Nunca concordei com Caymmi quando ele dizia "Quem não gosta de samba, bom sujeito não é", até porque — ao contrário do que se pode pensar — só comecei a ouvir samba em meados deste ano. Então, esses dias, atrevi-me a conversar com um metaleiro e foi verdadeiramente interessante. Sem medir palavras e disposta a ouvir (ler) de tudo um pouco — de riff a power chord — desfrutei do que eu mais gosto de fazer, conversar. E, inesperadamente, o que menos se falou foi sobre heavy metal, até sobre Novos Baianos falou-se mais. Entre os assuntos mais discutidos, a sétima arte — incluindo o clássico O Poderoso Chefão e o novíssimo Bastardos Inglórios. É provável que isso seja inteligível para algumas pessoas, mas o clichê "inteligência é afrodisíaco" faz bastante sentido para mim; diálogo inteligente é algo que, de fato, desperta a minha atenção. Moral da história: diferentemente do cinema — na vida, trilha sonora não é assim tão fundamental, basta saber pronunciar Beauvoir.
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sexta-feira, 16 de outubro de 2009
O que eu queria falar,
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Há quem sambe muito bem V
As festas no bairro Cacique de Ramos, realizadas durante a década de 1980, foram marcadas por samba de temática mais alegre e ritmo mais acelerado. Aos tradicionais instrumentos, adicionou-se repique, banjo e tantã. Esses encontros deram origem ao pagode, que, a princípio, designava as festas de samba. Beth Carvalho foi madrinha desse movimento que revelou o grupo Fundo de Quintal e o cantor Zeca Pagodinho. Aproveitando o sucesso desse movimento, a indústria fonográfica batizou de pagode todo som realizado por grupos pop que faziam uso de instrumentos de samba.
Na década seguinte, com a repercussão da música sertaneja e o surgimento do axé music, as músicas de bamba foram deixadas de lado, restringindo-se, praticamente, às canções de Zeca Pagodinho. A crítica à desvalorização do sambista pelas escolas de samba — mais interessadas na “espetacularização” do desfile — perdurou também durante esses anos e ainda reverbera nos dias de hoje.
O ressurgimento do samba na cena musical deu-se a partir de meados do ano 2000, com os shows de Teresa Cristina no bairro da Lapa. Inicialmente, possuía repertório composto por canções de músicos consagrados, como Candeia, hoje ela canta músicas próprias num estilo que não se restringiu ao que foi produzido na década de 1980, no Cacique de Ramos. Seguindo o caminho trilhado por Teresa Cristina, a potiguar Roberta Sá conquistou, em 2007, dois prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) — melhor álbum e melhor cantora — pelo seu segundo CD, Que Belo Estranho Dia Para Se Ter Alegria, que vendeu mais de cinqüenta mil cópias.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BARBOSA, Orestes. Samba: Sua história, seus poetas, seus músicos e seus cantores. 2. ed. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1978.
HISTÓRIA DO SAMBA. Editora Globo. Rio de Janeiro, 1998. 40 fascículos.
LOPES, Nei. Sambeabá: O samba que não se aprende na escola. 1. ed. Rio de Janeiro: Casa da Palavra: Folha Seca, 2003.
TINHORÃO, José Ramos. Pequena historia da musica popular: da modinha a lambada. 6. ed. São Paulo: Art, 1991.
O vil metal: O dinheiro na música popular brasileira in ANPOCS. Disponível em: http://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_33/rbcs33_09.htm
Acessado em: 20/08/2009
Pequena história do samba in Geocities. Disponível em: http://br.geocities.com/biografiaschiado/HistoriaCuriosidades/HistoriadoSamba/Historiadosamba.htm
Acessado em: 25/08/2009
Na década seguinte, com a repercussão da música sertaneja e o surgimento do axé music, as músicas de bamba foram deixadas de lado, restringindo-se, praticamente, às canções de Zeca Pagodinho. A crítica à desvalorização do sambista pelas escolas de samba — mais interessadas na “espetacularização” do desfile — perdurou também durante esses anos e ainda reverbera nos dias de hoje.
