algumas linhas a respeito, mas uma reuniãozinha com os velhos amigos interrompeu, merecidamente, esse plano. O avançar da hora ("avançar" porque ainda não dormi) também impossibilitam esse intento e, por trata-se de uma notícia de jornal, não é recomendável esperar para depois. Então, sugiro que o excerto da reportagem seja analisado através de uma visão latu sensu, sem ater-se ao candidato, pois minha intenção foi tão-somente incitar um debate sobre a realidade do atual eleitorado brasileiro, não tão diferente de outrora. NÉ?

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Quinta, sexta e sábado.

Nas férias os dias ficam mais longos e sobra tempo para apreciar o que realmente merece apreço. Quinta sai andarilhando, como de costume, pelas ruas da minha amada cidade. O destino foi o Poço da Panela, bairro bastante arborizado com ruas de pedra, onde mora o ilustre Ariano Suassuna. A calmaria do local remete às cidades interioranas, o som máximo é o canto dos pássaros. Os casarões antigos ou novos sugerem um certo ar de riqueza, alertando que se trata de um bairro nobre. Caminhei pelas ruas ladrilhadas durante algum tempo e percebi algumas "pracinhas", um busto de Mané alguma coisa, um campo de vôlei e uma pequena Igreja. Vi, ainda, um pouco do rio Capibaribe que se atreve a passar por lá. Logo na rua Real do Poço, uma perpendicular à avenida Dezessete de Agosto, nota-se o fim do asfalto e o início das ruas de pedras. A quantidade de verde no local também é admirável, algumas casas, inclusive, ostentam palmeiras reais nas calçadas. Fugindo do clima dos casarios, vi dois condomínios fechados, três ou quatro apartamentos, algumas ruas fechadas, uma academia e um colégio, que para não se diferenciar tanto da paisagem, é verde. Há uma realidade contrastante naquela ambientação tão bonita, algumas casas apresentam-se com fachada, digamos assim, não tão nobres. Literalmente às margens do bairro, existe uma parcela populacional de nível financeiro bastante inferior ao dos donos de Hilux que também moram nas redondezas. Depois de "xeretar" a vizinhança e sem obter o sucesso de encontrar a casa do mestre armorial, voltei à movimentada e bastante comercial Avenida Dezessete de Agosto.
Na sexta, ontem, tive um dia mais recluso e musical. Sob o lema de descansar, coloquei as pernas para o ar, como sugeriu Ascenso Ferreira, e permaneci em casa admirando a genialidade de Chico Buarque de Hollanda cantando as músicas que não canso de ouvir. Fiquei, então, a curtir as canções de protesto e deleite-me ao som das faixas do cd O Político. A letra de Acorda Amor, como de costume, chamou minha atenção com seu lirismo e dramaticidade contextual que bate à porta: "Era a dura, numa muito escura viatura".
Hoje, sábado, optei por enclausurar-me no conforto de casa e novamente assistir a Hair, de Milos Forman. O filme do tcheco naturalizado norte-americano foi um sucesso na década de 70 e continua bastante atual, mesmo que seu contexto histórico tenha mudado, afinal o "imperialismo" americano continua em voga. A irreverência do filme ao mostrar os "bastidores" do que foi a Guerra do Vietnã, a popularidade das drogas e o amor-livre dos hippies torna-o muito relevante, inclusive, como referência daquela época. As cenas hilárias, reflexivas e tristes no cenário de Nova Iorque ainda emocionam bastante; ao assistir, fico sempre na expectativa da mudança no desfecho, que me rouba algumas lágrimas.

*Recomendo o passeio, a música e o filme.
**Créditos a Rafael, sempre presente.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Na lama do meu quintal.

