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domingo, 12 de julho de 2009

A África de Malick Sidibé

Lendo sobre a coreógrafa alemã Pina Bausch, que faleceu na semana passada, fui parar em Mali, no norte da África, e conheci Malick Sidibé. Ele é um dos mais conceituados fotógrafos africanos, ganhador de prêmios importantes e recentes da fotografia mundial, como o Leão de Ouro da Biennale di Venezia, em 2007, e o prêmio máximo do Photoespaña do ano passado. Ao contrário do que se pode estar pensando, os artistas não possuem nenhuma relação direta; a referência ao fotógrafo, no texto sobre a Pina Bausch, remontava ao movimento que as obras de ambos apresentam.

Oriundo de um continente financeiramente pobre e de cultura riquíssima, Malick não retratou as mazelas do seu país; ao contrário, inspirou-se na alegria do seu povo. Tal característica rendeu a ele, no Brasil, a alcunha de “antípoda de Sebastião Salgado”, pois segundo o fotógrafo malinês, “fotografia é juventude e alegria”. Não pretendo tecer comentários acerca das particularidades das obras de cada um deles, nem mesmo fazer deste texto uma apologia contrária ao estilo de fotografar do brasileiro, que também me comove, de outra maneira, claro.

Mali é um dos países mais pobres da África, com o terceiro pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo e cuja expectativa de vida não chega aos cinqüenta anos. Como muitos do seu país, que possui taxa de analfabetismo superior a setenta por cento (!), Malick não freqüentou a escola, mas passou as décadas de 1960 e 1970 dedicando-se a um estúdio fotográfico com o seu nome (Studio Malick). Talvez, por tudo isso, ele tenha dedicado-se a retratar os sorrisos malineses, como forma de evadir-se da miséria que assolava o seu povo e de contemplar a beleza daquelas pessoas.

Com câmeras, certamente, rústicas, Malick fotografou o cotidiano da cidade de Bamako, capital de Mali, retratando muito da moda do seu povo. Sem utilizar-se dos ensinamentos bressonianos, afinal trata-se de um retratista de estúdio, ele conseguia deixar seus modelos muito à vontade, a ponto de suas expressões transmitirem que era exatamente daquele jeito que eles queriam estar. As fotos de Malick transformam o colorido africano em preto e branco, algo que eu não conseguia conceber antes de conhecer seus retratos. O colorido da África é algo que realmente me encanta (!), mas o fotógrafo não pôde ou não quis retratá-lo e, ainda assim, suas fotos não me pedem cor e mostram-se exatamente como deviam ser.