O ressurgimento do samba na cena musical deu-se a partir de meados do ano 2000, com os shows de Teresa Cristina no bairro da Lapa. Inicialmente, possuía repertório composto por canções de músicos consagrados, como Candeia, hoje ela canta músicas próprias num estilo que não se restringiu ao que foi produzido na década de 1980, no Cacique de Ramos. Seguindo o caminho trilhado por Teresa Cristina, a potiguar Roberta Sá conquistou, em 2007, dois prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) — melhor álbum e melhor cantora — pelo seu segundo CD, Que Belo Estranho Dia Para Se Ter Alegria, que vendeu mais de cinqüenta mil cópias.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
BARBOSA, Orestes. Samba: Sua história, seus poetas, seus músicos e seus cantores. 2. ed. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1978.
HISTÓRIA DO SAMBA. Editora Globo. Rio de Janeiro, 1998. 40 fascículos.
LOPES, Nei. Sambeabá: O samba que não se aprende na escola. 1. ed. Rio de Janeiro: Casa da Palavra: Folha Seca, 2003.
TINHORÃO, José Ramos. Pequena historia da musica popular: da modinha a lambada. 6. ed. São Paulo: Art, 1991.
O vil metal: O dinheiro na música popular brasileira in ANPOCS. Disponível em:
Acessado em: 20/08/2009
Pequena história do samba in Geocities. Disponível em: http://br.geocities.com/biografiaschiado/HistoriaCuriosidades/HistoriadoSamba/Historiadosamba.htm
Acessado em: 25/08/2009
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Há quem sambe muito bem IV
Na década de 1950, houve o apogeu do samba-canção, sub-gênero do samba que surgiu ainda na década de 1920, com o sucesso de Linda flor (Ai, Ioiô), de Henrique Vogeler, Marques Porto e Luís Peixoto. O samba-canção caracteriza-se pelo ritmo lento e cadenciado e pelas letras sentimentais e românticas. Cartola foi um dos compositores que se popularizou nessa época com composições como As rosas não falam e O mundo é um moinho. Conta-se que esta última foi composta na noite em que Cartola não dormiu após descobrir que sua filha, Creuza, prostituía-se.
Cartola foi um dos principais responsáveis pela fundação da Estação Primeira de Mangueira — uma das escolas de samba mais tradicionais do Rio de Janeiro —, sendo o seu primeiro mestre de harmonia. A palavra definitiva na escolha do nome e das cores da escola foi de Cartola; Estação Primeira porque era a primeira estação de trem depois da Central do Brasil, onde havia samba; as cores verde e rosa teriam surgido de uma referência a um rancho em Laranjeiras.
Alguns compositores exacerbaram o sentimentalismo do samba-canção, como Maysa e Dolores Duran, que foram enquadradas, por muitos, no que se apelidou de “samba-fossa”. Com músicas caracterizadas pelo tom “dor de cotovelo”, elas fizeram sucesso durante a década de 1950.
Com da política internacional de Juscelino Kubitschek — que buscou o estreitamento das relações entre Brasil e Estados Unidos — o jazz passou a influenciar mais fortemente a música brasileira; dessa maior influência nasceu a Bossa Nova. Com a mistura de samba e jazz, criou-se um gênero novo que teve como berço o bairro carioca de Copacabana, mais particularmente o apartamento de Nara Leão. A proposta do que se chamava “Revolução João-gilbertiana” era tornar o samba mais adequado aos estúdios, substituindo todos os instrumentos de percussão pela bateria.
Durante a década de 1960, na tentativa de resgatar o samba do morro, houve um movimento de revalorização de compositores antigos e a volta do samba de partido alto. Antes caracterizados pelo improviso, os versos desse sub-gênero passaram a adquirir maior estabilidade — seguindo a tendência da indústria fonográfica — a partir das canções de Martinho da Vila. Nessa época, sucessos como Coração Leviano e Dança da Solidão foram compostos por Paulinho da Viola.
Considerada uma das maiores intérpretes do país, Clara Nunes surgiu na cena musical brasileira na década seguinte. Ela foi a primeira cantora do Brasil a vender mais de cem mil cópias de disco. Entre suas canções mais famosas, Canto das três raças. Nessa época, a indústria fonográfica comemorou também o lançamento do primeiro disco de Cartola, em 1974. Nessa época, um novo jeito de fazer samba surgiu a partir da combinação do samba tradicional com piano e arranjos românticos. A esse sub-gênero — produzido, principalmente, por Benito de Paula — deu-se o nome pejorativo de “samba-jóia”, já que os críticos musicais considerava-o cafona.