Vida de estudante é andar de ônibus mesmo, mas na minha situação atual, até esse transporte já virou luxo. Então estou tendo o prazer e, talvez, o risco de aproveitar mais o Recife, literalmente com os pés no chão. Essas caminhadas à noite, tarde da noite, pela cidade rendem um certo friozinho na barriga, mas servem para aproveitar melhor a beleza da cidade. Não estranhem se parecer piegas demais, estou ainda mais apaixonada pelo Recife. As aventuras nos bacuraus do Cais de Santa Rita têm sido bastante freqüentes; nem sempre, porém, é possível desfrutar de um ônibus, muitas vezes preciso andar da rua do Parque Treze de Maio até o "encontro dos bacuraus" na madrugada parada de Recife nos "dias de branco". Enfim, acho legal a trilha, inclusive tenho observado que a cidade anda com muito policiamento. O que, de fato, irrita são os amigos (bem intencionados, claro) mandando eu apressar os meus curtos passos. Domingo foi um dos melhores dias vividos nessa parte velha da cidade, que inclusive tem quase uma Champs-Elysées em frente ao famoso Bar Novo Pina, é bom salientar que todos riram muito de mim quando fiz este comentário ufanista ontem. Nas tardes de domingo, é possível encontrar pessoas de todas as partes da "pirâmide social" nas ruas do velho Recife, fato bastante curioso e notório que se tornou ainda mais curioso e notório no dia 6 de janeiro, um domingo. A escassez de dinheiro sempre me leva para a cidade velha na garantia de um programa legal e barato, nesse dia não foi diferente, a surpresa foi o enorme som do maracatu que ecoava de longe. Meus conterrâneos sabem o quão corriqueiro é ouvir o batuque do maracatu nessas ruas; nesse dia, porém, presenciei o som do melhor maracatu que já ouvi. A harmonia era tanta que emocionava ainda mais, cada batuque batia forte no meu coração. Sempre gostei desse som estrondoso, mas domingo ele lavou a minha alma de uma forma que eu pensava que não existia. E era lindo observar todos os estamentos da tal "pirâmide social" vangloriarem o mesmo som da mesma forma, dava a impressão que algo naquele lugar unia as pessoas, pobres e ricos divertiam-se a admirar e curtir a cultura pernambucana. Ontem, preferi ficar pelo Treze de Maio, próximo à Faculdade de Direito do Recife, que tem carimbo do Império e da República, a fim de garantir uma acústica melhor para conversar. A vitrola de ficha dava um aconchego melhor ao lugar, um pouco de Beatles e um pouco de Águas de Março regavam a discussão. Uma modesta exposição fotográfica acontecia no bar, uma das fotos era do majestoso "pau de Brennand", que trouxe o tema (belezas do) Recife à mesa. Uma amiga havia ido ver de perto o monumento no começo do dia de ontem e estava ainda mais fissurada nessa obra ou insulto, segundo a opinião de alguns. Eis que o "pau de Brennand" não queria sair das nossas bocas (risos), passamos bom tempo falando sobre ele, que segundo a constatação visual de um dos integrantes da mesa, está cada dia mais próximo do Marco Zero. A conversa não se restringiu apenas ao plano cultural, divagamos também sobre a política, discutindo o futuro da cidade, Estado e país. Palpitando acerca das próximas eleições e da conduta política de "famosos" vereadores numa discussão bastante produtiva. Depois da quase expulsão do bar, devido à hora, fomos em busca do nosso bacurau Dois Irmãos, percorrendo a pé a longa e admirável rua da Aurora. Ainda arriscamos tirar fotos próximo ao caranguejo gigante e ao lado do ilustríssimo João Cabral de Melo Neto, que sempre está sentado à beira do Rio Capibaribe, assim como Manuel Bandeira. Já próximo de casa, não resistimos ao imenso desejo de imitar os beatles na capa do Abbey Road, a penúltima obra da banda. Após chegar em casa, jogamos Master, numa partida engraçada, em que, inclusive, uma das perguntas era sobre The Beatles e que o Ringo do nosso grupo, que vive querendo ser Lennon, acertou, claro. E assim o dia amanheceu e quem é de ônibus, pegou ônibus e quem é de pé, andou a pé.

domingo, 23 de dezembro de 2007

XXVII. Recife


Ontem, andando pelas ruas do mangue do meu quintal, aperriei meus companheiros andarilhos ao proferir diversas vezes frases de louvor à cidade do Recife. A "revolta" deles não se devia ao fato de não sermos conterrâneos, afinal somos, mas ao fato da insistência retórica de vangloriar a minha cidade natal em todas as vezes que presto visita ao velho Recife. As belíssimas pontes, as construções antigas e a grandiosidade do rio Capibaribe inspiram e insuflam um enorme espírito recifense que se torna explícito no primeiro batuque do maracatu ou no ritmo exalado das bandas de frevo. Enfim, a partir de então, pensei que essa foto seria excelente para mostrar a beleza das pontes. Alerto, ainda, que não se trata de um nacionalismo aos moldes do major Quaresma, pois além do orgulho exprimido ao passear pelo Recife antigo, há uma imensa tristeza por ver que tal patrimônio histórico-artístico não é suficientemente cuidado e por saber da tamanha violência e criminalidade na nossa capital. Na noite passada mesmo, próximo a uma das pontes, abordaram-nos numa ameaça de assalto, mas resolvemos ignorar e seguir adiante (corajosos!?). Posteriormente, já no bacurau, ao temer uma provável briga entre um cara que pulou a catraca do ônibus e outro cheirando o popular "sucesso", decidimos descer em plena Conde da Boa Vista a fim de encontrar um transporte mais tranqüilo para voltar para casa. A periculosidade da noitada não findava, já na rua da minha casa, enquanto caminhávamos para alcançar o portão, avistamos dois caras de bicicleta (clichê de ladrões da região) que nos fizeram correr a partir do ato rápido de um dos garotos ao pular da bicicleta de repente. Felizmente, por estarmos já próximo de casa, numa rua movimentada, fomos mais uma vez poupados da provável tentativa de assalto. Tal episódio ocorreu no sábado à noite(22/12), enquanto havia show de Nação Zumbi no Marco Zero. E, finalmente em casa, pudemos descansar.