Os críticos passaram a questionar também o desempenho musical das escolas de samba no fim da década de 1970. A preocupação com a indumentária e com o espetáculo cresceu em detrimento do cuidado na elaboração do samba-enredo, que perdeu a importância de outrora e passou a ser parte integrante do desfile.
Cartola foi um dos principais responsáveis pela fundação da Estação Primeira de Mangueira — uma das escolas de samba mais tradicionais do Rio de Janeiro —, sendo o seu primeiro mestre de harmonia. A palavra definitiva na escolha do nome e das cores da escola foi de Cartola; Estação Primeira porque era a primeira estação de trem depois da Central do Brasil, onde havia samba; as cores verde e rosa teriam surgido de uma referência a um rancho em Laranjeiras.
Alguns compositores exacerbaram o sentimentalismo do samba-canção, como Maysa e Dolores Duran, que foram enquadradas, por muitos, no que se apelidou de “samba-fossa”. Com músicas caracterizadas pelo tom “dor de cotovelo”, elas fizeram sucesso durante a década de 1950.
Com da política internacional de Juscelino Kubitschek — que buscou o estreitamento das relações entre Brasil e Estados Unidos — o jazz passou a influenciar mais fortemente a música brasileira; dessa maior influência nasceu a Bossa Nova. Com a mistura de samba e jazz, criou-se um gênero novo que teve como berço o bairro carioca de Copacabana, mais particularmente o apartamento de Nara Leão. A proposta do que se chamava “Revolução João-gilbertiana” era tornar o samba mais adequado aos estúdios, substituindo todos os instrumentos de percussão pela bateria.
Durante a década de 1960, na tentativa de resgatar o samba do morro, houve um movimento de revalorização de compositores antigos e a volta do samba de partido alto. Antes caracterizados pelo improviso, os versos desse sub-gênero passaram a adquirir maior estabilidade — seguindo a tendência da indústria fonográfica — a partir das canções de Martinho da Vila. Nessa época, sucessos como Coração Leviano e Dança da Solidão foram compostos por Paulinho da Viola.
Considerada uma das maiores intérpretes do país, Clara Nunes surgiu na cena musical brasileira na década seguinte. Ela foi a primeira cantora do Brasil a vender mais de cem mil cópias de disco. Entre suas canções mais famosas, Canto das três raças. Nessa época, a indústria fonográfica comemorou também o lançamento do primeiro disco de Cartola, em 1974. Nessa época, um novo jeito de fazer samba surgiu a partir da combinação do samba tradicional com piano e arranjos românticos. A esse sub-gênero — produzido, principalmente, por Benito de Paula — deu-se o nome pejorativo de “samba-jóia”, já que os críticos musicais considerava-o cafona.
Os críticos passaram a questionar também o desempenho musical das escolas de samba no fim da década de 1970. A preocupação com a indumentária e com o espetáculo cresceu em detrimento do cuidado na elaboração do samba-enredo, que perdeu a importância de outrora e passou a ser parte integrante do desfile.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Há quem sambe muito bem III
Depois de 1917, com a gravação radiofônica e a posterior abertura do mercado para a música, compositores e interpretes passaram a ser consagrados. Entre eles, Pixinguinha, que desde os doze anos era considerado o maior flautista da cidade do Rio de Janeiro. Ele, que mais tarde liderou o grupo Oito Batutas, estudou teoria musical no Instituto Nacional de Música e, por isso, compunha de forma extremamente elaborada e bem construída, contrariando os que desprezam a música popular por considerá-la pobre. Além de flautista, Pixinguinha foi arranjador e saxofonista, entre suas composições mais famosas figuram Carinhoso — que não é samba, mas polca (estilo que teve origem na região da Boêmia) — e Lamentos.
Ao lado de Pixinguinha, ainda na década de 1920, não há como omitir a importância de Ismael Silva, responsável pela aceitação dos sambistas no ambiente fonográfico e um dos pais da já citada Deixa Falar. A escola, que surgiu no berço do samba carioca — o bairro do Estácio de Sá — durou pouco tempo e nem chegou a participar do primeiro desfile oficial das escolas de samba do Rio de Janeiro, organizado em 1932, mas, como Ismael, foi fundamental para a consolidação do samba.
A partir da década de 1930, o perseguido e discriminado samba passa a despertar o interesse da elite intelectual e passa a ser composto por jovens brancos e universitários, como Noel Rosa. Estudante de Medicina e morador da Vila Isabel, bairro carioca de classe média, Noel Rosa não demorou a interessar-se pelo samba. Durante a infância, aprendeu bandolim com a mãe e violão com o pai e poucos anos depois figurou entre os grandes sambistas do país. A tuberculose levou-o à morte ainda aos vinte e seis anos, mas não antes de compor canções antológicas, como Com Que Roupa. Atribui-se a composição dessa música ao fato de que a mãe de Noel escondia todas as roupas do filho para evitar que o ele fosse para a boêmia, já que estava doente.
Como Noel, Ary Barroso foi outro sambista que não teve origem nos morros e que freqüentou a universidade. Estudante de Direito e amante da boemia, logo foi reprovado e abandonou os estudos para dedicar-se ao samba. Em 1939, como muitos, compôs samba-exaltação para agradar à política do Estado Novo. A letra de Aquarela do Brasil tornou-se conhecida em todo o país e é cantada ainda hoje como hino nacional. É de Ary Barroso também a canção No Rancho Fundo que ficou, equivocadamente, estigmatizada como sertaneja após gravação da dupla Chitãozinho e Xororó.
Ao lado de Pixinguinha, ainda na década de 1920, não há como omitir a importância de Ismael Silva, responsável pela aceitação dos sambistas no ambiente fonográfico e um dos pais da já citada Deixa Falar. A escola, que surgiu no berço do samba carioca — o bairro do Estácio de Sá — durou pouco tempo e nem chegou a participar do primeiro desfile oficial das escolas de samba do Rio de Janeiro, organizado em 1932, mas, como Ismael, foi fundamental para a consolidação do samba.
A partir da década de 1930, o perseguido e discriminado samba passa a despertar o interesse da elite intelectual e passa a ser composto por jovens brancos e universitários, como Noel Rosa. Estudante de Medicina e morador da Vila Isabel, bairro carioca de classe média, Noel Rosa não demorou a interessar-se pelo samba. Durante a infância, aprendeu bandolim com a mãe e violão com o pai e poucos anos depois figurou entre os grandes sambistas do país. A tuberculose levou-o à morte ainda aos vinte e seis anos, mas não antes de compor canções antológicas, como Com Que Roupa. Atribui-se a composição dessa música ao fato de que a mãe de Noel escondia todas as roupas do filho para evitar que o ele fosse para a boêmia, já que estava doente.
Como Noel, Ary Barroso foi outro sambista que não teve origem nos morros e que freqüentou a universidade. Estudante de Direito e amante da boemia, logo foi reprovado e abandonou os estudos para dedicar-se ao samba. Em 1939, como muitos, compôs samba-exaltação para agradar à política do Estado Novo. A letra de Aquarela do Brasil tornou-se conhecida em todo o país e é cantada ainda hoje como hino nacional. É de Ary Barroso também a canção No Rancho Fundo que ficou, equivocadamente, estigmatizada como sertaneja após gravação da dupla Chitãozinho e Xororó.
sábado, 29 de agosto de 2009
Há quem sambe muito bem II
Nessa comunidade, os moradores costumavam transformar os quintais de suas casas em pontos de encontro para muita gente que, no intervalo do trabalho ou em período de desemprego, queria esquecer da saudade e lembrar das tradições musicais. Uma dessas casas pertencia à Hilária Batista de Almeida, Tia Ciata. Ela e muitas baianas fizeram da Praça Onze um reduto de sambistas e até hoje são lembradas nos desfiles das escolas de samba com a clássica ala das baianas.
Como disse Pixinguinha, no casarão de Tia Ciata “tocava-se choro na sala e samba no quintal”, isso porque, enquanto o primeiro era tolerado pela polícia, o segundo era tido como coisa de vagabundo. Muitos compositores deram o ar da graça na Rua Visconde de Itaúna e, não à toa, a música Pelo Telefone — considerada a primeira gravação de samba da História — teria sido composta no quintal de Tia Ciata, em 1917, pela dupla Donga e Mauro de Almeida. Atribui-se também a Sinhô — que compôs a canção Jura — a autoria dessa música, mas, apesar de mencionado na letra, ele não consta entre os compositores.
Fala-se que a exclusão de Sinhô da autoria de Pelo Telefone teria motivado seu afastamento do grupo que se reunia na casa de Tia Ciata e que a música Quem São Eles (“Não precisa pedir / Que eu vou dar / Dinheiro não tenho / Mas vou roubar”), composta em 1918, seria uma resposta a Donga.
Na primeira versão, proibida e não gravada, Pelo telefone mencionava a ordem, via telefone, de Aurelino Leal, chefe da polícia do Rio de Janeiro, para que os delegados acabassem com a jogatina nos clubes da cidade. A versão que se popularizou e foi registrada em 1917, contudo, é diferente. Nos primeiros versos ela satirizava o fato de que a polícia não fazia nada para dar fim à roleta.
Ainda hoje há não só polêmicas quanto ao fato de ser ou não Pelo Telefone o primeiro samba composto, mas também relativas à autoria da música. Naquela época, não havia preocupação autoral e, muitas vezes, a criação era coletiva e ficava anônima. O registro de Donga foi, por isso, contestado pelo grupo de sambistas que freqüentavam a casa de Tia Ciata, pois consideravam a criação de caráter coletivo, já que se tratava de um partido-alto, sub-gênero do samba em que todos improvisam os versos. Com o registro da canção na Biblioteca Nacional, Donga figurou-se como autor da primeira gravação radiofônica realizada no Brasil. Desse modo, como disse o antropólogo Ruben George Oliven, o samba surge sob o signo do dinheiro (o jogo da roleta), da tecnologia (o rádio) e do mercado (a questão da autoria).
Como disse Pixinguinha, no casarão de Tia Ciata “tocava-se choro na sala e samba no quintal”, isso porque, enquanto o primeiro era tolerado pela polícia, o segundo era tido como coisa de vagabundo. Muitos compositores deram o ar da graça na Rua Visconde de Itaúna e, não à toa, a música Pelo Telefone — considerada a primeira gravação de samba da História — teria sido composta no quintal de Tia Ciata, em 1917, pela dupla Donga e Mauro de Almeida. Atribui-se também a Sinhô — que compôs a canção Jura — a autoria dessa música, mas, apesar de mencionado na letra, ele não consta entre os compositores.
Fala-se que a exclusão de Sinhô da autoria de Pelo Telefone teria motivado seu afastamento do grupo que se reunia na casa de Tia Ciata e que a música Quem São Eles (“Não precisa pedir / Que eu vou dar / Dinheiro não tenho / Mas vou roubar”), composta em 1918, seria uma resposta a Donga.
Na primeira versão, proibida e não gravada, Pelo telefone mencionava a ordem, via telefone, de Aurelino Leal, chefe da polícia do Rio de Janeiro, para que os delegados acabassem com a jogatina nos clubes da cidade. A versão que se popularizou e foi registrada em 1917, contudo, é diferente. Nos primeiros versos ela satirizava o fato de que a polícia não fazia nada para dar fim à roleta.
Ainda hoje há não só polêmicas quanto ao fato de ser ou não Pelo Telefone o primeiro samba composto, mas também relativas à autoria da música. Naquela época, não havia preocupação autoral e, muitas vezes, a criação era coletiva e ficava anônima. O registro de Donga foi, por isso, contestado pelo grupo de sambistas que freqüentavam a casa de Tia Ciata, pois consideravam a criação de caráter coletivo, já que se tratava de um partido-alto, sub-gênero do samba em que todos improvisam os versos. Com o registro da canção na Biblioteca Nacional, Donga figurou-se como autor da primeira gravação radiofônica realizada no Brasil. Desse modo, como disse o antropólogo Ruben George Oliven, o samba surge sob o signo do dinheiro (o jogo da roleta), da tecnologia (o rádio) e do mercado (a questão da autoria).
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Há quem sambe muito bem I
O samba nasceu da influência de ritmos africanos transplantados, sincretizados e adaptados para o Brasil, na época colonial com a chegada da mão-de-obra negra em nosso país.
A origem do termo “samba” não é um consenso. Muitos atribuem à junção das palavras de origem nagô San (pagar) e Gbá (receber); outros, como Mário de Andrade, apontam para a derivação do vocábulo zamba, tipo de dança encontrada na Espanha do século XVI; e também há quem diga que deriva de muçumba, uma espécie de chocalho.
É possível que essa discussão quanto à procedência do termo “samba” não esclareça muita coisa, então, vamos deixá-la a cabo dos etnomusicólogos. Considero relevante, de qualquer forma, salientar o que diz o escritor e sambista Nei Lopes sobre uso do vocábulo no país. De acordo com ele, no livro Sambeabá: O samba que não se aprende na escola, todas as danças e folguedos populares derivados do batuque africano eram, na época da colonização brasileira, designados como samba. Com o passar dos anos, no entanto, o termo passou a caracterizar o gênero musical que se tornou o símbolo da cultura do Brasil.
Definido pelo ritmo que apresenta, o samba possui compasso binário, com acompanhamento sincopado, e andamento que varia de moderado a rápido, sendo e executado, basicamente, por cinco instrumentos. O violão e o cavaquinho concedem harmonia e melodia ao som, e o ritmo fica por conta da percussão do pandeiro, do surdo e do tamborim. Esses dois últimos criados pelos sambistas da Deixa Falar, primeira escola de samba.
Com a ascensão da cultura cafeeira no Vale do Paraíba, a mão-de-obra escrava da Bahia foi transferida para a região sudeste, sobretudo para o Rio de Janeiro, então capital federal. Posteriormente, com a abolição da escravatura e a volta dos soldados em campanha na Guerra de Canudos, outras pessoas dirigiram-se à corte em busca de emprego. Essa população concentrou-se na zona portuária do Rio de Janeiro, onde havia demanda de trabalho braçal, e formou o que o músico Heitor dos Prazeres, mais tarde, chamou de Pequena África.
A origem do termo “samba” não é um consenso. Muitos atribuem à junção das palavras de origem nagô San (pagar) e Gbá (receber); outros, como Mário de Andrade, apontam para a derivação do vocábulo zamba, tipo de dança encontrada na Espanha do século XVI; e também há quem diga que deriva de muçumba, uma espécie de chocalho.
É possível que essa discussão quanto à procedência do termo “samba” não esclareça muita coisa, então, vamos deixá-la a cabo dos etnomusicólogos. Considero relevante, de qualquer forma, salientar o que diz o escritor e sambista Nei Lopes sobre uso do vocábulo no país. De acordo com ele, no livro Sambeabá: O samba que não se aprende na escola, todas as danças e folguedos populares derivados do batuque africano eram, na época da colonização brasileira, designados como samba. Com o passar dos anos, no entanto, o termo passou a caracterizar o gênero musical que se tornou o símbolo da cultura do Brasil.
Definido pelo ritmo que apresenta, o samba possui compasso binário, com acompanhamento sincopado, e andamento que varia de moderado a rápido, sendo e executado, basicamente, por cinco instrumentos. O violão e o cavaquinho concedem harmonia e melodia ao som, e o ritmo fica por conta da percussão do pandeiro, do surdo e do tamborim. Esses dois últimos criados pelos sambistas da Deixa Falar, primeira escola de samba.
Com a ascensão da cultura cafeeira no Vale do Paraíba, a mão-de-obra escrava da Bahia foi transferida para a região sudeste, sobretudo para o Rio de Janeiro, então capital federal. Posteriormente, com a abolição da escravatura e a volta dos soldados em campanha na Guerra de Canudos, outras pessoas dirigiram-se à corte em busca de emprego. Essa população concentrou-se na zona portuária do Rio de Janeiro, onde havia demanda de trabalho braçal, e formou o que o músico Heitor dos Prazeres, mais tarde, chamou de Pequena África.
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